Fevereiro
2002
Ano IV - nº 42 |
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O CAMARADA E O
COZINHEIRO |
A tropa arregimentava uma "tripulação", constituída pelos auxiliares do
tropeiro, em número correspondente ao de lotes que a compusessem: cada lote com um camarada,
como lhe chamavam em São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso; ou tocador,
como era designado em Goiás e também em algumas partes de Minas; ou, ainda, tangedor,
que era a designação que lhe atribuíam em outras regiões.
A função de camarada exigia conhecimentos "técnicos", para bem
exercê-la, razão pela qual havia uma certa seleção na admissão de seus ocupantes.
Precisava, antes do mais, estar afeito ao serviço, saber lidar desembaraçadamente com os
animais e com as cargas para não se constituir estorvo. Tinha que ser homem reto, de
honestidade comprovada, em quem o tropeiro pudesse confiar integralmente, pois muita vez,
como salientou Calógeras, os camaradas iniciavam a viagem, com numerosos burros
transportando uma fortuna nos lombos, e o tropeiro só os ia encontrar dias depois, certo
de que a mercadoria estava bem entregue.
Era comum ver-se filhos de camaradas, e até mesmo tropeiros, acompanhando a tropa,
adestrando-se na profissão, para de futuro substituírem seus pais naqueles afazeres.
O cozinheiro era outra figura importante da tropa. Sua atividade maior estava no
preparo da alimentação e no cuidado com os alimentos; e a exercia especialmente nos
pousos e nos encostos, quando finda a caminhada faziam alto até o raiar do dia seguinte.
Vez por outra o cozinheiro era requisitado para dar um ajutório em outros trabalhos,
acertar uma carga, fazer uma estiva, porque era homem que também sabia lidar com animais
e cargas.
Logo que a tropa arribava, para o descanso, a atividade desse elemento desdobrava; pois os
camaradas, mal deixavam os animais no pasto, depois da série de afazeres que lhes
competiam nessas ocasiões, corriam céleres para o prato de feijão com carne seca e a
caneca de café fumegante.
Servida a refeição, toca a catar o feijão e botá-lo novamente na panela, a cozinhar,
para a refeição da manhã seguinte, tendo de cuidá-lo durante a noite para não
queimar.
Camaradas e cozinheiro é que realmente constituíam o elemento humano da tropa; o
tropeiro, propriamente dito, já desenvolvidas suas atividades em negócios diversos, não
mantinha aquele contato direto, permanente, com os animais, a que se viam obrigados os
outros.
De suas bocas dos camaradas e dos cozinheiros é que se ouviam aquelas
estórias que enchiam as horas de repouso, antes do sono reparador; e de suas gargantas é
que evolavam as notas e as palavras, ora brejeiras, ora nostálgicas, das canções que
entoavam nos pousos, dedilhando a viola, ou pelos caminhos animando a burrama e a própria
alma...
Só por questões de alta importância, ou pela quebra de alguns de seus "tabus"
podem surgir desavenças entre o pessoal empregado nas tropas; mas, quando isso acontece,
quase que invariavelmente mais uma cruz de madeira tosta surge à margem do caminho. O
homem do sertão é geralmente calmo e tolerante; porém, em questões de honra, não teme
matar ou morrer.
Em jornais do século XIX, editados em cidades do interior de São Paulo, e de Minas
Gerais, lêem-se anúncios de hotéis salientando possuírem boas estribarias para os
animais e "acomodações especiais para camaradas". Assalariados dos
tropeiros, esses homens ocupavam situação econômico-social inferior à de seus
patrões, muito embora diferenciação pouco se notasse quando, no trabalho, se
confundiam.
(Goulart, José Alípio. Tropas e tropeiros na formação do Brasil. p.125-126) |
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