LILI
Cançoneta original
I
Saída há pouco dum
convento
Onde aos seis anos recolhi
Sinto profundo acanhamento
Em vir cantar agora aqui
Ao começar a cançoneta
Com tanta gente a olhar pra mim
Devia estar cor de malagueta
Ou pimentão e assim?
Quem num convento se prende
Cá deste mundo nada entende
Que ali só se aprende berdaro matiz
Muita bugiganga que de nada vale
Letras a missanga
Etcoetera e tal
Letras a missanga
Etcoetera e tal
Logo ao deixar o santuário
E mal os pés no mundo pus
Vem o finório do empresário
Que pra o teatro me seduz...
As cançonetas que hoje canto
Se têm frescuras não sei eu...
Sou inocente... e vão portanto
Sobre o autor que as escreveu...
Quem vem da santa clausura
Como eu vim
Saber não pode o que é frescura...
Vou cantá-las todas
Tim-tim por tim-tim...
Se lhes agradarem
Serei bem feliz
- E se não gostarem }
Não me peçam bis } bis
II
Numa modesta sobreloja
Mora Evaristo há mais de um mês
E ao rez do chão também se aloja
Lili, que é mestra de francês
Por forte, a casa, isso não prima
Ontem à noite abre-se o chão
E, rebolando lá de cima
Vem Evaristo de gangão!...
Na queda apaga-se a vela
Vai-se a luz!
E o vizinho cai aos pés dela!
Na queda inesperada
De truz, catrapuz
Em cata da vela
Segura-se a ela...
Lili, assustada }
Não diz chuz nem buz! }bis
Querem falar, mas Evaristo
Não pesca nada de francês
E ela não sabe, está bem visto
Nem patavina em português!
Qual de coelhos em calada
Ficaram-se ambos, mas depois
Quando rompia a madrugada
Já se entendiam bem os dois
Do conto a moral distingo-a
Pois traduz
Que, pra aprendermos qualquer língua
Basta uma só noite
Mas sem luz, sem luz...
- Se quer saber línguas
Mesmo um burro velho
Aprenda-as de noite
Tome este conselho
Mas não diga nada...
- Chuz nem buz... nem buz...
III
Era eu bem nova, tinha apenas
Dezesseis anos, pouco mais
Quando um velhote de melenas
Me fez propostas maritais
Do bom velhote ao requerimento
Não quis passar logo alvará
Por não saber se o casamento
Era coisa boa ou má...
Perguntei a muita gente
Se era bom
E a tal pergunta, geralmente
Como que afinando
Pelo mesmo tom
Toda essa Lisboa
Me disse: - Ó menina!
Isso é coisa boa
Mesmo papa-fina
Isso é coisa rica
Muito bom, bem bom!
Pois que era bom ter um marido
Com todo o gosto dei um "sim"
E do casório apetecido
A bela noite chega enfim...
Porém... nem sei como lhes diga
Que isto é difícil de contar...
O tal velhote duma figa
Passou a noite... a ressonar!...
E há gente que certifica
- Por meu mal! -
Que o casamento é coisa rica!...
Eu, que fui à igreja
E que estou tal qual
É que posso ao certo
Dizer afinal:
- Pode ser que seja...}
Mas não dei por tal... } bis
IV
Tão delicada de cintura
Era a mulher de Valentim
Que o seu colete, na largura
Não tinha mais do que isto... assim!...
Era um colete de mão cheia
Inda do tempo dos avós
Com belas barbas de baleia
E mil borados a retrós...
Apesar de ter casado
Foi fiel
Ao colete idolatrado...
A cintura esbelta
No delgado anel
Por diversas vezes
Apertou Raquel
- Nos primeiros meses }
Da lua de mel... } bis
|
Raquel, porém, ficou pasmada
Notando um dia, com pavor
Que aos quatro meses de casada
Já estava curto o atacador...
Dos lindos olhos perde o brilho
Cobre-lhe a fronte a palidez
Ao ver o demo do espartiho
Encolher mais de mês pra mês!
Seria algum feitiço
Que encolheu?...
- O Valentim que fale nisso...
Mas esse feitiço
Não engulo eu...
E tal não perfilho
Pois, enquanto a mim
Nunca um espartilho }
Se encolheu assim... } bis
V
A atravessar uma levada
Marcha Vicência e Daniel
Sobre uma ponte improvisada
De pedregulhos a granel
Ela à mão dele se segura
E Daniel, marchando a par
Passa-lhe a mão pela cintura
Pra mais ao jeito a segurar...
E, damor morto em desejos
Quer então
Na companheira dar dois beijos...
Mas, quando a apertava
Junto ao coração
- Vejam que precalço
Que atrapalhação! -
Pondo um pé em falso }
Vai com ela ao chão!... } bis
Ao trambolhão que deu Vicencia
Muito de perto eu assisti
Mas aconselha-me a decência
Que o não relate agora aqui...
Basta somente que lhes diga
Sem descrição fazer maior
Que na tal queda a rapariga
Foi quem ficou muito pior...
Pois enquanto o namorado
Conseguiu
Pôr-se de pé, sem estar molhado
Ela, cuja roupa
Se molhou no rio
Toda numa sopa
Logo se sentiu...
- Mas daquele caso }
Não contou nem pio... } bis
VI
O primo André e a prima Andreza
Eram da praia a admiração:
- Ela, um tesoiro de beleza
- Ele, um perfeito rapagão!
E, pra tratar não sei que assuntos
A prima Andreza e o primo André
Tomavam sempre o banho juntos
As mesmas horas da maré...
Juntinhos no mar saltavam
E depois
Também juntinhos mergulhavam...
No que conversavam
Lá por baixo os dois
Isso era mistério
Que é melhor que se deixe
Pois, se houve algum peixe
Que os ouvisse a medo
Teve um bom critério
De guardar segredo...
Eu pus-me um dia sobre a ponte
Pra ver os dois sem ser por mal... -
- stava danil todo o horizonte
E as águas puras de cristal...
Empoleirada lá de cima
Eu num mergulho vi dos tais... -
O primo André beijando a prima
Na mão... no braço... e muito mais!...
Quando assim rebenta a fragua
Da paixão
Com tal calor debaixo dágua
Como ali se via
Se nenhum é peco
Mesmo nágua fria
Se a paixão se abrasa
Pondo os dois em seco }
Deitam fogo à casa... } bis
VII
Pediu a Rosa do Moinho
Cheia de crença e devoção
Ao seu prior, que era um santinho
Quisesse ouvi-la em confissão
Como na igreja festa havia
Com muita bulha no altar-mor
Foram os dois à sacristia
- `Pra confissão se ouvir melhor...
A confissão era grave
E o prior
Fechou por dentro a porta à chave...
E na penitência
Não houve indulgência
Que eu pesquei de esguelha
Vir da confissão
A Rosa vermelha }
Como pimentão } bis
Verteu de certo um amargo pranto
Pois que, durante a confissão
Essa infeliz gemia tanto
Que até metia compaixão!...
Mas tais pecados lhe alivia
A confissão, que, em todo o mês
Não falta lá sequer um dia...
- E vai nalguns mais de uma vez!...
E encontra sempre disposto
O prior
Que o caso foi tomar-lhe gosto...
E agora há quem ladre
Que está magro o padre
E do contratempo
Dão como razões
Não chegar-lhe o tempo }
Só pra confissões... } bis
(Monólogos
e cançonetas... por Ricardo P. Gomes.) |