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Fevereiro 2002
Ano IV - nº 42

DOS CUMPRIMENTOS


Ainda que os melhores cumprimentos, meus filhos, são os que nascem do coração, e se exprimem sem outra arte que a candura e a verdade, contudo, como ainda não tendes experiência do mundo, dar-voi-ei alguns modelos, que entre nós estavam em uso, à imitação dos quais podereis formar mil outros, atendendo sempre se a pessoa a quem falais é superior, inferior ou igual, se com ela tendes muito conhecimento, pouco, ou nenhum, pois nisto é que consiste toda a beleza dos cumprimentos, usando já de respeito, já de familiaridade, conforme os sujeitos, os tempos e as circunstâncias.


De agradecimento

Vossa Senhoria... V.Exª [etc.] me tem dado tão grandes testemunhos de bondade na minha demanda..., no meu despacho..., que eu não podia deixar de vir aos pés de V.Sª [etc.] dar-lhe mil agradecimentos, segurar a V.Sª [etc.] o desejo que tenho de merecer a honra da sua proteção, e os favores que me faz, pela minha obediência, pelo meu respeito, e pela minha gratidão.

Outro

Aqui venho aos pés de V.Exª [etc.] beijar-lhe a mão, e agradecer os grandes favores... mercês... que me tem feito [v.g.] no meu despacho [etc.] eu desejara que V.Exª quisesse dar-me ocasiões em que pudesse merecer pela minha obediência a honra de tão grande proteção.


Eis aqui um cumprimento proporcionado à qualidade das pessoas superiores, porque todas as suas palavras são respeitosas, sem presunção e familiaridade, e muito cheias de candura e reconhecimento. Porém, seria incrível fazê-lo desta sorte:

Aqui venho, Senhor, agradecer a V.Sª a amizade que me tem mostrado recomendando os meus negócios..., demandas [etc.] e protestar-lhe que, se eu puder também servir a V.Sª algum dia, reconhecerá que mão sou indigno desta proteção.

De pêsames

Aqui venho, como criado que sou desta casa, segurar a V.Sª..., com o respeito que devo, a parte que tomo em tão justa dor.

Minha Senhora, a honra que V.Exª me tem sempre feito de me olhar como um criado particular desta casa, me anima a vir certificar a V.Exª com todo o respeito, o pesar que me acompanha nesta ocasião.

Ambos estes cumprimentos estão nas regras da decência de inferior para superior; só se poderiam permitir entre iguais os seguintes:

Eu tomo tanta parte na dor de V.Sª que não posso deixar de vir misturar lágrimas com as de V.Sª.

Entre amigos

Sinto, como coisa minha, este golpe que V.Sª sente, mas são disposições do céu, a que nos devemos resignar.

Persuada-se V.Sª que estou inconsolável por tão triste acontecimento, e muito desejara minorar a sua dor.

V.Sª perdeu um pai, ou um amigo; mas consolemo-nos pelas virtudes, e que Deus o quis assim; são decretos seus, abaixemos a cabeça, respeitemos suas ordens, que todas são justa e adoráveis [etc.]

De parabéns a um superior

A honra que eu tenho de ser criado desta casa, me animou a vir dar a V.Sª os parabéns pelo bom despacho..., emprego..., dignidade [etc.] e segurar com todo o respeito que devo a V.Sª, o prazer..., alvoroço..., contentamento, que tenho [etc.]

Aqui venho dar a V.S.ª o parabéns... com aquelas sinceras e humildes expressões que me inspiram as razões de súdito... de obrigado... V.Sª não pode duvidar que é geral o contentamento, e que eu com mais razão o devo estimar por ser criado de casa de V.Sª [etc.]

A um igual

Estimo os aumentos de V.Sª... tão bom despacho; foi justiça que se lhe fez; ainda não é igual ao merecimento de V.Sª, porém não duvido que seja como degraus para subir a maior altura. Já nos tardava este gosto do seu despacho, e de vermos coroar o merecimento de V.Sª... chegou enfim o por que todos suspirávamos, e que as letras de V.Sª mereciam. Demorou-se para nos aumentar o gosto na posse [etc.] Ninguém certamente o estimou mais do que eu [etc.]

De casamentos

Dou o parabéns a V.Sª pela acertada eleição que fez da senhora N; todos a aplaudem, pois a senhora não podia ser mais bem empregada, nem V.Sª a podia escolher melhor.

Eu tenho tido sumo gosto nesta aliança, e agouro as maiores felicidade para a casa de V.Sª.

Hoje é que V.Sª deu uma prova clara do seu juízo... dos seus talentos. Esta acertada eleição põe o selo ao merecimento de V.Sª, coroa-o de glória.

Em nascimentos

Eu sou tão interessado em tudo que a V.Sª dá prazer e contentamento, que não podia deixar de lhe vir dar o parabéns nesta ocasião...; persuada-se V.Sª que ninguém o estima mais do que eu, porque me considero o criado mais favorecido da casa de V.Exª [etc.] A mim mesmo tenho dado os parabéns porque interesso muito nos aumentos da casa de V.Sª... na sua sucessão, para continuar a glória, e o esplendor desta casa, para ver reproduzir as virtudes de V.Sª.

Nas boas festas

Eu não devia perder esta ocasião de festas para segurar a V.Sª, com todo o respeito, que ninguém lhas deseja mais alegres, e com maiores felicidades; queira V.Sª persuadir-se que os meus desejos nascem da minha gratidão... do que devo a V.Sª, de quanto o estimo.

Tenha festas felizes, cheias de tantas prosperidades, quantas deseja..., de quantas é acredor..., conforme o seu merecimento..., na companhia de quem mais estima...[etc.]

Sobre a saúde

Do inferior a superior:

Estimo... alegro-me de que V.Sª esteja bom; que tenha feliz disposições; que desfrute perfeita saúde...

Ou:

Sinto que padeça, que esteja incomodado, que tenha ocasião de moléstia [etc.]

Mas nunca se deve perguntar:

Como está V.Sª; que tem? que lhe dói? [etc.]

Este modo de falar é só para iguais e inferiores.

As respostas devem ser adequadas aos cumprimentos; pouco mais ou menos da maneira seguinte:

Agradeço a sua atenção... não fiz ainda quanto devia..., quanto desejava..., quanto merece... Desejara estivesse na minha mão servir a V.Sª em negócios maiores...poder prestar-lhe...

Não tem que agradecer-me V.Sª tinha toda a justiça em seu favor...

Não duvido... estou bem certo da parte que toma na minha dor... estou sumamente persuadido do seu afeto, da companhia que me faz nos meus pesares..., aflições... [etc.] do quanto se interessa nos meus aumentos, prazeres, honras [etc.] Não precisava de testificar o seu contentamento para o conhecer, para o acreditar. Sei quanto estou obrigado aos bons desejos de V.Sª. Vivo bem persuadido do seu favor, obrigado às expressões com que me trata; ou as mereço, pois igualmente estimo tenha festas ditosas, alegres, cheias de prazer, acompanhadas de prosperidades, e na posse de perfeita saúde.

Agradeço a V.Sª, e igualmente lhe correspondo nos mesmos desejos de felicidade. Estimo sumamente este obséquio, e o ajustarei ao número das muitas atenções com que me trata... com que me honra [etc.]


Recomendo-vos, meus filhos, três coisas para terminar tudo que tinha a dizer-vos a respeito dos cumprimentos:

1. Quando aparecerdes pelas primeiras vezes na sociedade em Portugal, observai bem o que atualmente se costuma dizer e fazer, e segui sempre nisto como em tudo o exemplo das pessoas sensatas e bem-criadas: não desprezeis os antigos usos só porque são velhos; mas não sejais de tal modo aferrados a eles que rejeiteis todo melhoramento louvável e decoroso.

2. Que nunca faleis em vosso elogio, porque não cabe louvor em boca própria.

3. Que não sejam longos vossos cumprimentos: o laconismo tem em tais casos mais merecimento. A este respeito contar-vos-ei uma anedota de Luís XIV. Não gostava aquele monarca de cumprimentos longos. Um dia que devia de ir à sé de Paris para assistir à benção de umas bandeiras, e porque é costume fazer o arcebispo uma arenga ao rei quando entra na sé, fez o rei saber-lhe que desejava não lhe fizesse nenhum discurso. O arcebispo, que era m. de Harlay, contentou-se com dizer-lhe: "Senhor, Vossa Majestade me fecha a boca enquanto a abre à alegria pública". Ficou o monarca satisfeito e o prelado não faltou ao costume.


(Schwarcz, Lilia Moritz (org.) Código do bom-tom ou Regras da civilidade e de bem viver no século XIX. p.137)

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