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Fevereiro 2002
Ano IV - nº 42

A MOÇA RETRATO DA LUA [1]


Ilustração de Marcos Jardim Entre os Uanánas
[2] apareceu, contam, há muito tempo já, uma moça bonita como a Lua.

Os moços todos eram doidos por ela.

Ela era alegre com todos eles, não amava deles nenhun só. Ria, dançava, conversava com eles, adoçava coração deles, quando eles falavam em casar com eles não respondia.

Um moço filho de tuixaua
[3] queria casar com ela, ela respondeu:

- Não posso casar contigo porque não sou filha de tuixaua.

Quando não dançavam, a moça à meia-noite costumava sumir-se de casa. Ninguém sabia para onde ia.

Os moços se juntaram, disseram:

- Vamos ver aonde esta moça costuma ir à meia-noite. Se ela vai ter com homem, mataremos seu amante.

Um luar, quando noite estava como dia, a moça saiu de casa, foi direito para a cachoeira.

Os moços foram atrás.

Quando ela chegou lá, sentou-se em cima de uma pedra, depois virou o rosto para o céu, direito na Lua.

Os moços foram todos chegando para junto dela. Então viram já o retrato da Lua brilhando no rosto dela. Conforme no céu a Lua, assim mesmo no rosto da moça a sua sombra.

Os moços estavam deveras sem fôlego. Coração deles tremia, seus olhos dançavam diante do fogo da Lua, não podiam falar!

Quando a Lua foi já virando para o outro lado, todos os moços viram descer do céu uma moça bonita como a mesma Lua. Essa Uanana levantou-se, aí então eles viram que ela era um moço!

A moça que desceu do céu abraçou-se com o moço, aí já um grande fogo frio escondeu corpo deles. O fogo grande era grosso, não deixava aparecer nada. Frio, contam, esse fogo.

Todos os moços que estavam espiando a moça tremiam. Então, como o frio doía demais, os moços voltaram já para casa. Eles nem falavam, só sentiam seu coração ter medo.

Já em casa dormiram. Acordaram, contam, quando o Sol já tinha saído. Esse moço já estava aí.

Os moços não se lembravam direito do que tinham visto essa noite. Eles pensavam só que tinham sonhado, só se olhavam desconfiados.

As outras moças olhavam alegres para essa moça. Elas a abraçavam, faziam para ela todo agrado. Então nunca mais desapareceu da cabeça desses moços o que eles tinham visto essa noite.

Assim eles passaram esse dia, não conversaram.

A noite chegou.

As moças estavam todas fora conversando juntas, essa moça disse:

- Como não sinto sempre meu coração alegre como hoje, vou contar para vocês uma história da Lua. É assim: "Havia antigamente, contam, na raiz do céu, uma terra aonde toda a gente era bonita. No meio dela, contam, havia um moço bonito como Sol. Toda a moça dessa terra amava esse moço, todo dia faziam pussanga
[4] para ele as amar. Como esse moço era pouco pajé [5], ele viu, contam, por meio da sua sombra [6], o que as moças lhe faziam. Todas as noites ele ia para o porto sentar-se em cima da areia, aí mesmo as moças iam ter com ele. Seu coração, por isso, ficou contra as moças. Triste, somente, ele as olhava, à meia-noite elas voltavam para casa, ele ficava lá. Assim mesmo, contam, esse moço fazia todas as noites. As moças já não sabiam o que fazer para agradá-lo. Uma vez as moças disseram:

- Uma de cada vez agora vamos para o porto, assim talvez o moço queira alguma de nós.

Assim fizeram. A moça que foi ter com o moço abraçou-o, beijou-lhe a boca, fez-lhe cócegas, ele não fêz nada. Ele só olhou para ela, em meio da noite essa moça voltou.

Na noite seguinte foi outra moça já, assim mesmo fez, assim mesmo aconteceu. Já porção de luas depois, contam, elas se reuniram, disseram:

- Vamos agora cada uma por sua vez fazê-lo dormir à força conosco.

- Quem há de ir para começar?

Uma ainda moça deveras respondeu:

- Eu! Se não me quiser eu me jogo no rio!

Todas disseram logo:

- Pois sim! Uma de nós há de ir contigo para espiar de longe como hão de passar.

Com a noite o moço foi logo para o porto, logo atrás dele foi só a mocinha. A outra moça ficou longe deles. A mocinha abraçou logo o moço, beijou-lhe a boca, agradou-o. O moço olhou bem para ela, depois perguntou:

- Onde estão tuas companheiras?

A mocinha respondeu:

- Ficaram em casa.

- Por que vieste então?

- Eu vim porque te amo.

- Por que me amas?

- Eu te amo porque tu és meu coração.

- Se eu te dissesse por que não me podes amar, tu te calarias, será!

- Eu calo.

- Então ouve: Como vocês todas sabem, não cresci junto de vocês. Eu sou de longe, por isso vocês não sabem como eu sou. Vocês todas andam atrás de mim, vocês todas querem casar comigo. Como tu disseste que não contas meu segredo, vou te mostrar como eu sou.

Ele tirou no mesmo instante, contam, seu cueiro, depois disse:

- Repara, sou será homem! Sou será mulher!

A mocinha olhou, não viu nada de homem, nem viu nada de mulher. Ela gritou então, correu para o rio. A outra moça, companheira dela, viu-a cair no rio, gritou também com toda a força, as outras que estavam em casa ouviram. Elas correram para o porto, quando chegaram lá, viram somente já vir saindo da água aquela moça com ela nos braços. O moço beijou-lhe a boca, depois disse junto do seu ouvido:

- Tu viste, eu não sou homem, não sou mulher! Esconde bem no coração o que viste.

As moças imediatamente levaram essa sua companheira para casa. No outro dia já perguntaram:

- Ele não te quis será!

- Não.

A mocinha, contam, estava a modo de doida, triste ela olhava para esse moço.

Nessa noite foi outra já. O moço não olhou essa moça, quando ela quis agradá-lo ele só se levantou. A moça voltou para casa, aí contou como tinha passado. Todas imediatamente disseram:

- Amanhã, se ele não quiser uma de nós, nós o mataremos.

O moço ouviu só, contam, riu-se.

Na noite seguinte, o moço foi para o porto, diazinho ainda. Aí ele assoprou para vir chuva fina. Quando as moças desceram, viram fumaça grande. Elas seguiram por meio dessa fumaça grande, procuraram o moço, não encontraram no lugar dele. Procuraram por toda parte, ninguém!

De madrugada caiu vento grande, limpou essa fumaça. Então já todos viram a cabeça do moço ir desaparecendo dentro da água. Ele viu as moças, gritou:

- Eh!... Eh!... Eh!...

Aí já mesmo desapareceu. Todas elas caíram no rio, para agarrar o moço. Mergulharam, ninguém!

Com o Sol já no meio do céu, elas saíram para casa. Estavam, contam, tristes. Já de noite, contam, desceram de novo para o porto, aí se sentaram no lugar do moço, começaram chorando. Aí toda a gente as viu.

De manhã ninguém mais as viu. Para aonde foram essas moças ninguém sabe. À toa já, dizem, contam que a Lua escondeu essas moças, que a Mãe do rio
[7] levou esse moço. Essa a história da Lua".

- Como a noite já está comprida, vamos dormir.

Todos se foram logo deitar.

Os moços que estiveram ouvindo, olharam-se, disseram:

- Talvez seja certa a história desta moça.

À meia-noite, a moça saiu de casa, foi para a cachoeira. Os moços foram também, como embriagados, atrás dela. Assim mesmo se passou com a moça. Os moços o fogo frio os enxotou.

De manhã cedo a moça estava já em casa. Os moços estavam mesmo como de cabeça perdida. Eles não podiam dizer nada, porque não podiam pensar direito. Assim porção de luas eles passaram.

As outras moças já olhavam com pena para os moços, por isso disseram à moça:

- Nossa mana, não olhes tão de doer para os moços. Eles estão todos tristes, adoçazinho seu coração!

A moça respondeu:

- De uma a uma a vocês hei de contar por que não posso agradá-los. Esta noite mesmo começo contando meu segredo.

Todas disseram logo:

- Pois sim!

Com a noite a moça abraçou uma das moças, levou-a para o mato. Aí, contam, a moça disse para ela:

- Eu não sou mulher, sou homem.

Aí já mesmo, contam, essa parecença de moça mostrou que era homem, não mulher.

Depois disse:

- Tu achas será que eu posso agradar homem como eu? Não contes a tuas companheiras como nós passamos. Deixa que eu mostre para vocês todas.

A moça respondeu:

- Pois sim, assim hei de fazer. Só o que eu peço de ti é não te esqueceres de mim.

Ele disse que sim.

Assim ele se mostrou para outras moças, já no meio da noite disse:

- Vamos dormir, amanhã já contarei para as outras.

Todas foram logo dormir.

Essa moça foi para a cachoeira, atrás dela foram os moços. Assim mesmo ela aí passou com a Lua.

Em três noites, contam, mostrou seu segredo para todas as outras moças. As moças estavam com ciúmes agora, toda a noite se vigiavam. Ela por isso não podia sair de casa para ir ter com a Lua na cachoeira. Assim, contam, passaram porção de luas.

Uma noite ela saiu mesmo à vista das moças que estavam vigiando, foi para o porto. As moças foram logo de uma a uma atrás dela, ao chegarem todas lá o fogo grande frio apareceu. Como mulher é medrosa, elas gritaram de medo. No mesmo instante, contam, viram somente já esse fogo grande frio subir para o céu. Quando chegou no meio do céu correu para a Lua, nela se sumiu!

Duas luas depois, o ventre de todas as moças sendo já grande, perguntaram seus pais:

- Quem é o pai dos filhos de vocês?

Elas responderam:

- Aquela moça retrato da Lua que se sumiu do meio de nós!


Notas

[1]. Lenda publicada por Antônio Brandão do Amorim ("Lendas em nheeagatu e em português", in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t.100, v.154, Rio de Janeiro, 1928, p. 237-243).

[2]. Os Uanana pertencem ao grupo oriental da família lingüística Tucano, segundo a classificação de Paul Rivet (Cf. Artur Ramos: Introdução à antropologia brasileira, 1º v., Rio de Janeiro, Livraria Editora da Casa do Estudante do Brasil, 1943, p.286-287).

[3]. Chefe da tribo. A seu respeito, escreve Stradelli ("Vocabulário da língua-geral português-nheengatu e nheengatu-português", in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t.104, v.158, Rio de Janeiro, 1929, p.683): "O tuixaua que parece soar quem tem o sangue, é do sangue - de tuí - sangue, e sáua, sufixo, que substantiva a idéia contida no prefixo, se não é forçosamente o filho do próprio chefe, que por qualquer razão não lhe pôde suceder, todavia é sempre alguém da família deste. Só na falta será um estranho. Pela lei e o costume, salvo caso de indignidade, ou impossibilidade material, os filhos sucedem aos pais e isso naturalmente, como aqueles que já tinham autoridade e já mandavam como lugares-tenentes dos próprios pais, tanto nas danças e festas cerimoniais, como no mando da tribo. A autoridade do tuixaua, todavia, não é lá grande coisa, salvo talvez em tempo de guerras, hoje cada dia mais raras e difíceis entre os indígenas; só obtém ser obedecido, dentro do costume, pela persuação e o ascendente próprio, individual, que possa adquirir, mas por via de regra lhe seria impossível exercer qualquer coação. A sua autoridade, pelo contrário, é grande como chefe do conselho da tribo e executor das suas sentenças. Esta condição de ser chefe do conselho exclui de sucederem ao pai os filhos que ainda não tenham a idade ou a sisudez suficiente para dele fazerem parte. A condição de serem dignos importa na exclusão de todos aqueles que de algum modo infringirem os costumes herdados dos avós, e os que, demonstrando não saber obedecer e ser submissos a seus legítimos superiores, mostraram que são inaptos e indignos para mandar gente".

[4]. Feitiço.

[5]. "O pajé", escreve Stradelli (opus cit., p.585), "é o médico, o conselheiro da tribo, o padre, o feiticeiro, o depositário autorizado da ciência tradicional. Pajé não é qualquer. Só os fortes de coração, os que sabem superar as provas da iniciação, que têm o fôlego necessário para aspirar a ser pajé. Com menos de cinco fôlegos não há pajé que possa afrontar impunemente as cobras venenosas; é preciso ter mais de cinco fôlegos para poder curar as doenças com a simples imposição das mãos e com o cuspo as mordidelas das cobras venenosas. Os pajés que têm de sete fôlegos para cima, lêem claro no futuro, curam à distância, podem mudar-se à vontade no animal que lhes convém, tornar-se invisíveis e se transportar de um lugar para outro com o simples esforço do próprio querer".

[6]. Isto é, em sonho. É crença muito difundida entre as tribos sul-americanas que a sombra, ou seja, a alma, abandona durante o sono o corpo do pajé e vai aconselhar-se com os mortos, fazer suas expedições e pesquisas (Cf. Estevão Pinto: Os indígenas do Nordeste, 2º v., São Paulo, Companhia Editora Nacional, Col. Brasiliana, 1938, p.255, e H. Baldus: Lendas dos índios do Brasil, São Paulo, Editora Brasiliense Ltda., 1946, p.94-95).

[7]. Variante da mãe-d’água, da iara, figura primordial nos mitos aquáticos dos nossos indígenas. Sobre as crenças e mitos idolátricos, consultar a obra de Artur Ramos: O negro brasileiro, (São Paulo, Companhia Editora Nacional, Col. Brasiliana, 1939, p.215 e seguintes). Estevão Pinto (opus cit., p.209 e seguintes) aproveita muitas das considerações deste notável estudo, no desenvolvimento do capítulo em que estuda a mitologia aquática dos nossos índios.


(Costa e Silva, Alberto da. Lendas do índio brasileiro, p.193)

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