Fevereiro
2002
Ano IV - nº 42 |
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CRENDICES
POPULARES DE CUIABÁ |
A nossa casa em Cuiabá era uma "casa assombrada", na boa e na má
acepção do termo; uma casa de um frescor "sombroso", na qual, além disso,
havia duendes; a cozinheira preta, também muito sombreada, quis abandonar-nos,
continuando a nosso serviço só porque à noite podia voltar para a sua própria
residência. Constatando-se que a cidade de Cuiabá e seus arredores são, ao que parece,
uma zona preferida pelos espíritos e pelas bruxas, não se deve esquecer que a
população da camada social inferior recebeu de três partes do mundo contingentes para
constituir o seu corpo de crendices populares; os índios, os negros e os europeus
contribuíram na formação. Embora precisamente estes últimos tenham fornecido enorme
profusão de material, sobretudo os negros são considerados necromantes de primeira
categoria; à feitiçaria, muitas vezes, chama-se simplesmente "mandinga", e ao
feiticeiro, "mandingo", termo provenientes duma tribo africana de Senegâmbia,
de onde se trouxeram muitos escravos. Não raro podem-se ver negros idosos que caminham
murmurando consigo mesmos, agachando-se e riscando sinais na areia; dão, a quem os
observa, a idéia de que estão afugentando maus espíritos. E sempre aparece algum negro
que se torna célebre pelos seus remédios contra as cobras. Falaram-se de dois
aldeamentos de escravos fugidos (quilombos), que ficam no caminho para Goiás, e cujos
habitantes, de tempos em tempos, se enfeitiçavam mutuamente de aldeia para aldeia. De um
dos quilombos enviou-se certa vez um sapo, em cujo dorso se pendurava uma bolsinha (uma
pequena bruaca") com veneno para matar alguém do povoado vizinho; o
destinatário, no entanto, notando a chegada do animal, gritou "vai-te embora" e
acrescentou alguns versinhos que, por sua vez, deviam produzir algum mal na outra aldeia.
O sapo, carregando a pequena mochila de veneno, caminhava, assim, de uma aldeia para a
outra, até que o mais forte, disparando, ainda, um tiro de espingarda na direção do
inimigo, venceu sobre o outro, que morreu. A Ásia, por seu turno, fornece representantes
em forma de ciganos. Diz-se que até não são muito raros entre os moradores da região.
Regista-se também, de vez em quando, a visita de armênios, que ficam em Cuiabá durante
o intervalo entre dois vapores; o fato desperta sempre muito interesse, porque os enfeites
e as relíquias correspondem perfeitamente à índole do povo.
Com o tempo tão limitado de que pude dispor para recolher material referente ao assunto
em questão, não me é possível apresentar algo de uniforme e completo; o leitor
encontrará preponderantemente velhos conhecidos, ficando admirado de vê-los arraigados
em lugar tão afastado, Obtive o material, em parte de compatrícios residentes em Cuiabá
há mais de quinze anos e aí casados com mulheres de cor mais ou menos acentuada, um dos
quais estava mesmo convencido da verdade intrínseca dos fatos que relatava, acreditando
sobretudo firmemente nos poderes mágicos dos negros, - e em parte de brasileiros,
especialmente de um sacerdote católico, cuiabanato.
Mãe de ouro - É hábito das mulheres colocarem objetos de ouro no primeiro banho
que dão ao recém-nascido, isto para que este, mais tarde, chegue a ser um homem rico.
Não é mais do que justo falar em primeiro lugar da Mãe de ouro, em que tanta gente pôs
as suas esperanças nessa cidade fundada em atenção às minas de ouro. É da palavra
portuguesa meteoro que se formou a denominação Mãe de ouro. A esfera luminosa
representa uma mina de ouro em movimento. Para designar o mesmo fenômeno emprega-se
igualmente o termo tupi boitatá cobra de fogo; o "diabo" passa pelo ar
em forma de bola luminosa deixando cair o ouro para aquele com que fez o pacto. Existe,
também, uma mina de ouro, que é freqüentemente ferida pelo raio. Quando cai um meteoro
costuma-se dizer "mãe de ouro mudou". Surge da terra uma bola de fogo, e 2-5
léguas adiante a bola entra novamente no chão, Houve gente que correu atrás,
encontrando, no dia seguinte, até 1/4 de arroba (4 kg.) de ouro.
A mulher a que se refere a denominação mãe de ouro é uma realidade. Em
Rosário, a montante do rio Cuiabá, morava, no lugar em que agora está a capela, um
senhor cruel, cujos escravos diariamente tinham de entregar ouro. Um negro velho, Pai
Antônio, durante uma semana inteira não havia encontrado nenhum; vagueava cabisbaixo
pela zona, temendo o castigo. Viu, então, subitamente uma mulher, sentada, branca como
neve, e com linda cabeleira loura. Perguntou-lhe a mulher pelo motivo de sua tristeza, e
disse-lhe: "Vai comprar-me uma fita azul, vermelha e amarela, um pente e um
espelho". O preto arranjou as coisas pedidas e voltou com elas. A mulher indicou-lhe
um lugar, e ele tomou a bateia, encontrando muitíssimo ouro, que foi entregar ao seu
dono. A mulher, porém, lhe proibira revelar o lugar em que achara o metal. Pai Antônio
foi então maltratado e açoitado todos os dias, até que, desesperado, foi novamente à
procura da mulher, E, de fato, encontrou-a com seu lindo cabelo reluzente como ouro, e
ela permitiu-lhe denunciar o lugar do achado; mandou dizer ao dono que cavasse aí com
todos os seus homens e haveria de encontrar um grande pedaço de ouro. O patrão trabalhou
com 22 escravos; acharam grande quantidade de ouro, que continuava para o fundo como um
tronco de árvore, de tal modo que até nem foi possível alcançar a base. A mulher,
porém, mandou ao escravo que no dia seguinte, pouco antes do almoço, pedisse licença
para se retirar um pouco antes do meio-dia. O patrão e seus homens, que foram cruelmente
açoitados, trabalharam desesperadamente para tirarem o tronco de ouro; pouco antes do
meio-dia disse Pai Antônio "estou com dor de barriga e afastou-se. Dentro de pouco
ruiu tudo, o patrão e seus homens foram soterrados e nunca mais foram vistos. Pai
Antônio viveu ainda muito tempo e chegou a mais de cem anos de idade. Baseando-se na sua
narração, uma sociedade anônima de Cuiabá realizou grandes escavações.
Patuá - Em tupi, patuá quer dizer caixa, caixão, designando-se com essa
palavra todas as modalidades de magia que dão sorte. Na noite de quinta para sexta-feira
santa vai-se, entre as 11 e 12 horas, buscar patuá numa encruzilhada, por exemplo, junto
à cruz que fica na estrada que leva a Coxipó. Pode-se, então, fazer um pacto com o
diabo e pedir sorte nas cartas ou com as mulheres, talento para tocar violino, certeza no
tiro, e outras coisas mais. Os negros vão armados dum grande sabre. Às vezes são
assaltados por um animal feroz, mas quando prosseguem no seu caminho, encontram o
diabo-mor, em forma de bode, boi, sapo ou rã. Permite que beijem o trazeiro, concede-lhes
a realização do desejo por determinado tempo, e ordena-lhes que venham uma vez por ano
à assembléia geral. Não adianta pedir dinheiro. É proibido proferir o nome dalgum
santo. Também há mulheres que vão buscar patuá. Uma viu um grande bode preto, perdeu a
coragem de fazer o seu pedido e gritou "Maria Santíssima!" Desde aquele
momento, ela julgava sempre estar queimando e sacudia as roupas como se visse fogo, e
morreu após pouco tempo.
Patuás são igualmente os amuletos "de santos ou do diabo", os primeiros, na
maioria, trabalhados pelos italianos, assim os de Santa Lúcia contra a vista fraca,
coração de Jesus, os do Espírito Santo contra todos os males, e a "figa"
contra o mau-olhado. Mais preciosas, no entanto, são as pedras de sapo, que não
se podem comprar a dinheiro. Havia um italiano que tinha um anel com três pedras de sapo,
que ele não teria vendido nem a troco duma fortuna; colocando-se na mesa uma série de
pratos cheios de comidas, algumas das quais envenenadas, o anel ficava escuro e sujo
quando era segurado sobre algum dos pratos com veneno. Com um pano pega-se um sapo que se
põe em cima de um poste que esteja exposto ao calor do sol. Em torno da base do poste
coloca-se um pano vermelho de bandeira, e fere-se o animal por meio duma vara pontuda.
Irtitado pelos raios solares e pela vara, o sapo deixa cair da boca algumas gotas de
veneno, que se transformam em pedras duras.
Afirma-se ser proveniente dum cigano o seguinte preceito: Na sexta-feira santa prega-se
numa tábua nova um sapo feio e corcunda na posição de um crucificado, e deixa-se o
animal no sol desde a manhã até a noite; o sapo grita horrivelmente e morre. O corpo do
animal fica secando ao sol, durante mais três dias, permanecendo, em seguida, perto do
fogo até que possa ser pulverizado. Soca-se todo o sapo. Tomando-se um pouco de pó,
soprando-o, por meio dum tubo, num buraco de fechadura, esta se abre imediatamente.
Havia um negro que tinha o poder de abrir qualquer porta, e servia-se dele para as suas
aventuras amorosas. O dono prometeu-lhe uma roupa se lhe desse uma mostra de sua arte;
imediatamente o preto abriu a porta da sala, que estava bem fechada. À força de chicote
foi-lhe extorquido o segredo: Tinha, penduradas ao pescoço, três folhas que recebera do
pica-pau, que abre as árvores. Prega-se uma tabuinha no ninho dum pica-pau quando a
fêmea está fora, e limpa-se cuidadosamente o chão em derredor. O picapau vem, não pode
abrir o ninho, desaparece novamente, voltando depois com uma folha no bico; começa a
picar e deixa cair a folha, que se deve pegar antes que tenha tocado o solo, Repete-se
isso três vezes, e com a terceira folha a tábua se afasta para o lado. Batendo-se com
esse "breve" (!) de folhas em qualquer porta, ela logo se abre.
Para livrar-se de quaisquer vínculos ou prisões basta que na noite da quinta para a
sexta-feira santa, se pegue uma jibóia (Boa Genchria), que se estica entre
duas árvores. A cobra não morre, mas desaparece durante a noite. Toma-se a corda com que
esteve amarrada, e ata-se esta em torno da cintura. Assim é fácil livrar-se de toda
espécie de vínculos.
Para tornar-se invisível, recorre-se a um processo semelhante ao do pica-pau. No ninho
dum urubu-rei (Sarcoramphus papa) mata-se o pai ou um filhote quando a mãe
estiver ausente, e deixa-se o animal morto no ninho. A mãe busca uma pedra, deixando-a
cair do bico sobre o cadáver. Com a mão levanta-se a pedra, que não se pode ver, mas
apenas sentir e ouvir. Obtêm-se, com isso, patuá. Guarda-se a pedra nalgum lugar,
agarrando-a quando se quer ficar invisível. A vista dos que estiverem presentes ficará
ofuscada, do mesmo modo como se dá com o possuidor da pedra em relação a esta.
Por meio duma oração dirigida a Deus é possível, igualmente, subtrair-se à vista dos
homens; também neste caso trata-se de deslumbramento, e não de transformação
propriamente dita. Os iludidos vêem, então, um tronco de árvore, um formigueiro ou
coisa semelhante, mas nunca algum animal. No campo cerrado uma mulher vinha ao encontro de
dois cavaleiros; desapareceu subitamente. Os homens apearam-se: um deles pôs-se a
carregar o seu cachimbo, enquanto o outro fez as suas necessidades junto a um formigueiro
que antes não havia visto. Olhando, depois, para trás, viram novamente a mulher, mas o
formigueiro desaparecera.
Em São Mateus, na Bolívia, um soldado perdera o seu cavalo. Viu-se obrigado a carregar o
arreio na cabeça. Caminhando assim, deparou com um esqueleto de cavalo; o senhor
corregedor murmurou algumas frases mágicas, e eis que se levantou, arreado, o cavalo mais
lindo que se pode imaginar; o soldado montou nele, não conseguindo apear-se antes que
alcançasse o fim da viagem; quando tirou o arreio do animal, este se desfez em pó.
(Steinen, Karl von den. Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia
do folclore brasileiro, p.153) |
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