Fevereiro
2002
Ano IV - nº 42 |
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Nas rodas sertanejas, antigamente se contava certa história de bichos, que ainda hoje
não é esquecida. Vez por outra algum velho está a relembrá-la com todo os rique-fifes.
História simples, sem maiores artifícios, não escondendo, entretanto, o fator moral
como razão de ser da passagem pitoresca ocorrida entre animais que falavam, discutiam e
agiam de conformidade com os seus interesses.
O fato é que o burro se encontrava muito de seu, pastando nos campos, comendo panasco
verde e a sua atitude pacata até despertava inveja dos próprios homens. Aquilo
sim, é que era felicidade sem perturbações incômodas. Se chegava a hora de trabalhar,
o burro trabalhava no duro, sem pedir misericórdia, sustentando o peso do serviço de
carregamento e, ainda pior do que isso, sob o chicote dos moleques condutores ou
boiadeiros malvados. Também do boleeiro, pois puxava o cabriolet do senhor e,
diziam, fazia-o com uma competência ajudada pela carícia e pela ternura de servir.
Embora o sangue mau do condutor.
Realmente, o burro era detentor de bondade extraordinária: não fazia nada de cara
fechada, era sempre alegre que costumava enfrentar o serviço. Pois, em compensação, os
instantes de folga eram compridos por demais, às vezes duravam dias e semanas. Comia o
panasco e bebia no tanque de pedra. Andava gordo, sereno e venturoso. De que se queixar? A
vida lhe sorria. Não era assaltado por nenhuma aspiração que não fosse sossego e paz,
tranquilidade e bonança, trabalho e repouso, boa mesa e sono solto. A liberdade era tudo.
Ela rodava-lhe em torno. Os homens falavam em democracia. Democracia deveria ser mais ou
menos aquilo: liberdade e abastança, barriga cheia e despreocupação pelo que venha a
suceder.
Mas de repente, quando se achava pensando nessas coisas amáveis, surge pela frente a
raposa (a comadre raposa é sempre a mesma figura, no litoral, na mata e no sertão: aje
astuciosamente e, de ordinário, com requintes de pervesidade criminosa) que, desde muito,
espiava aquela beleza de existência retirada, sem imprevisto, sem qualquer sinal a mais
ou a menos, sem a nota de altos e baixos. Que coisa? Aquilo precisava de sangue novo.
Estava reclamando mais movimento, mais ação e, portanto, mais intimidade com a vida.
Pois esta andava monótona para os espíritos inquietos e inteligentes, requerendo
novidade e que, neste sentido, se fizesse o maior esforço de criação.
Pensou indagando de si mesmo:
- Perto daqui não existe chiqueiro de galinhas?
Então a raposa dispôs-se à luta, procurando o burro, com ele mantendo longa
conversação, fazendo-lhe sentir a necessidade de entrar por outros caminhos menos
insípidos.
Olhe, eu conheço a onça pintada que vive na Furna da Alegria. É um prazer
visitá-la. Tem vivido muito e passado pelo que o diabo jamais imaginou. Nos meus momentos
de angustia é para lá que rumo os meus passos.
Mas eu não sofro nada, disse o burro. Tenho saúde perfeita. E não me queixo de
coisa alguma.
Isso não significa nenhuma novidade. Também quando me sinto feliz vou bater à
porta da amiga. Ouço-lhe a voz cariciosa dos conselhos. Fico ainda mais alegre e cheia de
felicidade. A tristeza vai-se embora.
Perversa, a raposa não desanimava na cantada, tudo fazendo para demover o burro do lugar
onde se encontrava, pois não tinha ofício nem obrigação, se saía era sempre a passeio
e, à noite, os galinheiros estavam à disposição de suas garras. Vagabunda, faladeira,
mexeriqueira. Gostava e alimentava a perversidade como estigma da espécie a que
pertencia.
Enquanto falava naquele tom, no íntimo bem sabia que a onça pintada era velha e
encarquilhada, má, vivendo faminta e assaltando os bichos que tinham o topete de andar
por perto de sua morada.
Vou fazer essa visita que me pede.
E, decidido, largou-se o burro para o lugar em que vivia a onça tão boa, como afirmava a
raposa, pacífica e generosa. Chegou às imediações da Furna da Alegria. Viu a bicha
cheia de pintas pretas, saindo com um ar de mansidão, se arrastando, com os olhos
fuzilando e, dando salto ágil, procurou atingir o limite onde estava o burro. Este
desconfiou da parada. E pernas para que te quero, danou no mundo, a galope, regressando
num fôlego aos pastos de sua deliciosa mansão. Não sairia mais dali. E comentando com
os botões:
- A onça queria me botar no papo. Faminta como quê. Essa cachorra da raposa que me
apareça para eu lhe dar o troco merecido.
Os dias correram. Certa vez chega inesperadamente a comadre com toda delicadeza e a pedir
desculpa. Aquilo fora um horror. Como obter o perdão de seu amigo? Não tinha direito a
isso. Era uma pobre miserável, merecia a morte e, assim, lamentou-se até conseguir
manifestações de ternura do burro. Animou-se a maliciosa hipócrita dizendo:
- A onça, eu sabia, estava doente há várias semanas e foi exatamente na ocasião em que
você apareceu que ela, zangada e faminta, não o conhecendo, atirou-se com a violência
que costuma empregar contra suas presas.
Adiantou cautelosa
- Porém eu já fiz as necessárias recomendações e ela, agora ciente, pede-lhe mil
desculpas, contrariada que está e, sendo possível, espera-o quando você quiser ou achar
conveniente.
Bem, neste caso irei mais tarde.
E, de fato, renovou a dose, isto é: seguiu o caminho já de seu conhecimento. Foi e não
voltou. A onça banqueteou-se a semana inteira com mesa opípara. Fazia muito tempo até
que não saboreava carne tão gostosa. Carne macia e cheia de vitaminas.
A raposa alcançou o que escondia: os pastos precisavam ficar abandonados para o senhor da
casa-grande, sem querer perdê-los (outro animal para soltar não possuía nas redondezas;
o gado andava no cercado; apenas o burro estava privando de uma consideração
excepcional; era privilégio forçado) e, ante a evidência, abrisse o chiqueiro e
deixasse as frangas e capões invadi-lo para o mais gordo aproveitamento. E ainda teria
dito consigo mesmo, apreciando os fatos em que fora figura principal:
- Vá ser burro assim no inferno, na casa do diabo que o carregue.
(Vidal, Ademar. Lendas e superstições. p.501-503) |
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