Fevereiro
2002
Ano IV - nº 42 |
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IV
Foi nessa época da arrancada definitiva para os banhos de mar em Olinda, que o uso do
caranguejo foi adquirindo um grande prestígio. E ainda hoje não perdeu a importância.
Antes pelo contrário, granfinou-se. Em qualquer recepção de luxo na cidade
moderna lá estão os casquinhos de caranguejo nas ricas mesas, como culinária
obrigatória dos grandes momentos. E note-se o carinho, a simpatia, o interesse com que as
mãos mimosas das nossas damas da alta sociedade pegam nos bichinhos para saboreá-los...
Mas foi na fase áurea dos banhos do mar de Olinda que ele impôs-se e definiu-se. Morar
na praia, longe do centro da Capital, sugeria o uso quase diário dos peixes e dos
crustáceos na alimentação dos veranistas. E as marés do Varadouro começando a ser
resolvidas com intensidade, na caça ao caranguejo. O crustáceo, historicamente referido
pelo frei Vicente do Salvador, ia ter sua vez...
Começou logo por integrar-se no folclore olindense. Dizia-se que os crustáceos melhores
são aqueles apanhados nos meses que não têm R. A um homem baixinho, de pouca barba,
ainda se chama de aratu-barbado. Conta a lenda que o caranguejo perdeu a cabeça
por causa de camaradas. E isso antigamente era muito referido, quando se queria chamar a
atenção de alguém que ia muito a farras com amigos. Antes o animalzinho era igual aos
outros. Tinha cabeça e tudo, ajuizado e comportado. Mas um dia saiu com alguns camaradas
e findou caindo numa grota, machucando a cabeça. Por isso Nosso Senhor, que o salvou,
determinara que ficasse o resto da vida sem cabeça. E com ele toda sua grande família: o
siri, o aratu, goiamum, todos habitando nas marés do Recife e de Olinda. Ainda hoje se
vêem homens, mulheres e crianças, de calças ou saias arregaçadas, apanhando o
crustáceo nas marés-baixas para vender na cidade, através de um comércio bem ativo. A
poesia popular está cheia de quadrinhas referindo-se ao caranguejo.
Caranguejo não é peixe,
Caranguejo peixe é,
Caranguejo só é peixe,
Na enchente da mar
Ou então:
Caranguejo é doutor ,
O siri e capitão,
Aratu por ser pequeno,
Inspetor de quarteirão.
Uma figura popular importante o caranguejo. Até histórica no complexo Recife-Olinda de
ontem e de hoje. Que o digam os recortes dos velhos jornais amarelecidos da época dos
banhos salgados de Olinda.
[1972]
(Guerra, Flávio. Crônicas do velho Recife, p.81)
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