Jangada Brasil – fevereiro 2003 – nº 54 – Festança – A Festa de Iemanjá na enseada do Rio Vermelho da Baía de Todos os Santos

A FESTA DE IEMANJÁ NA ENSEADA DO RIO VERMELHO DA BAÍA DE TODOS OS SANTOS

José de Souza


Depois das festas de Oxalá, o Velho, que se realizam em janeiro, em homenagem ao Senhor do Bonfim, é a de Iemanjá umas das mais belas. Comemora-se a 2 de fevereiro e é feita com mais imponência quando a data cai num sábado, dia da semana consagrado a Iemanjá. Em um recanto da bela baía de Todos os Santos, na enseada denominada Rio Vermelho, que dá nome ao bairro, todos os anos o povo se aglomera para levar suas dádivas à dona Janaína, a Rainha do Mar.

Desde a véspera os atabaques batem anunciando os grandes festejos. No dia 2, o bairro é todo movimento. Por cima da balaustrada, bandeirinhas de papel de seda azul e branco, cores de Iemanjá, cobrem tudo. Os postes de iluminação são enfeitados com folhas de palmeiras. As baianas saem às ruas com suas indumentárias vistosas e engomadas com esmero. Em cima do antigo forte, instalam-se grandes barracas. No largo, embaixo, as barraquinhas são montadas com cores berrantes e seus nomes característicos: de santo, flor ou mulher. À beira das calçadas, as baianas sentam-se com seus vestidos rodados e os seus tabuleiros de umbus, bolinhos, cocadas e as iguarias em que é rica a terra da Bahia. Vistas de longe, do alto do velho forte, parecem enfeites colocados à beira da calçada.

Bate o meio-dia. O calor é de rachar. O cheiro de poeira mistura-se com o de dendê, o de suor com o de cachaça. As rodas de samba concorrem com as correrias das crianças. Ao longe ouve-se o roncar dos atabaques; aqui e acolá, grupos caem em sambas arrojados. Uma baianinha esguia, cheia de dengos e remeleixos, se peneira toda. Os companheiros da roda disputam por sua umbigada. O samba começa. Tudo é suor. Mas o que se espalha mesmo, acaba vendendo, é o cheiro do acarajé quentinho, do vatapá, do caruru, levado pela viração marinha.

Ansiosa a multidão espera no vaivém que a maré se encha. Somente no princípio da maré vazante é que se lançam os presentes ao mar. No rochedo da colônia de pescadores, as mãos agitam centenas de buquês de flores brancas e azuis, sorrisos-de-maria, angélicas, hortênsias. Estão juntas a lourinha mais “granfa” que chegou em seu carro do ano, e a pretinha modesta que veio de pés no chão. Mesmo quem não pode vir se faz presente: através do parente, do amigo ou do vizinho, enviou suas flores, sabonetes, espelhinhos, águas-de-colônia, pós-de-arroz, véus de noiva, perfumes – para a vaidade de Iemanjá-mulher. Há ainda centenas de bilhetinhos – quase todos falando de amor e pedindo graça.

No centro da colônia de pesca, uma boneca de cerâmica e com rabo de peixe, simbolizando a mãe-d’água, foi posta dentro de um veleiro feito de chifre, num mar de rosas. A imagem está sobre um grande cesto que reúne os presentes e dois andores cheios de lembranças. Em torno está a multidão, homens e mulheres que cantam. Foguetes estouram no ar. São três horas da tarde. À porta da colônia, a procissão começa a se organizar. Os tambores ressoam mais fortes. Todos cantam em louvor de Iemanjá. O cortejo sai comprimido entre a multidão, que o acompanha com vivas, palmas e cantos – os sagrados cantos da Rainha do Mar.

Pelas ruas, a polícia afasta o povo para abrir alas à procissão que avança com dificuldade. Cada grupo de quatro pessoas carrega os dois andores nos braços. Todos querem, de uma só vez, carregar a dona Janaína dos pescadores e saveiristas. No primeiro andor está Iemanjá dentro do veleiro e rodeada de flores. No segundo, o mar de rosas a esconder o balaio de milhares de presentes à mãe-d’água. O cortejo atravessa a multidão curiosa, que aplaude sempre, e desce à praia. O barco mais enfeitado dentre todos levará o grande cesto de oferendas ao fundo do mar. Aumentam as palmas e os vivas, novos foguetes explodem, parece que toda a praia canta. Embarcações de todos os tipos, com suas velas soltas, começam a largar: são canoas, jangadas, saveiros. Todas estão enfeitadas de bandeiras. Todas levam foguetes e flores.

A massa azul do mar está cheinha de velas brancas. Tudo é azul e branco. Os barcos percorrem a enseada. Deles parte o som dos atabaques, dos foguetes, dos cânticos. Depois de alguns minutos, o barco que conduz o cesto dos presentes para diante de um redemoinho. Ali o cesto é lançado, sob saudações de centenas de foguetes que estouram, dos atabaques em ritmo mais acelerado, dos cantos e dos gritos de viva. Os barcos fazem demonstrações de alegria: ziguezagueiam pelas águas. Na praia, homens e mulheres enchem garrafas com água do mar – é miraculosa e é bom tê-la dentro de casa, diz a crença popular. Em pouco as embarcações retornam à enseada. O samba começa de novo. A multidão sobe ao rochedo de onde saiu a oferenda.

A tarde refresca e a noite entra morna na colônia de pescadores, onde começa o candomblé em honra de Iemanjá. A noite toda de 2 de fevereiro e o dia inteiro de 3, os atabaques fazem ouvir seus sons na enseada do Rio Vermelho na baía de Todos os Santos.

(Souza, José de. “A festa de Iemanjá na enseada do Rio Vermelho da baía de Todos os Santos”. Revista da Associação Atlética Banco do Brasil. Rio de Janeiro, abril/maio de 1967, p.96-97)

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