Fevereiro
2002
Ano IV - nº 42 |
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DOS PEIXES DO RIO
GUANABARA |
Não quero prosseguir este relato sem antes mencionar particularmente os deliciosos peixes
encontrados abundantemente neste belo rio da Guanabara ou de Janeiro. Há ali grande
diversidade de moluscos, tanto dos grandes quanto dos pequenos. Entre eles destacam-se as
ostras, de casca reluzente como pérolas finas, muito usadas como alimento pelo selvagens,
que geralmente as comem junto com uns peixinhos que são apanhados pelas crianças. Estas
ostras são da espécie que contém pérolas, e estas podem realmente ser encontradas em
algumas, conquanto não sejam tão preciosas quanto as de Calicute ou de outros pontos de
Levante.
Os adultos pescam peixes maiores, que são também abundantes neste rio. A maneira de
pescar que empregam é a seguinte: entrando inteiramente despidos na água doce ou
salgada, acertam o peixe com suas flechas, no que são muito destros, puxando-os em
seguida para fora dágua por meio de cordinhas de algodão ou de casca de árvores,
quando não acontece que os próprios peixes, depois de mortos, subam naturalmente para a
superfície.
A fim de não alongar muito o assunto, descreverei especialmente alguns dos monstruosos
peixes cujas gravuras podem ser vistas neste livro, como por exemplo o panapaná,
cuja pele é semelhante a do cação, grosseira e áspera como uma lixa. Este peixe possui
seis fendas estreitas de cada lado da goela, dispostas do mesmo modo como as da lampreia.
A cabeça é tal qual se vê representada na gravura. Os olhos ficam quase nas
extremidades da cabeça, a um pé e meio de distância um do outro. Trata-se de um peixe
bastante raro, e sua carne não é lá das melhores, tendo um gosto que lembra a da carne
do cação.
Neste rio há também grande abundância de raias de uma espécie diferente das nossas:
são duas vezes mais largas e mais compridas, com a cabeça chata e alongada, em cuja
extremidades existem dois longos cornos, cada qual de um pé de comprimento, no meio dos
quais ficam seus olhos. Têm seis fendas sob o ventre, todas próximas umas das outras, e
uma cauda de dois pés de comprimento, delgada como a de um rato. Os selvagens por nada
comeriam estes animais pela mesma razão por que também não comem a carne das
tartarugas: como este peixe caminha muito vagarosamente sob as águas, tornar-se-iam
lentos como ele aqueles que o comessem, transformando-se em presas fácil do inimigo,
impedidos que ficariam de correr com ligeireza. Na língua dos indígenas, a raia e
denominada inevoneá.
Os peixes deste rio são todos bons de se comer, assim como os do mar vizinho à barra.
Não são, porém, tão delicados quanto os da zona equatorial ou os de outros pontos do
mar.
Falando a respeito de peixes, não posso deixar de relatar um fato maravilhoso e digno de
ser lembrado. No território que fica ao lado do rio, próximo do mar, encontram-se umas
árvores e uns arbustos que ficam inteiramente cobertos e carregados de ostras, de alto a
baixo. Como o leitor deve saber, quando a maré sobe, uma grande onda penetra pela terra a
dentro, repetindo-se este fenômeno duas vezes a cada 24 horas. Esta onda cobre a maioria
destes arbustos, especialmente os mais baixos. Como as ostras possuem uma certa
viscosidade própria, ficam agarradas nos seus ramos em quantidades incríveis. Por isto,
quando os selvagens as querem comer, cortam estes ramos cheios de ostras (lembrando galhos
de pereira carregados de frutas), levando-os consigo para casa. Preferem estas ostras do
mangue às graúdas de alto mar, alegando que as miúdas são mais saborosas e sadias, ao
passo que as outras geralmente produzem febres.
(Thevet, André. As singularidades da França Antártica, p.95) |
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