Fevereiro
2002
Ano IV - nº 42 |
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INTRODUÇÃO E
DIFUSÃO DE ELEMENTOS NOVOS |
Duas categorias de pessoas tiveram ou têm um papel ativo na introdução de novos
elementos materiais e tecnológicos: os "curiosos" e os forasteiros. Em 1926, um
"curioso" montou o primeiro aparelho de rádio em Cunha. A novidade não vingou
imediatamente e só dez anos depois apareceram aparelhos em maior escala havendo quinze em
1945. Aliás, a usina elétrica, construída há 25 anos, não fornece força suficiente
para que se possa esperar a generalização do rádio. Alguns poucos "curiosos"
instalaram a luz elétrica e rádio em suas fazendas. No sítio do velho Morais
encontramos a força elétrica empregada na fabricação do açúcar e farinha de
mandioca. O irmão desse sitiante tinha em seu poder aparelhos usados na agrimensura.
Ambos são conhecidos como inventores e nas suas propriedades encontramos algumas
oliveiras e grande número de árvores frutíferas (pereiras, pessegueiros, macieiras e
videiras). O velho Morais inventou um ralador, um pulverizador e um descascador, máquinas
usadas no beneficiamento da mandioca. Na moradia encontramos um rádio e um termômetro.
Antes de 1930, o estado de conservação das estradas não estimulava a difusão de
automóveis. Mesmo assim, o povo lembra alguns possuidores de automóveis desse período.
O primeiro a adquirir um carro foi um professor vindo de fora. O segundo automóvel
pertencia a um indivíduo de origem estrangeira. Depois de 1932, maior número de
automóveis e caminhões surgiram em Cunha, mas atualmente o veículo motorizado é apenas
uma das muitas alternativas culturais, apenas começando a competir com o meio tradicional
de transporte: o cargueiro.
Ainda em 1945, a passagem de um automóvel ou caminhão despertava a curiosidade da
população urbana. Várias vezes tivemos o ensejo de observar pequenos grupos de
crianças aparecerem na rua para olhar um caminhão que passava ou manobrava numa das ruas
da cidade.
Ainda mais pronunciada era a curiosidade de muitos moradores rurais, curiosidade essa
misturada freqüentemente com espanto. Por ocasião da festa de São José, a 19 de março
de 1945, uma jardineira fez diversas viagens à capela do santo, a oito quilômetros da
cidade. Surpreendidos no caminho pela jardineira, muitos moradores da roça subiam
apressadamente a barranca da estrada e alguns corriam para a capoeira mais próxima. Essa
observação mostra que o comportamento não se ajustou ainda a esse novo elemento da
cultura material.
Mais recente do que o rádio e automóvel é a máquina de escrever. Foi também um
forasteiro o primeiro possuidor de uma máquina de escrever. Atualmente encontram-se
algumas máquinas nas repartições públicas, mas nenhum morador local, com a exceção
do já mencionado forasteiro, está usando uma máquina para a sua correspondência
privada.
A população local lembra uma série de tentativas para modificar criação e lavoura
pela introdução de novidades. Em grande parte trata-se de tentativas organizadas pelo
governo do Estado. Citam-se os "casos" da batatinha, do trigo e do fumo por
exemplo. O cultivo da batatinha vingou em parte, mas não havia vestígios da lavoura de
trigo e fumo (a não ser a fabricação do fumo de corda que é antiga em Cunha e nos
municípios vizinhos). Como motivos do "fracasso" alegam-se preços pouco
compensadores e exigências burocráticas que teriam "levado o caboclo ao
desânimo". Uma autoridade local nos afirmou que "os caboclos se sentiam
explorados e não queriam mais". Um fazendeiro que planta trigo, declarou que não
colheu um grão sequer, pois a "seca matou tudo".
No intuito de romper com a rotina de criação de suínos, tencionou-se a introdução de
uma raça maior (Duroc Yersey) que desse um rendimento mais compensador do que o
"tatuzinho", comum na região. Também essa tentativa falhou porque o Duroc
Yersey, por demasiadamente volumoso, não podia ser transportado nos jacás.
[1947]
(WILLEMS, Emílio Cunha. Tradição e transição em uma cultura rural do Brasil.) |
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