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Fevereiro 2002
Ano IV - nº 42

ABUSÕES MIL

Trouxe também umas laranjas. Mas de noite agora não, não se come. Laranja de manhã é ouro, de tarde é prata, de noite mata.

(...) - Por que a dona Emilia não mete a folha do tajá por dentro do vestido?

- Tu já vem? Tu já vem? ralhou Libânia.

- Mas para ela arranjar um noivo, Libânia. Ela não casa. Ou tira um homem de outra. Uma mulher lá no Guamá me contou de um feitiço de tapioca da raiz do tajá misturado com ovo de aranha para salpicar na roupa da mulher do homem que ela gostava. A enfeitiçada ficou coberta-coberta de coceira e o homem deixou ela.

(...) - Padrinho Virgílio precisa tomar o caldo da preguiça. As pessoas de juízo meio abalado dão-se bem com esse caldo. Pois preguiça é um animal de muita força, muito quieta, seu caldo faz a pessoa sossegar. (...)

(...) Finda a festa, com Libânia dormindo muito antes, Emilia queria-porque-queria acordá-la. Para varrer a casa. Dona Inácia não deixou:

- De noite nesta casa não se varre. (...)

(...) Mea filha, por que tu não procura a pena do jurutaí e passa por debaixo da tua rede - ah, tu ainda não tens rede -, da tua esteira para proteger tua honra, ficar mais resguardada desses homens? A pena do jurutaí. Isso eu sei, lá do interior, as pessoas antigas falavam. Ser donzela dava tanto risco, Mãe de Deus! (...)

(...) - Mas o que me aborrece é sair na noite mesmo da trasladação. Sair antes do Círio nunca deu certo. A santa a modo que não gosta. Tem se visto coisas. (...)

(...) Casa de esquina dá azar, meu filho, não me fala daquilo, dá azar. (...)

(...) Quem gostava de te catar era a finada Lucíola, ah, mas eu te conto, aquela finada Lucíola! Ela que te inventou colo. Colo, colo, toda hora colo. Uma noite, viu que a lua deu no teu cueiro pendurado na corda do aterrinho do quintal e logo acudiu: Dona Amélia, essa criança vai obrar verde, deu a lua no cueirinho dele aqui na corda, Dona Amélia. Não deixe cueiririho dele na corda em tempo de lua. E pois não foi que te pegou e te abriu bem a bundinha pra a banda da lua? Só assim te protegia de obrar verde. Mas, Lucíola, se alguém, Deus me perdoe, pegou lua, foste tu, rapariga. De tudo isso quem acredita, eu? E da tua unha? Essa foi a boa da mea prima Dorotéia. Lá em Muaná. "Olha, Amélia, só quem deve primeiro-primeiro cortar a unha, a primeira unha do teu filho, é a madrinha, senão quando teu filho crescer vira ladrão. E tua madrinha lá em Belém. Eu ia esperar até que te pudesse levar em Belém pra te cortar tua unha? Até que tempo a tua unha crescendo? Viraste ladrão?

- Sim, mamãe, virei.

- Eu sei... Eu sei... Queres levar o Dicionário de Latim do teu pai... Bem, me deixa me calar.

Os dedos no cabelo iam correndo aqueles tempos, anos de caniço n’água, de linha com o peixinho, "não brinca com fogo que tu mijas na rede", "vamos subir no telhado descobrir ninho de rato e o reino dos malassombrados? ", os dedos corriam, e as chuvas no zinco do banheiro zoando, aqui no peito o poço transbordou, agora, sim, não precisa balde, se apanha a água com a mão, os ingás amarelavam, e escorre dos dedos da mãe a calda das goiabas, o doce de bacuri, o melado em que se comia a macaxeira, o remar do Barnabé nas viagens pelo Marajoaçu, remar que a maré sentia como um afago.

- E do primeiro dentinho, teu, que ela jogou, a nhá Lucíola, jogou no telhado, ela, a nhá Lucíola? Pra cima do telhado pra a matintaperera e tendo esta de dar pro morcego: nerão, nerão, tome este dente podre, me dá um são. Lucíola não fazia por menos. "Alfredo, não presta apanhar a primeira chuva do inverno. Meu filho, não entre o ano novo dormindo senão ele lhe entra pelo rabinho". E tudo isso, e eu? Eu faço como aquele outro que quando uma alma aparece, ele surra a alma com galho de pião. Meto o galho de pião nas abusões. Nunca ralei o tajacamã contra feitiço. Não te cortei a primeira unha? Já mexeste no alheio?

- Uma vez, na Agência Martins, na cidade, mamãe, vi a capa da "Cena Muda", trazia o retrato do artista do Furacão, a fita em série do Odeon. E fui escondido tirando a capa, queria só a capa comigo. Nisso, o bigodinho atrás de mim, o português da livraria me tomando a revista e a capa, bem me olhando... Roubava ou não roubava?

- Inventador!

- Pois foi, mamãe.

- E por que não tiraste logo a revista inteira? Não era mais ligeiro? E ele de que te tachou?

- Que me tirou a capa da mão, fugi. Queria só a capa, o retrato, queria mostrar para a Libânia o herói da motocicleta. A Libânia não via a fita, só me ouvia falar do artista, das passagens.


(Dulcídio Jurandir. Em Maranhão, Haroldo. Pará, capital: Belém, p.243-245)

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