Ano V - fevereiro  2003 - nº 54

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 54
FESTANÇA
CANCIONEIRO

setaquad.gif (95 bytes)Antônio Conselheiro e a guerra de Canudos, cordel de Apolônio Alves dos Santos.

setaquad.gif (95 bytes)Pedidos ao governo, poesia popular recolhida por Orlando Torres no Triângulo Mineiro.

setaquad.gif (95 bytes)O velhaco, o caboclo e os três ladrões, cordel de José da Rocha.

IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


ANTÔNIO CONSELHEIRO E A GUERRA DE CANUDOS

Apolônio Alves dos Santos


Vamos ouvir a história
De Antônio Conselheiro
Que apesar de beato
Temente a Deus verdadeiro
Em defesa de Canudos
Se tornou um guerrilheiro

O seu nome verdadeiro
Era Antônio Maciel
Que se fez um penitente
Dum sofrimento cruel
Mas apesar de sofrido
Era uma alma fiel

Vamos saber como foi
Que ele foi convertido
Em beato peregrino
Triste e arrependido
Por dois monstruosos crimes
Ter ele então cometido

Porque ele se casou
Com uma linda deidade
Bonita como uma santa
Do altar da divindade
A qual foi vítima inocente
Duma cruel falsidade.

Porque a mãe de Antônio
Com a nora não se dava
Para o filho abandoná-la
Sempre o aconselhava
Mas suas falsas calúnias
Ele não acreditava.

Mas ela vendo que o filho
Não queria acreditar
Em suas falsas calúnias
Resolveu a levantar
Um falso a sua nora
E que pudesse provar

A velha disse: Meu filho
Toda vez que você vai
Viajar de madrugada
A sua esposa lhe trai
O macho dela já sabe
A hora que você sai

Se quiser ter a certeza
Escute o que vou falar
Diga a sua mulher
Que hoje vai viajar
E fique perto da casa
Para se certificar

Verá um homem chegar
Aproveitando o escuro
E ficar atrás da casa
Com o seu plano seguro
Esperando que ela venha
Abrir o portão do muro

E assim Antônio fez
Disse pra sua senhora:
Hoje eu vou viajar
Procurar trabalho fora
Não sei se voltarei logo
Ou tenha uma demora

Então a velha maldita
Que estava prevenida
Para confirmar a trama
Com idéia pervertida
Trajou-se em roupa de homem
E caminhou decidida

De lá Antônio saiu
No horário acostumado
Resolveu se ocultar
Num recanto do cercado
Nisto viu chegar um vulto
Em um capote embrulhado

Antônio que estava armado
Com um revólver munido
Mandou pipoca no vulto
Ouviu-se grande estampido
A mulher abriu a porta
Pra ver o que tinha sido

Ele avistando a esposa
Também foi mandando brasa
A mulher soltou um grito
Igual a quem se arrasa
E mortalmente ferida
Caiu pra dentro de casa.

E Antônio Maciel
Bastante enfurecido
Correu para examinar
Aquele vulto caído
Para ver se conhecia
Quem ele havia abatido.

Quando ele descobriu
O rosto da genitora
Gritou: Valha-me Jesus
E Maria protetora
Assassinei minha mãe
Sendo ela a causadora.

Naquele momento ele
Compreendeu a cilada
Disse: Também atirei
Na minha esposa estimada
Se ela também morreu
Não tive culpa de nada

Correu para ver sua esposa
No momento extravagante
Ela ainda estava viva
Porém muito agonizante
E ele ainda contou-lhe
A história horripilante.

Ela disse: Meu esposo
Eu vou morrer inocente
E tu também me matastes
Sem prova e inconsciente
Mas por ti peço perdão
Ao nosso Onipotente.

Antônio depois que viu
A sua esposa querida
Morrer apertando a mão
Do seu esposo homicida
Naquela hora perdeu
Todos prazeres da vida

E sem mais perca de tempo
Foi entregar-se à prisão
Então depois de cumprir
A sua condenação
Saiu como peregrino
Em espinhosa missão

Dizia mesmo consigo:
Hei de viver como incréu
Pois mediante o que fiz
Ainda sou triste réu
Paguei a pena da lei
E não a pena do céu

E saindo mundo afora
Com gesto de tresloucado
Barbas e cabelos grandes
Sujo e esmolambado
E conduzindo no ombro
Grande cruzeiro pesado

Naquele tempo Canudos
Era um pequeno arraial
Antônio chegou ali
Permanecendo afinal
Dedicou-se a conselheiro
Teve o apoio em geral

Havia no arraial
Uma igrejinha indigente
E ele como beato
Pregador e penitente
Tomou a pobre igrejinha
Por seu abrigo dolente

Daí veio o apelido
De Antônio Conselheiro
Logo espalhou-se a notícia
Naquele sertão inteiro
Todo mundo tinha fé
No beato milagreiro

Logo nasceu um despeito
Dum tal padre Ibiapina
Porque viu o conselheiro
Também usando batina
E conquistando os fiéis
Pregando a santa doutrina

Finalmente Conselheiro
Era dali mandatário
Propondo ali no local
Plano revolucionário
Desfazendo da comarca
Como rebelde contrário

Porém todo povo em massa
Gostava do Conselheiro
Porque ele conquistava
Aquele sertão inteiro
Muito embora atribuído
Como ente desordeiro

Pois Antônio Conselheiro
Apesar de pregador
Falava contra a República
Não queria dar valor
Por isso os republicanos
Lhe tinham ódio e rancor

Na cidade Bom Conselho
No estado da Bahia
O governador mandou
Para o juiz certo dia
Uma ordem de expulsar
Antônio da freguesia

Nesse tempo o Conselheiro
Começou a construção
De uma igreja em Canudos
Sem ter autorização
Com isto mais se agravou
A sua perseguição

E acontece que ele
Teve muita precisão
Dumas peças de madeiras
Para fazer armação
Mandou pedir ao juiz
Daquela jurisdição

Então mandou um jagunço
Seguir como encarregado
À cidade Bom Conselho
Comandando um grupo armado
Incumbido de levar
Ao juiz o [seu] recado

Na cidade Bom Conselho
Foi chegado o cangaceiro
Ao prefeito e juiz
Dera como mensageiro
O recado que mandava
O Antônio Conselheiro

O juiz lhe respondeu:
Pode voltar desde já
E diga ao Conselheiro
Que ele conseguirá
O que está pretendendo
Se ele mesmo vir cá

Logo o jagunço fitou
Para o juiz de direito
Disse: Eu dou o seu recado
Porque não tenho outro jeito
Mas sei que o Conselheiro
Não vai ficar satisfeito

Quando o jagunço voltou
Disse: Senhor Conselheiro
O juiz lhe mandou um
Recado muito grosseiro
Me parece que ele está
Com intento traiçoeiro

Disse que o senhor mesmo
Fosse imediatamente
Disse que pretende vê-lo
Com ele de frente a frente
Pois deseja conhecer
O senhor pessoalmente

O Conselheiro pensou
E disse desta maneira:
Vamos todos reunir-nos
Numa missão prazenteira
E vamos a Bom Conselho
Buscar a dita madeira

Na manhã do outro dia
Reuniu um batalhão
De centenas de fanáticos
Como peregrinação
E seguiram a Bom Conselho
Em rigorosa missão

Porém alguns iam armados
De rifles e carabina
Embora por precaução
Pelos reveses da sina
Sem intenção de fazerem
Nenhuma carnificina

Acontece que de lá
O juiz organizou
Um batalhão de soldados
E para o qual convocou
Um tenente como chefe
E a Canudos mandou

Deu-se entre duas serras
O encontro inesperado
E Antônio Conselheiro
Quando se viu atacado
Mandou que abrisse fogo
Foi o combate travado

Então naquele combate
Muita gente pereceu
Do povo do Conselheiro
Quase a metade morreu
E da polícia escapou
O tenente que correu

O Conselheiro ficou
Sem alegria e sem glória
E o tenente voltou
Para contar a história
E lá as autoridades
Planejaram uma vitória

Foi em novembro do ano
Dezoito e noventa e seis
Do outro século passado
Que pela primeira vez
Canudos foi atacado
No dia 7 do mês

Num ataque comandado
Por Damasceno Gouveia
Marechal forte e valente
De sangue quente na veia
Esse morreu no combate
Duma morte horrenda e feia

Então ali os fanáticos
De Antônio Conselheiro
Ficaram mais prevenidos
Juntou-se mais dum guerreiro
Com as armas que tomaram
Daquele ataque primeiro

Bem reunidos cavaram
Trincheiras para defesa
E construíram de pedras
Mais de uma fortaleza
Prontos para rebaterem
Os ataques de surpresa

Ficaram bem preparados
Arranjaram munição
Todos se exercitaram
Para na ocasião
Pois até mesmo as mulheres
Pegaram no mosquetão

O segundo ataque foi
Na grande serra Combaia
No pé tinha uma lagoa
Que ficaram de atalaia
Onde muitos se banhavam
Como se fosse uma praia

Essa dita se chamava
A lagoa do Cipó
Aonde ali se banhavam
Os jagunços numa mó
Nisso os policiais
Mandaram bala sem dó

Então a dita lagoa
Ficara denominada
Como lagoa Vermelha
Desde a cena passada
Pois sua água ficou
Como sangue avermelhada

Dizem que ainda hoje
Quem passar lá em Canudos
Verá o grande cenário
Demonstrando conteúdos
Daquelas cenas dramáticas
Nos servindo de estudos

O padre Cícero Romão
Que vivia em Juazeiro
Mandou fazer um pedido
A Antônio Conselheiro
Para ele desistir
Da idéia de guerreiro

E fosse às autoridades
Para que reinasse a paz
Ele mandou a resposta
Que não seria capaz
Aquilo estava previsto
Não ia voltar atrás

Muito embora custasse
O sangue da humanidade
Mas ele tinha uma dívida
A pagar na eternidade
Só pagaria com sangue
Por espontânea vontade

Assim demais aumentou
A grande perseguição
Contra Antônio Conselheiro
Com ódio e repercussão
E ele sempre enfrentando
A grande revolução

Deu-se o segundo combate
Dia 12 de janeiro
Do outro ano seguinte
Que vou contar prazenteiro
Dezoito e noventa e sete
Ano infeliz agoureiro

Coronel Moreira César
Comandou o batalhão
Com 1.200 soldados
Seguindo em expedição
E esperando trazer
Sua vitória na mão

Caminharam vários dias
Por aqueles Cariris
Ouvindo nas terras secas
Os gritos dos bem-te-vis
Sofrendo sede e cansaços
Num sofrimento infeliz

Certa noite se acamparam
Sobre o alto da favela
Serra feia e tenebrosa
De Canudos paralela
Ali a tropa cansada
Domiu com muita cautela

Então o Moreira César
Na manhã do outro dia
Com um binóculo de alcance
Que consigo conduzia
Do arraial de Canudos
Todo movimento via

Tomou todas precauções
Com astúcia e esperteza
Foram chegando pra perto
Para atacar de surpresa
Porém os ditos jagunços
Estavam na fortaleza

Durou quase duas horas
Esse grande tiroteio
Do batalhão de soldados
Via-se um quadro feio
Formou-se um lago de sangue
E todos mortos no meio

Depois que cessou o fogo
J no final da questão
Uma mulher traiçoeira
Agarrou um mosquetão
Fez pontaria certeira
No chefe do batalhão

Coronel Moreira César
Que a tropa comandava
Também morreu no combate
Quando já se retirava
Porém foi morto à traição
Quando menos esperava

Então o governador
Tomou uma decisão
Vendo que estava séria
Aquela revolução
Para o Ministro da Guerra
Apelou a solução

Veio o Ministro da Guerra
O Prudente de Morais
Com as forças do Exército
Homens de gênios brutais
Foram cinco mil soldados
E dois bravos generais

Levaram tanques de guerra
Canhão e metralhadora
Granadas e dinamites
As armas arrasadoras
E foram arrasar Canudos
Com ordens superioras

Mas Antônio Conselheiro
De mais a mais se aprontava
Jagunços pra lhe ajudar
Todos os dias chegavam
E ele bem prevenido
Por outro ataque esperava

Pelo grande batalhão
Canudos foi atacado
Fizeram uma circular
Conforme foi planejado
Com meia hora depois
Deixarem tudo arrasado

A igreja que estava
Em fase de construção
As paredes desabaram
Com os tiros de canhão
As casas pegaram fogo
Só se ouvia explosão

Desta vez também morreu
O Antônio Conselheiro
Que viveu com seus jagunços
Implantando o desespero
Findou-se aquele flagelo
Do Nordeste brasileiro

A TV Globo mostrou
Esta cena do passado
E eu em casa assisti
O fato dramatizado
E apresento também
No meu verso improvisado

Atualmente se ver
Onde foi o arraial
As águas de um açude
Cobrindo aquele local
Onde há anos se deu
Aquela cena fatal

A-gora peço desculpas
A-os meus caros ouvintes
L-evem este meu livreto
V-ejam meus versos seguintes
E-spero que os leitores
S-ejam meus contribuintes



(O cordel; testemunha da história do Brasil. Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbosa, 1987. Literatura popular em verso, antologia, nova série, 2, p.107-125)

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