Fevereiro
2002
Ano IV - nº 42 |
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No Brasil, onde escasseia o carvão mineral, limitado a poucas jazidas no extremo sul do
país, tem sido intensa a devastação da sua riqueza florestal, utilizada,
indiscriminadamente, para a produção de lenha e de carvão vegetal destinados ao consumo
doméstico, às fábricas e estradas de ferro.
O carvão vegetal provém da combustão da madeira ao abrigo do contato com ar. Tanto são
aproveitadas para sua produção as matas virgens quanto as capoeiras formadas após o
desflorestamento, não havendo preocupação alguma de seleção de madeiras.
A preparação do carvão vegetal pode ser feita por dois processos: o primitivo, de
carbonização da madeira em "balões" e o processo mais científico de
carbonização em cilindros fechados constituídos de lâminas de ferro.
Mais generalizado, apesar de mais rudimentar e antiquado, é o primeiro deles. Aspecto
comum nas regiões de exploração de carvão são os "balões", fumegantes uns,
já apagados outros, nas "praças" abertas no meio da mata, onde os troncos
calcinados atestam a ação destruidora do homem. A esta atividade exploradora liga-se um
tipo interessante, o carvoeiro.
Diferentes tarefas na preparação do carvão vegetal exigem do carvoeiro atividade
intensa, sem interrupção e sem descanso.
Encarregando-se de alguns alqueires da mata arrendada pelo "empreiteiro" que é
o empregador, o carvoeiro munido da foice dá início ao seu trabalho, fazendo a
"roçada" para limpar o terreno dos pequenos arbustos.
Segue-se a "derrubada", em que ele, de machado em punho com toda a energia, põe
abaixo as árvores, cuja madeira será transformada em carvão. Para produzir três sacos
e meio de carvão precisa no mínimo, de 1 metro cúbico de lenha.
Dez dias após, depois de secas as folhas, pequenos arbustos e ramagens, faz ela a
"coivara" para limpar o terreno, pois o fogo alastrando-se vai consumindo os
elementos de fácil combustão. Depois de extinto, estando apenas chamuscada a madeira das
árvores abatidas, o carvoeiro passa a "traçar" a lenha, isto é, a cortá-la
em pequenas toras de cerca de um metro de comprimento. Deste modo, termina a preparação
do combustível dos "balões".
A lenha assim preparada, é transportada para a "praça", local já preparado à
enxada e ancinho, situado geralmente no sopé de um morro, fazendo-se um revestimento com
paus roliços ou varas que, cobertos de terra, formam o terreiro apropriado. Geralmente
tem cerca de 5 a 8 metros de circuferência.
É deveras interessante a técnica de construção dos "balões" para a queima
da lenha.
Com as toras de menor tamanho o carvoeiro arma uma espécie de funil que se vai alteando
até 2 metros de altura. Ao redor do funil é empilhado todo o resto da lenha em sentido
vertical. Ao centro fica uma cavidade, a chaminé central, por onde é lançado o fogo
para queimar a lenha.
O "balão" assim preparado é enchido com palha, folhas, e capim seco, com o que
é também envolvido por fora. O revestimento externo do "balão" é feito com
terra.
Surge assim a "carvoeira", que o caboclo no seu linguajar chama de
"caieira". Está, então, pronta para receber o fogo. Vai começar a
transformação da madeira em carvão, sendo o fogo introduzido pela chaminé central.
Como ventiladores o carvoeiro abre na base da "caieira" uma série de
orifícios, "suspiros" ou "espias", por onde penetra o ar livre. Novos
ventiladores são abertos à medida que a lenha vai sendo queimada e para isto tem que
estar o carvoeiro vigilante.
A combustão leva geralmente dois a três dias e não deve ser muito rápida, o que
redundaria na perda do "balão". Quando o fogo está muito violento, para
abrandá-lo, o carvoeiro coloca pela chaminé pequenos tacos de lenha, as "comidas do
balão", utilizando-se para isto de uma escada feita de varas.
Às vezes, para evitar o escorregamento da terra, dispõe ele, na parte externa do
"balão", moirões verticais que sustentam outros horizontais.
Quando a fumaça de negra e espessa, a princípio, se torna azulada, já sabe o carvoeiro
que a combustão está no fim. Ele, então, afoga a "caieira" e espera
calmamente que os últimos restos do braseiro desaparecerem.
Munido de pá, peneira e ancinho inicia o serviço de peneiragem, separando o carvão da
terra da "caieira".
Em seguida tem ele que ensacar toda a sua produção. Na "praça" mesmo, ao lado
da "caieira" apagada e desfeita, o carvão é ensacado.
A produção dos "balões" varia bastante: a área de 30 pés de diâmetro
regula 100 sacos de carvão de capoeira e mais, quando é de mata virgem.
Geralmente o carvão é vendido aos cargueiros e tropeiros que, nas suas tropas de burro,
transportam-no do meio da mata para a cidade onde será vendido. Às vezes, o carvão é
adquirido por intermediários que o transportam em caminhão.
Outras vezes são os próprios carvoeiros que, partindo de madrugada de seus sítios, vão
à cidade vender o produto de seu trabalho. Muitos carvoeiros trabalham por conta
própria, sendo que outros trabalham para "empreiteiros".
Um bom carvoeiro produz cerca de 80 sacos de carvão por mês.
O carvoeiro vive sempre no mato, em grande isolamento, morando em toscas palhoças de
pau-a-pique de palmito, cobertas de sapé, sem nenhum conforto e higiene. Alguns deles,
quando o dono da terra permite, têm suas pequenas plantações e criações. Mas o mais
comum é nada plantarem, adquirindo tudo na cidade mais próxima.
Muitas vezes, ao pé do pobre casebre depara-se uma "carvoeira" minúscula,
fumegante. É o brinquedo dos filhos do carvoeiro.
A produção de carvão vegetal, o qual se apresenta como combustível barato e
indispensável entre nós, pesa, no entanto, enormemente sobre a nossa riqueza florestal,
acarretando a destruição sistemática das matas e capoeiras, com todas as consequências
daninhas decorrentes do intenso desflorestamento.
(in RGB, ano 8, nº 4)
(Souza, Elza Coelho de. In Tipos e aspectos do Brasil. p. 300-301) |
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