Ir para a página principal

Página 1 | 2 | 3  

Sumário | Festança | Cancioneiro | Imaginário | Oficina | Palhoça | Colher de Pau | Panacéia | Catavento

Em uma brochura, publicada em 1908, encontramos uma curiosa coleção de poesias dramáticas e cômicas, que ora reproduzimos aqui. No prefácio, o editor esclarece:

"Monólogos e cançonetas ora postos em voga em revistas de atualidade ora nos tablados dos cafés cantantes, ganham dentro de pouco tempo uma popularidade tão estrondosa quanto efêmera, pois não tarda que sejam esquecidos sob a influência de alguma coisa mais palpitante.

Muitos desses trabalhos apenas, com efeito, se coadunam com a época em que aparecem. Outro, porém, já pela sua feitura artística já pelo seu chiste e pelo seu espírito, merecem ser conservados não somente para oferecer um passatempo alegre, mas também para firmar a justa consagração que tiveram a seu tempo.

São desta categoria os monólogos e cançonetas que os editores resolveram enfeixar no presente volume, certos de satisfazerem por este modo a uma velha aspiração popular, a qual lhes tem sido repetidamente manisfestada pelos seus amigos e clientes de vários pontos do país."

A MORTE DO BICHO
(Monólogo, para senhora, por José Reis)


Se me escutam, vou contar
A verdade manifesta
Como foi que comecei
Logo, assim que me casei
A ter sorte bem funesta!
Se me escutam, vou contar

Ofereceu-me meu marido
Um tareco, pelo noivado...
Era branco... luzidio...
Tinha o pelo corredio
E o focinho avermelhado!...
Pertencia a meu marido

A amizade era evidente
Visto que na minha frente
Dava prova bem patente
Que por mim nutria afeto!
Marradinhas d’amizade
Dava mil! E na verdade
Eu até tinha vaidade
Ao vê-lo assim tão inquieto!...

Nem preciso me era vê-lo
Ou correr-lhe a mão pelo pêlo
Para aos pulos logo tê-lo
Só bastava eu chegar
Onde ele estava, coitadinho
Muito oculto, anafadinho
Para o bom do meu bichinho
Desinquieto logo estar!...

E por ser tão dedicado
Um bicho tão educado
Por mim foi bem batizado:
O Piegas lhe chamei
Mas... oh! céus! que arrelia!...
Fugiu de mim a alegria
Pois que, ao terceiro dia
O bichano eu matei!...

Num rebaixo estreito e escuro
S’encaixou (esp’rando algum rato!)
Eu a porta fui fechar...
E, já dentro, sem ter ar...
Era duma vez um gato...
Num rebaixo estreito e escuro!

Meu marido, o gato e eu
Era um terno. Ora, pois
Morre o bicho... e o que fez?
Não posso contar os três...
Agora ficamos dois!...
O meu marido... e mais eu!...

.....................................

O Piegas foi pro lixo!
Sou do remorso assaltada!...
Porque enfim... matei o bicho
Aos três dias de casada!...

 

A TERRA DAS FALCATRUAS
Paródia ao monólogo A terra das maravilhas, por Oscar Monteiro


’Stou chegando neste instante
E aqui lhes mostro a mala
Que viagem interessante
E que magnífica escala!

São Paulo?! O Rio?! A Bahia?!
Tudo isso é letra morta!
Quis ver e vi, (quem diria?!)
Qual era a nação mais torta

Fui à ilha dos Furores?
Fui à terra da mangaba?
Nada disso, meus senhores
Fui simplesmente... à Fava!

Mas que país! Que avenidas!
Nesse tal das falcatruas!
Que alamedas compridas!
Oh! que edifícios! Que ruas!

Lá na Fava tudo é novo
Tudo muito original
E não creio que haja povo
Assim tão excepcional!

Da morte o triste tributo
Ali se paga também
E às vezes se deita luto
Sem ser por morte de alguém

Em Fava – parece asneira
Mas se o for está provada
Há mulher sem ser solteira
Nem viúva, nem casada...

De amor, as chamas tiranas
Abrasam uns noivos no seio...
Ao fim de algumas semanas
Ficam um par e mais meio...

Outra cousa, que alvoroço
Não faz, nem pode causar
Quem não tem para o almoço
Raras vezes vai jantar!

Outro caso (e este é corrente
de um a outro equador)
Quando se fica doente
Nunca se paga ao doutor

É só com graxa de lustre
Que as botas se lustram bem...
Mas não há pobre ou ilustre
Que não se engraxe também

Para os senhores avaliarem
O país das falcatruas
Vou contar, (se me deixarem)
Uma das muitas das suas

Se dos cobres, o ministro
Está um pouco apertado
Lança assim, um olhar sinistro
No seu povo aparvalhado

E combina um grande imposto
Que abala o país inteiro...
E depois... com calma e gosto...
Manda queimar o dinheiro!

Não digam que isto é tolice
Que faz torcer o nariz
Pois o tal ministro disse
Que é pra salvar o país!

Talvez que não se conformem
E julguem peta, decerto
Os da Fava, quando dormem
Deixam sempre um olho aberto...

Outra também (um portento!)
Mas mentira ela não é
Há por lá muito avarento
Que não tem meia no pé

A instrução (oh! São Brás)
É a mais superior
Se dentista um exame faz
Já é chamado doutor!...

Creio não terem notícia
De outro caso singular
Quem quer chamar a polícia
Azula, em vez de apitar

Talvez que ninguém me creia
E diga: "Que coisa tonta!"
Porém lá pataca e meia
É coisa que não tem conta!

Vão pra o hospício os poetas!
Vão pra enxovia escritores!
Pois não consentem profetas
Lá na terra dos favores!

Enfim, eu digo aos senhores
Embora não creiam não
Lá na Fava os amadores
São aplaudidos com a mão

E se palmas me negarem
Quando esta prosa se acaba
É o mesmo que ordenarem
Que eu volte de novo à... Fava

(Monólogos e cançonetas... colecionadas por Ricardo P. Gomes.)

O MEU AMIGO BANANA
Cançoneta cômica de Eduardo Garrido


Ninguém poupa da Parca implacável
A implacável tesoura inumana...
Perdi ontem um amigo estimável
Vencesláu Policarpo Banana

Inda o vejo a dizer-me: - Anacleto
Morro... Aceita o meu velho relógio
Vou pagar-lhe tal prova de afeto
Publicando o seu necrológio

Já maduro, já cá dos veteranos
Sessenta anos contava – sessenta -
Se consegue viver mais dez anos...
Só morria depois dos setenta

’Stava longe de ser homem belo
Porém tinha bom ar e bom modo...
E alisava sem custo o cabelo
Se não fosse careca de todo

Como o pobre, infeliz Belisário
Mendigou muita vez... um vintém
Mas apenas se viu milionário
Nunca mais pediu nada a ninguém

Talvez peta o seguinte pareça
Mas é coisa que passa por certa
Nunca punha o chapéu na cabeça
Sem ficar com a cabeça coberta

Sem ser sábio, sem mesmo ter cursos
Deputado se fez eleger
E se cortês fizesse discursos
Era muito capaz de os fazer

Leu ainda quando era estudante
Até meio a Sagrada Escritura
Se tem lido a metade restante
Com certeza acabava a leitura

De bom vinho amador – diz a fama -
Esgotava ao jantar... um alaúde
E em caindo doente na cama
Não gozava perfeita saúde

Era exímio no jogo da bola
E um portento atirando o pião
Só não dava no alvo à pistola
Em não tendo a pistola na mão

Projetando talvez ser eterno
Tinha em si um cuidado exemplar
Nunca esperava os regelos do inverno
Pra tomar os seus banhos de mar

Se à vivenda do campo atraído
Ia uns meses passar em Foscoa
Era sempre trabalho perdido
Procurá-lo na casa em Lisboa

Nunca o viram na rua estender-se
Que não fosse por dar trambolhão
Mas também... se podia suster-se
Nunca dava com as ventas no chão

Outra coisa vos digo, e com ela
Vou decerto causar-vos surpresa
Quando a gente o bispava à janela
’Stava em casa com toda a certeza

Jornadeava de v’rão numa égua
Com que o pai o brindara em criança
E em se achando em Lamego ou na Régua
Nunca estava no Crato ou na Chança

Tinha pilhas de graça, e depois
Patetices... pilhérias... inventos...
Lá pra ele um quartinho e mais dois
Eram sempre três mil e seiscentos

Os contínuos desgostos mundanos
Recebia-os com riso sarcástico
E em saindo com botas de canos
Não saía com botas de elástico

Outra coisa, - mas isto baixinho
Pra que os maus o não vão difamar
Em tomando o café no Martinho
Não tomava café no Marrar

A correr igualava uma corça
E só tinha um defeito infeliz:
Não podia assoar-se com força
Sem tirar algum som do nariz

Das famílias com quem convivia
Convidado pra ceia ou jantar
Se antes dele ninguém aparecia
Era sempre o primeiro a chegar

E em dançando nas casas alheias
Pra melhor dar à perna nas valsas
Punha as botas por fora das meias
E as ceroulas por dentro das calças

Consta agora, segundo me diz
Quem viu cartas do ilustre finado
Que escrevia Cartaxo com – x -
E chouriço com – ç – cedilhado

E alguém ontem me disse em segredo
Com saudade e com ar compassivo
Que se a morte o não rouba tão cedo
Inda hoje decerto era vivo

Da Turquia sultão ser quisera
Para ter na Turquia um harém
Porque então, a meu gosto, eu pudera
Ter de cada feitio... umas cem!

Rosas, Ritas, Constâncias, Fabrícias
Tudo, tudo me serve e me agrada
Seja meiga, com doces carícias
Ou tão má que me dê bordoada!

Amo todas – dos pólos aos trópicos
Brasileira, espanhola ou francesa
Desde a China – onde há pés microscópicos
À Inglaterra, onde há pés de toesa

Tortas, coxas, marrecas, manetas
Amo a todas – mulher todas são!
Sejam brancas, mulatas ou pretas
Lá da cor eu não faço questão

 

O BILONTRA
Arranjo de Oscar Monteiro

Moro em casa assobradada
No cimo d’estreita escada!
De mim mesmo sou criada
Criado e guarda-portão!
Quando algum credor antigo
Intenta vir ter comigo
Sou eu próprio que lhe digo:
- Não está em casa o patrão!

Pouco me importa a mobília!
É tropeço de quizilia
Numa casa de família
Se me honra alguém... isso então...
(Qual boudoir de cocottes)
Faço étager d’uns pacotes
Sofá do poial dos potes
E a cama... arranjo-a no chão!

Não uso trem de cozinha!
Faz-me chá uma vizinha!
O comer, por vida minha
Nunca me deu que pensar!
Sempre encontro um conhecido
Que seja enriquecido
A quem digo se é servido
De me ter ao seu jantar!

Em amor... ai! são caniços!
Armado com mil feitiços
Deito às vezes seis derriços
De São Paulo a São João!
Ando agora a ver se afago
Certo velho – rico e gago!
Se lhe apanho a filha e o bago...
Sou desta vez um barão!

Quando mocinha bonita
Eu vejo toda catita
Com o nariz, que arrebita
Mais para o ar, que pra o chão
Chego a ela de mansinho
Olho-a com terno carinho
Suspirando um bocadinho
Pego-lhe a jeito na mão...

Ela sorri (com certeza!
Imagina ter a pressa
Presa à sua gentileza
De conceder um sorriso!)
Mas eu que não tenho cara
De gostar de coisa rara
Digo então: - Não sou arara!
Tenho ainda algum juízo!

Falo em tudo! Dou sentença
Na questão mais grave e densa!
E pra que ninguém me vença
Não deixo os outros falar!
Falo de tudo e de todos
Deito os maiores apodos
Despejo ciência aos rodos
E a todos faço espantar!

Aos teatros portugueses
Onde vou algumas vezes
Vou cheirando a camoezes...
E porto-me... oh! pai do céu!
Dou assobios! dou pinotes!
Se me não vão aos fagotes
Nem respeito os camarotes
E grito forte – péu! péu!

de jóquei, no hipódromo
Mal na baliza eu assumo
A frente aos mais logo tomo
E deixo atrás os pimpões!
Tenho um cavalo de raça
Mais leve que um fio de caça!
(Graças à fome que passa!)
Dão-me por ele... milhões!

De fidalgos, se há tourada
À testa da franganada
Chamo o boi; mas da marrada
Não quero os outros privar!
São briosos... resolutos!
Eles panham, os brutos...
Eu cá apanho os charutos!
Se a glória é fumo – fumar!

E nesta vidinha santa
Que um dissabor não quebranta
Sobretudo o que me encanta
E até me causa prazer...
É escutar os senhores
Bater palmas, dar louvores
Fazerem das mãos tambores
E bater, bater, bater!

Topo

Jangada Brasil © 2002