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Fevereiro 2002
Ano IV - nº 42

UMA PLANTAÇÃO DE CAFÉ


Partimos no dia seguinte; mas não deixamos os domínios do Sr. Lage sem dar uma volta pela sua plantação, o que nos deu a oportunidade de aprender como se cultiva o café no país. Não ouso afirmar que uma descrição desse cafezal modelo possa dar idéia exata do que são as fazendas em geral. O proprietário, aqui, aplica tudo o que empreende a mesma largueza de vistas, a mesma energia, a mesma tenacidade. Introduziu, assim, importantíssimas reformas na sua exploração agrícola. A fazenda Fortaleza de Santana está situada no sopé da Serra da Babilônia. A casa de moradia faz como já disse, parte da série de construções baixas, de fachadas brancas, que formam o perímetro do terreiro. É nesse comprido paralelograma que, sobre eiras, o café dividido em vários lotes é secado.

Esses secadores, colocados, como é de uso geral, perto da casa, devem ter grande inconveniente. Os grãos jazem sobre um cimento de ofuscante brancura cuja claridade, sob este céu escaldante, é insuportável e obriga logo a descansar a vista em algum recanto de verdura.

Bem por trás da casa, sobre a encosta da colina, acha-se o laranjal. Não me cansava eu de contemplar esse pequeno bosque de arvoretas de frutos dourados, que realmente era de surpreendente beleza. As pequenas tangerinas de tonalidade carregada, reunidas em grupos de trinta e quarenta; as grandes seletas que se acumulam às dúzias num só galho, que o seu peso faz vergar até o chão, o pálido limão-doce, quase insípido, mas tão apreciado por seu frescor, todos esses frutos e muitos outros ainda da mesma espécie (pois a variedade de laranjas é bem maior do que supomos, nós que habitamos países frios) formam uma massa colorida onde o dourado, o alaranjado escuro, o amarelo pálido se casam maravilhosamente bem com os tons carregados de verdura. Em frente às grades da casa e do outro lado da estrada, estão os jardins, com um aviário e viveiros no centro. A não ser isso, tudo o que não é floresta é consagrado à cultura do café, e as plantações cobrem os flancos das colinas por muitas milhas em redor.

Semeia-se de início um viveiro, onde a plantinha se desenvolve durante um ano. Passado esse lapso de tempo, arrancam-na com precaução e transplantam-na para o lugar que vai ocupar definitivamente. Com três anos, o novo cafeeiro principia a dar frutos, mas a primeira colheita é mínima. Desde então, se é bem tratado e o solo é favorável, continua a produzir, dando às vezes duas colheitas por ano, e mesmo mais, durante uns trinta anos. Ao fim desse tempo, o arbusto e o solo estão igualmente esgotados. É hábito então do fazendeiro abandonar completamente o velho cafezal, sem cuidar no entanto de restituir ao terreno seu valor e fertilidade.

Derruba-se nova porção de floresta e refaz-se uma nova plantação. Uma das previdentes reformas empreendidas pelo senhor Lage é a estrumação das antigas plantações abandonadas que fazem parte das suas terras. Já conseguiu restituir o vigor a algumas delas que lhe prometem colheitas tão abundantes como se se tivesse sacrificado uma floresta virgem para produzi-las. Não só deseja conservar as matas de sua fazenda e mostrar que o cultivo não tem necessidade de sacrificar o bom gosto e a beleza, como também lembrar a seus compatriotas que, por mais imensas que sejam, as florestas têm no entanto um fim, e que, a continuar como fazem, será preciso emigrarem um dia para encontrar novas terras para o café desde que considerem as velhas como completamente improdutivas. Outra reforma é a construção de estrada, sobre a qual já insisti. Os caminhos nos cafezais são, ordinariamente, como as trilhas de mulas nos morros, traçados em linha reta no meio da encosta, entre as alas dos cafeeiros. Cada chuva converte em regatos e o declive tão abrupto que oito ou dez bois não conseguem fazer subir por ele o grosseiro e primitivo carro ainda em uso. Os negros são, pois, obrigados a carregar na cabeça a maior parte da pesada colheita. Um norte-americano, que viveu por muito tempo nas fazendas dessa zona, contou-me ter vistos negros carregando em cima do crânio enormes fardos desse gênero descerem ladeiras quase verticais. Nas plantações do senhor Lage todos esses velhos caminhos foram abandonados com exceção de alguns deles plantados com dupla fila de laranjeiras e que formam o pomar dos negros. Para substitui-los mandou fazer estradas que serpenteiam em volta do morro e sobem suavemente, tanto assim que carrinhos leves, puxados por um burro só, transportam toda a colheita do alto das colinas até às secadeiras.

Sendo tempo de colheita, o espetáculo que tínhamos diante dos olhos era verdadeiramente pitoresco. Os pretos, homens e mulheres, espalhavam-se pela plantação, trazendo às costas, amarradas às roupas, uns cestos feitos de vimes ou de bambus. Dentro deles é que amontoam os grãos de café, uns vermelhos e brilhantes como cerejas frescas, outros já escuros e meio ressequidos, e, de quando em vez, alguns ainda verdes, não de todo maduros, mas não devendo tardar a amadurecer sobre o solo abrasado das eiras. Pretinhos pequenos sentados na terra ao pé dos arbustos ajuntam as cerejas caídas, cantando um estribilho monótono que tem certa harmonia e encanto; um deles faz o solo e os outros o acompanham. Uma vez cheios os cestos, vão mostrá-los ao administrador, que lhes dá uma ficha de metal onde está marcado o valor da tarefa executada. Cada qual deve uma quantidade certa de trabalho; tanto por homem, tanto por mulher, tanto por criança; e cada qual é pago pelo excedente que produzir; o que se exige deles é verdadeiramente moderado e aqueles que não são preguiçosos podem facilmente juntar um pequeno pecúlio. Todas as tardes entregam as fichas recebidas no decorrer do dia e recebem o valor de excedente de trabalho livremente efetuado. Do terreno em que se fazia a colheita, acompanhamos os carrinhos até o lugar em que o seu conteúdo é esvaziado. Aí, os negros dividem em lotes a safra do dia e a arrumam em pequenos montículos nos secadores. Quando o café está bem seco, e por igual, espalham-no em camadas de pouca espessura sobre a extensão toda do terreiro, onde ainda recebe por algum tempo os raios do sol; os grãos são em seguida descascados com o auxílio de máquinas muito simples que se usam em todas as fazendas, e a manipulação está completa.


(Agassiz, Louis. Viagem ao Brasil: 1865-1866. p. 84-86)

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