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Fevereiro 2002
Ano IV - nº 42

 

 

SACI É O MESTIÇO BRASILEIRO

Acredito que o tipo étnico brasileiro, o mestiço, é mais caracterizado como uma cultura do que como um traço racial. E o Saci de Monteiro Lobato é o símbolo desse mestiço brasileiro.

Originariamente, o Saci Pererê era uma entidade folclórica da mitologia dos índios brasileiros. Era um menino ameríndio, de uma perna só e que tinha como função defender as árvores, a natureza. Era um ecologista. Uma espécie de guarda-florestal. Foram as negras escravas, as famosas aias contadoras de histórias, as responsáveis pela versão moderna do Saci que Monteiro Lobato usou nos seus textos. O Saci representa, simbolicamente, um período social da história do Brasil. Quando os negros fugiam das senzalas e iam refugiar-se nos quilombos dentro das florestas, os portugueses, armados, iam caçá-los para levá-los de volta para a escravidão. Então os negros, para se defenderem, desenvolveram a Capoeira. Quando os portugueses voltavam feridos e derrotados da busca aos escravos fugidos e contavam como os negros se defendiam, aí simplesmente as aias desenvolveram o Saci moderno. Foi só tirar uma perna do escravo fugido, o quilombola, e dar cor negra ao Saci. Tanto um como o outro já tinham uma função de defesa: o Saci defendia as florestas. O negro defendia a liberdade. Ambos armavam ciladas para os seus inimigos. Então o Saci passou a ser o quilombola, o negro fugido, arteiro, o herói das aias e dos outros escravos prisioneiros nas senzalas. Além disso o elemento português também apareceu no Saci Pererê: o capuz de Papai Noel e também característico dos Sete Anões. Um elemento europeu, portanto. Toda a miscigenação cultural que se fortificou no fim do século 19 principalmente, ganhou força arquetipal no Saci. Na verdade o Saci Pererê é um arquétipo do tipo étnico brasileiro, o mestiço. Ele é o mestiço culturalmente definido.

 


Marco Aurélio Rodrigues Dias, é artista plástico e carioca. Construiu em São Lourenço, Minas Gerais, uma capela em estilo naif dedicada a Nhá Chica, uma santa da região do sul de Minas. Editor de um tablóide "Jornal O DIAS" de quatro páginas que circula no Circuito das Aguas de Minas Gerais.
www.artistaaurellio.hpg.com.br

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