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RECREAÇÕES
Fevereiro é mês marcado, para
mim. Por vários motivos. O rio fica de repiquete, as águas no máximo da enchente. Há
alagação por todo o lado. A cidadezinha de Tarauacá, em sua parte baixa, inunda
completamente. Salva-se porque as casas são construídas em cima de esteios muito altos,
com uma ponte de madeira, assim como rua central, por onde o povo circula.
Eu peço muito a Nossa Senhora da Conceição para retardar a vazante. A gente anda de
canoa por baixo de tudo quanto é casa, brincando a valer. São dias de excitação e
contentamento.
Outro fato de fevereiro: o Carnaval. Dizem de brincadeira: "Carnaval em Veneza"!
No início, estranhei: "Que troço é este!" Até me explicarem: "Veneza,
seu bobo, a cidade italiana, no Mar Adriático, toda em cima dágua!" Fui no
mapa espiar e achei bem no cano da bota (que é a Itália no mapa) a famosa cidade dos
doges.
Também em fevereiro os Cavalcanti, nossos vizinhos de seringal, comemoram o aniversário
da dona da casa, dona Sinhá. São cearenses, boa gente como são os cearenses,
hospitaleiros, mesa farta, quitutes à moda do Ceará, é claro.
Que excelentes almoços! Carne-de-sol, baião de dois, costeleta assada de carneiro,
galinha de cabidela, arroz de pato, e peixes, e que peixes gostosíssimos pescados no lago
atrás do barracão. Curimatã de escabeche, surubim cozido, pacu frito, pescada recheada
de farofa. Na sobremesa, queijo de coalho, queijo manteiga, doce de leite, bom bocado,
bolo cabano, fios dovos, quindins, baba-demoça, papos-de-anjo. Ainda há beijus de
tapioca, molhados em leite de coco.
Os Cavalcanti sabem receber. As moças bonitinhas, parecem sinhazinhas de casa-grande. O
seringal, numa bela situação: terra firme, campo verdinho de capim rasteiro, em
ondulações suaves. Grandes toiceiras de bambu, como rendas imensas, românticas,
suavizando em sombras o sol de trópico.
Por trás do barracão, perto do lago, está o engenho de aguardente e de açúcar
mulatinho. Sob o modelo do sertão cearense.
Como nós, meninos que se reúnem nesses almoços, nos divertimos no engenho! Há sempre,
por lá, rapadura, garapa, alfini. Consumimos estas gulodices até enjoar. Mesmo depois do
almoço.
O lago, de águas escuras e profundas, começa no campo e se mete na floresta, até
desaparecer de vista. Há, para mim, sempre um ar de mistério nesses lagos silenciosos
que, em suas águas paradas, guardam fartura de bons peixes e também animais repelentes e
ferozes, como o jacaré e a sucuri. Dois bichos de má memória, povoando de sustos e de
temores a minha vida de menino.
O clima obscuro, a calmaria perene do lago nos convidam, a mim e aos meninos que me fazem
companhia, a tripular uma canoinha, ouvindo os murmúrios de água mexida pelos nossos
remos.
No prazer da aventura, não nos ocorre lembrança dos perigos ocultos naquela massa
líquida, que parece se fazer soturna e enorme para melhor encobrir a presença de bichos
ruins e traiçoeiros. Mas que têm beleza, têm, esses lagos misteriosos, tão freqüentes
nos seringais do Acre.
Estas amenidades pedem que eu fale do Seringal dos Cavalcanti com alegria.
(Tocantins, Leandro. Aventuras de Tizinho, p.104-106) |
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