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Fevereiro 2002
Ano IV - nº 42

O CANTOR DE SERENATAS


Deixem os leitores por momentos este insuportável Rio de Janeiro, onde presentemente só imperam o abano, as cajuadas e a política, e dêem um pulo comigo até à Bahia.

É noite.

A cidade de São Salvador dorme descuidosa, refletindo na superfície ondulante das águas as verdes palmas de seus coqueiros, e exalando, em lânguido desalinho, o suave perfume das mangueiras em flor.

Adormeceu aos cânticos da viração.

O astro dos poetas acaricia-lhe a face em beijos de luz, e o mar embala-lhe o berço, suspirando nas areias prateadas.

Que voz, porém, é aquela que vem casar-se, em doces harmonias, ao concerto da natureza?

É a dele, o cantor de serenatas, que envia à sua Marilia os ecos sentidos do coração.

Um rápido esboço deste tipo.

O cantor de serenatas, em geral, é um crioulo esbelto e inteligente.

Amigo em excesso das instituições livres, ostenta na cabeça, perfeitamente traçada, a estrada da liberdade, que divide-lhe a hirsuta como em dois morros.

O chapéu mal o resguarda do sereno, caindo-lhe sobre uma das orelhas, e deixando descoberta a outra.

Traja velho paletó, calça de cor duvidosa, e assenta os pés em vetustas chinelas de couro, que já foram outrora botinas.

Nunca vê-lo-eis só.

Reúne sob as janelas de sua Marilia o maior número possível de confidentes, que o aplaudem com entusiasmo, dizendo em altas vozes:

- Canta agora aquela do Trovador.

– Não; Canta a outra, que é mais bonita.

– Cá para mim não há como a da Lília.

– E onde fica aquela das – Lembranças do nosso amor?

- Oh! Mas você ainda há de nascer, para cantar esta como o Militão.

– É verdade: aquilo é que é moleque fino!

E o crioulo, vergando a espinha dorsal, erguendo o joelho e fazendo deste ponto de apoio para o violão, começa a afiná-lo; depois do que encosta-se à esquina, e canta uma por uma as canções pedidas.

É um gosto vê-lo cantar.

Quando as notas sobem, é o nariz que se incumbe de tirá-las, procurando as regiões sidereas e sacrificando as veias do pescoço, que se injetam de sangue.

Os bravos e muito bem acompanham quase sempre essas situações.

Começam então os comentários:

- Este diabo é um danado!

- Dá aqui pantana em tudo.

– Que moleque bom!

- Aí, rapaz!

- Haverá de eu ter esta voz, que estava com a minha vida ganha.

O cantor passa de novo a afinar o instrumento respondendo às saudações com os seguintes rasgos de modéstia:

- Quaes o que, vocês estão caçoando... Eu hoje não estou em maré... Si vocês me vissem...

Segue a enumeração dos louros alcançados.

– Outro dia, ali em riba em casa da Joana...

– Que Joana?

- A Joana do Barnabé...

– Homem, aquela que brigou com o marido, porque ele foi cantar em baixo da janela da Chica do Beco do Grelo.

– Isso mesmo.

– Ah! Já sei, uma que tem o nariz torto?

- Tais e quais. Pois pintei lá o padre Simão.

– Faço idéia.

– Cantei até o diabo dizer abasta, e fui acabar à noite num samba na Boa Viagem. Olhem, cantei duas vezes a Minha Lília morreu, cantei A hora em que te não vejo, cantei a Alta noite, cantei Vai, suspiro, Chega aos lares, fizeram-me repetir três vezes Cresce amor de dia em dia, cantei Tão longe de ti distante, cantei... cantei... o que foi mais? É verdade, Trovador o que tens, o que sofres.

Todas as modinha são enumeradas, percorrendo o narrador com o dedo grande a escala de todos os dedos das mãos.

– Vocês não fazem idéia, que pagode.

– Lá estava a Rosa pé de pato?

- Oleré! Estava também o Guedes, o Vilaça do Armarinho, o Flávio, o Juca do Bom Fim, o Lulu da Boa Viagem.

– Chiii!! Este é sujeitinho de dar e tomar.

– O Assunção, que botou um discurso, que pôs tudo de cara à banda. Se aquele diabo estudasse, ninguém podia com a vida dele. Enfim havia povo... assim.

Este assim é explicado com a palma da mão direita batendo sobre a esquerda, fechada em forma de óculos.

O cantor de serenata é música d’orelha.

É curioso vê-lo acompanhar pela primeira vez uma modinha nova, com que algum oficioso da roda quer brindar os companheiros.

O oficioso aproxima-se e começa a cantar a modinha em voz baixa:

- Ainda não apanhou o tom, diz um.

– É em menor.

– Não é.

– É

- Ora cante lá outra vez.

– O compasso não é assim.

– Está errado.

– Você faz tan tan, tan tan,e é tan tan tan, tan tan tan.

– Primeira parte já está acertada, falta a segunda.

O oficioso cansa-se e passa do canto para o assobio.

Arrebenta-se uma prima, o violão é de novo afinado, e soluça um prelúdio com efeito de bordões que serve, mutatis mutandis, para todos os acompanhamentos.

O oficioso termina a modinha no meio de bravos, e é cumprimentado por seu numerosos amigos.

A Bahia goza, com justas razões, do título de Atenas Brasileira.

De lá tem saído os nossos oradores, poetas, estadistas e os guerreiros, que com tanto denodo portaram-se ultimamente nos campos do Paraguai.

Não é para admirar, portanto, que o cantor de serenatas, capadócio de lei, procure empregar, nas conversações com os seus, certos termos escolhidos e frases convencionais, que ouve a cada passo na boca de tão ilustrados comprovincianos.

As mais das vezes as tais frases apareceram na conversa, fora de vila e termo, o que não deixa de ter bastante graça.

Ora ouçam os leitores este dialogo de dois capadócios:

- Ora viva, senhor Manduca. Como tem passado?

- Como está vendo, com este arsenal no braço, e por um triz que eu não fui parar à mansão dos mortos.

– O que foi isto?

- Uma queda.

– Homens como o senhor, não caem!

- Pois caí.

– Mas como?

- Vinha andando pela ladeira da Misericórdia não reparei em uma casca de banana infalível que uma criança ali atirara... escorreguei e cai ipsis verbis.

O capadócio faz discursos, como qualquer deputado, e improvisa às vezes excelentes versos.

A expressão com que ele canta não se pode descrever.

A alma estampa-lhe nos olhos, que, ora ternos, ora travessos, parecem traduzir toda a escala dos sentimentos.

O vós, brasileiros degenerados, que executais, ao lado de um piano, árias de Rossini e de Verdi, pálidos arremedos de cantores italianos, ide à Bahia e perguntai ao capadócio como se canta.

Vossas melodias não valem uma nota afinada ao som plangente do violão, sob a redoma daquele céu crivado de estrelas, e onde a lua cheia sabe ostentar em toda a sua poesia a face prateada.

As vossas árias buffas escondem-se vergonhosas diante do lundu chorado, que bole com as fibras mais recôditas do coração.

O cantor de serenatas anda, por força do ofício, sempre constipado.

Nos sambas, que são os nossos cateretês, representa ele a principal figura, cantando com indizível graça.

É por ocasião das festas do Bonfim, à sombra dos dendezeiros, que aqueles sambas revestem toda a poesia local.

O vatapá fumega na branca terrina; ostentam-se os torsos bordados, a engomada anágua com renda e bicos de sinhá Aninha, o chinelinho a bater nos lustrosos calcanhares, os luxuosos panos da costa, os corais, as miçangas e os cordões de ouro com figas e moedinhas de prata.

O cantor de serenatas encosta-se a uma esquina às dez horas da noite, e só abandona o violão, quando os galos, em seus poleiros, anunciam a madrugada.

Então procura a casa contente e satisfeito, e dorme descuidoso dos labores da vida, como dorme a terra que lhe deu o ser, assentada em seu trono de verdura, e exalando em lânguido desalinho o suave perfume das mangueiras em flor.


(França Júnior, Joaquim José da. Folhetins, p.203)

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