Ir para a página principalRetornar para Festança

Fevereiro 2002
Ano IV - nº 42

A APROXIMAÇÃO DA QUARESMA, ENTRUDO E CINZAS


A aproximação da quaresma é marcada por sinais da Natureza. Os morros ao redor do Rio adquirem uma viva tonalidade roxa, de tal forma ficam cobertos pelas belas flores de um arbusto, que desabrocham nessa época. Por essa razão a flor é chamada de Quaresma. Um sinal igualmente singular pode ser visto nas ruas, que se mostravam vívidas e profusamente coloridas de verde e amarelo, rivalizando com o roxo dos morros ao redor. A origem disso era uma enorme quantidade de bolas de cera coloridas, do tamanho e do formato de ovos, que enchiam as lojas e grandes cestos colocados às portas das casas, e continham água pura ou perfumada. Nas igrejas gregas, a essa época do ano, são vendidos ovos de verdade pintados de vermelho, que são chamados de presentes pascoalinos e que, segundo diz o povo, pretendem representar as manchas de sangue de Cristo. Esses ovos são presenteados aos amigos, para serem comidos. Não consegui entender, porém, para que serviam os ovos verdes e amarelos, até que, passados alguns dias, a experiência me ensinou o seu significado.

Os brasileiros, como todos os povos dos climas tropicais, quando chega o momento de se divertirem entregam-se a isso com incontrolável alacridade. E essa alegria se manifesta particularmente durante o "entrudo" que precede a Quaresma, tendo os ovos um papel importante nos divertimentos. A brincadeira começa no domingo da Qüinquagésima e termina na Quarta-Feira de Cinzas. Um amigo foi fazer uma visita e me levou consigo – e a nossa recepção na casa foi uma chuva de ovos verdes e amarelos atirados em nosso rosto por todas as encantadoras mulheres da família. Fomos em seguida convidados a ir até a sacada, onde pudemos verificar que as janelas das casas vizinhas estavam cheias de moças, todas à espera de que passasse alguma vítima. Quando aparecia uma pessoa, ela era atacada por todos os lados e saía correndo, toda respingada de água, com o chapéu e o paletó cobertos de cascas de ovo verdes e amarelas. Se parava por um momento, julgando-se a salvo, e tirava o chapéu para sacudir fora a água, logo surgia uma moça numa janela insuspeita e, entre risadas, despejava-lhe sobre a cabeça uma bacia d’água. Se ele corria para o lado oposto, tentando escapar, era recebido com outra baciada, e se ia para o meio da estreita rua provavelmente recebia os dois jatos d’água de uma só vez.

Embaixo, nas lojas e por trás das portas, ficavam postados grupos de homens com enormes seringas e gamelas cheias de água, que eles esguichavam, um após o outro, no rosto e no peito do transeunte, de tal forma que, ao chegar no final da rua, o sujeito se achava tão encharcado como se tivesse sido atirado à baía. E se por acaso ele fizesse como o passageiro de Swift e primeiro "corresse, invocasse os deuses, depois parasse e voltasse" para xingar, seria saudado com palmas e gargalhadas, vindas de todas as apinhadas janelas à sua volta. As moças brasileiras são por natureza melancólicas e retraídas, mas nesse período, porém, elas mudam o seu temperamento, e toda a sua seriedade e timidez é engolfada por uma inextinguível alegria.

Vi às vezes algumas pessoas serem atiradas ao chão e atacadas com jatos de água e ovos a ponto de quase ficarem sufocadas. Às vezes juntava-se farinha, que era despejada aos potes sobre o corpo molhado das vítimas, formando uma pasta. Isso era feito particularmente com os negros e mulatos, que se tornavam extremamente grotescos quando enfeitados dessa maneira. Os teatros estão sempre abertos nessa época e esse esporte é praticado também no seu interior, principalmente dos camarotes para a platéia.

A tal extremo era levada a brincadeira que um dos jornais reclamou seriamente que os chafarizes iam secar e a população, devido a esse enorme desperdício, acabaria ficando sem água, uma circunstância que nada tinha de improvável tendo em vista a secura do clima até pouco tempo antes. Os estrangeiros, que são numerosos agora no Rio e parecem ser o principal alvo desses ataques, nem sempre acham isso divertido, o que levou o intendente da polícia a publicar um edital declarando que, tendo em vista que as brincadeiras durante o entrudo têm causado brigas e contusões, sendo comumente realizadas contra a vontade das pessoas que delas são alvo, ficam estritamente proibidas essas brincadeiras nas ruas e no teatro, por se tratar de uma prática que não pode ser permitida numa "sociedade civilizada". Por conseguinte, foram colocados guardas em todos os pontos da cidade, mas a "sociedade civilizada" do Rio não os levou em consideração e, no final, eles também aderiram às brincadeiras. Na verdade, não se podia esperar que fosse de outra forma, já que o próprio imperador dava o exemplo. Ele aprecia tanto o entrudo que participou dele o tempo todo, junto com os filhos e os amigos.

Perguntei a várias pessoas qual a origem desse estranho costume, mas ninguém soube me responder. Sendo uma cerimônia ligada a uma observância religiosa, suponho que lançar água sobre as pessoas deva representar alguma alusão ao batismo. Com exceção dessa brincadeira e da ida à ópera, os brasileiros não se dedicam a nenhum outro divertimento durante o Carnaval. Não se vêem máscaras nem nenhum tipo de fantasia.

Na Quarta-feira de Cinzas os padres da Ordem de São Francisco fizeram uma imponente procissão, na qual foram exibidas as efígies de todos os membros da Ordem que se tinham sobressaído por sua devoção e santidade. A procissão começou às cinco da tarde, partindo da Igreja da Misericórdia e se estendendo por um quilômetro e meio da Rua Direita. Sobre vários andores estavam dispostas várias imagens, em tamanho natural, representando as diversas ações piedosas dos santos homens. Era como se cada andor do fosse, de fato, um palco, no qual figuras, vestidas a caráter e em várias atitudes, representavam cenas reais. Alguns desses palcos tinham tantas figuras e eram tão pesados que precisavam de dez ou doze homens, todos trajando mantos negros, para carregá-los. E eram mais de trinta os andores. À frente de cada andor caminhava um grupo de crianças, trajadas da maneira mais fantástica possível e levadas por frades. Pretendiam representar anjos e estavam vestidas com saiotes cuja roda era quase horizontal devido à armação de arame ao redor da barra; suas asas eram feitas de gaze de várias cores esticadas sobre aros de bambu, ocupando enorme espaço à sua volta; os cabelos eram empoados e encrespados, as faces pintadas de vermelho vivo e nas mãos elas levavam varinhas prateadas tendo na ponta um dístico com o nome do santo ao qual serviam de guardiãs. Encerrava a procissão um grupo transportando um dossel sob o qual caminhava o superior da Ordem, rodeado por lampiões pendurados na ponta de um pau e seguido por uma banda militar. A imponente procissão levou três horas para alcançar o convento de Santo Antônio, seu ponto final.

Essa exibição – segundo em declarou um digno sacerdote – tinha por objetivo edificar o povo. Lamento dizer, porém, que o povo parecia muito pouco edificado por ela. Quando alguma das figuras sagradas parecia um pouco grotesca – o que, sou forçado a confessar, aconteceu algumas vezes – era recebida com gargalhadas pela multidão, tão logo aparecia à sua frente. A própria gravidade e solenidade de algumas delas, com seus capuzes e crucifixos, parecia apenas uma coisa ridícula para o povo, principalmente para os negros, que pelo visto achavam que o Carnaval ainda não tinha acabado e que aquela solene cerimônia também fazia parte da folia. Com efeito, ela me lembrava muito as procissões religiosas que vi reencenadas na França, depois de terem caído em desuso durante a Revolução. Toda a solenidade associada outrora a essas cerimônias parecia ter sido varrida da mente das multidões.


(Walsh, Robert. Notícias do Brasil. p.174)

Topo

Jangada Brasil © 2002