Jangada Brasil, nº 42, fevereiro de 2002: Colher de Pau – Excertos do folclore da alimentação

EXCERTOS DO FOLCLORE DA ALIMENTAÇÃO
de Luís da Câmara Cascudo

 

Abacaxi: desajeitado, canhestro, malamanhado. Dificuldade, problema complicado. Descascar o abacaxi, resolver habilmente a situação. Mau dançarino. Mulher gorda, sem donaire. Denominação dos escravos enviados furtivamente de Pernambuco para o Ceará, para alforriarem-se.Afiambrado: vestido com elegância, chibante, faceiro, no trinque, roupa nova.

Água: banalidade, vulgaridade, monotonia. A festa foi uma água. Falhar o plano, deu água. Acabou em água de bacalhau,diz-se em Portugal. Água morna, os apáticos, os neutros. Água suja, conflito, balbúrdia, mexericos.

Alfinim: maneiroso, delicado, melindroso, afetado, artificial. Amável mas fátuo ou leviano. Empregado identicamente nos autos portugueses do século XVI.

Angu: complicado, chafurdo, briga, bagunça. Angu de caroço.

Arrotar: denúncia de repleção integral. Quem bem arrotou, bem almoçou. Suetônio lembra o imperador Vitélio arrotando para provar haver jantado (Vitellius, VII). Ostentação. Exibicionismo. Arrotar grandeza, valência, riqueza. Comer sardinha, arrotar tainha. Faminto em casa e arrotando na rua. Arrotar o que não comeu. Tobias Barreto fala dos que comem francês e arrotam alemão.

Arroz-doce: vulgar, comum, banal.

Arroz doce de pagode: infalível nas festas.

Azeites: mau humor, zanga, capricho.

Azeitona: mulatinha frajola. Morder azeitona, gostar de beber. No Auto da Ave Maria, 1530, Antônio Prestes, diz casou co’azeitona, significando o bebedor.

Bacalhau: azorrague de couro. Mulher magra. Bacalhau de porta de venda.

Badejo: os peixes serranídeos são considerados entre os mais lindos da nossa ictiofauna. Belo, atraente, grande, volumoso. Festa badeja, frevo badejo, clube badejo. Nesse sentido a imagem viajou do sul para o norte. Os badejos nortistas são os serigados.

Bago de jaca: fácil, cômodo, acessível; sem personalidade, demasiado tímido; subserviente, submisso.

Banana: covarde, tolo, amaricado, sempre concordante. Banana-mole. Bananzola. Morais já registrara nessa acepção. Gesto obsceno, de sugestão fálica; por a mão ou o antebraço no sangradouro do outro, oscilando este com a mão fechada. Dar bananas. Adeus de mão fechada. Com o nome de banana é recriação brasileira. Veio de Portugal onde o denominam as armas de São Francisco, manguito, mangarito. Herman Urtel não mencionou o sinônimo brasileiro quando estudou o gesto em Portugal. Comum na Espanha, Itália, França, très vulgaire et obscéne, escreve A. Mitton aludindo sua signification ithyphallique. Membro viril.

Batata: acertado, justo, eficiente. Foi ou é na batata. No alvo. Morder a batata é beber cachaça.

Beba água: resigne-se, console-se, acomode-se.

Beber jurema: feitiçaria, catimbó, macumba. Praticar, exercer, fazer feitiços.

Bocado: sinônimo de subsistência, alimentação diária. Preciso ganhar o meu bocadoNão posso perder o bocado de minha família. Prato. Pirões.

Bife: o inglês, comedor de beef.

Biscoitar: surrupiar, apropriar-se astuciosamente, com esperteza mas indevidamente. Sugestão do biscoito, fácil de conduzir e consumir. Abiscoitar.

Bode: farnel de caçador e de trabalhador ferroviário ou rodoviário.

Bofe: velha meretriz. Mulher gorda, feia, avelhantada, ainda desejosa.

Bom-estômago: tolerante em excesso, resignado, bonachão. Engole-tudo.

Bredo: namoro, derriço.

Bromar: estragar-se, transformar-se inferiormente. Piorar em vez de melhorar, degenerar, involuir. Ia ser um rapaz culto mas bromou. Estado do açúcar que não atinge a cristalização, dando apenas qualidade inferior, o mascavado. Diz-se que o açúcar bromou.

Bucho: o mesmo que Bofe. Edison Carneiro informa na Bahia: “Bucheiro, homem que tem predileção por mulheres feias. Buchada, grupo de mulheres feias”.

Cachaça: vício, mania, hábito, predileção. A cachaça dele é a política.

Café-pequeno: facilidade, proveito imediato, sucesso obtido sem custo. Foi café-pequeno.

Cana-de-açúcar descascada: pedaço de cana descascado,sorte inesperada, ensejo favorável, favor espontâneo. Ia à pé mas peguei uma carona descascada.

Canja: idêntico ao café pequeno. Êxito sem custo. É ou foi canja. Na canja, vida boa.

Carne-seca: passadismo; constumes antiquados; avareza; economia exagerada; velho ranzinza; teimoso.

Catolés: seios de adolescente. Anda mostrando os catolés na rua.

Cebola: interjeições de protesto, negativa ou desdém: Cebolas! Cebolinha! Cebolório! Velhos relógio de bolso, de prata maciça, dos antigos modelos.

Cebolão: relógio maior, de algibeira. No elemento feminino, as sexualmente exaltadas, de fácil excitação amorosa, são acusadas de ter a cebola quente.

Chá: gosto, requinte, retoque essencial, característica mais apreciada. O chá é mandar chumbar um dente a ouro e pôr uma coroa na frente; Cornélio Pires. “Aí é que está o chá!”. (J. M. Cardoso de Oliveira). No interior de São Paulo servir de chá é ser objeto de zombaria. Não dar um chá, não ter importância, pouca desvalorização. Não tomar chá em criança, não ter modos, educação, maneiras.

Cocada: bofetão, tapa, cocorote, murro na cabeça ou na face. Derriço, faceirice, prosa fiada, elogio fácil. Ferida na cabeça. Fazer cocada, chamego, libidinagem, namoro grudado. Na Bahia, correio entre namorados ou amantes.

Coirana: courana, coerana, Cestum leviegatum, Schl, uma solanácea, extremamente amarga e picante. “A coerana, já esteve muito em voga, quando o seu nome significava o mesmo que atualmente quer dizer a palavra roedeira, isto é: ciúmes, ciumadas, amores contrariados, pretensões não cabíveis entre namorados, despeito, etc.”, escreve Getúlio César:

Se coerana se vendesse,
Uma folha era um tostão;
Eu bem sei quem tá roendo
Mas, não dá demonstração.

Roer coirana é estar ciumado. Altera-se para courama, roer couramaroer um couro, na mesma intenção.

Colher: facilidade imediata, vantagem sem demora. Foi ou é de colher.

Comer: supor, presumir, julgar. Eu o comia por médico e era um charlatão. Explica-se o estado psicológico ou a situação social pela espécie alimentar. Comendo pimentas, furioso, decepcionado, cheio de ira. Comendo areia, desempregado, faminto, azarado. Comendo barata, enfrentando dificuldades, fatos desagradáveis. Comendo fogo, ambiente hostil, áspero, antipático. Comendo água, embriagando-se. Comendo prego, na batalha pela manutenção. Comer rama, embebedar-se. Comer verbena, beber cachaça. Comer pedras, comer queijo de brisa, sem meios de subsistência. Come-longe, indivíduo pálido, macerado, hipoêmico. Comer insosso, amarguras diárias, sucessivas. Comer com a testa, não conseguir, falhar o plano e vê-lo realizado por outrem. Comer couro, ser surrado, sovado. Comer calado, pacientemente. Comer safado, contrariedades, contratempos. Comer brisa, passar fome, não querer comer. Comer da banda podre, adversidades. Comer brocha, o mesmo que comendo pregos. Comer, copular. A fecundação por via oral é uma tradição mitológica mantida nas versões populares a menção de ervas e frutos que engravidam. Comer gerumba, suportar trabalhos pesados, curtir desapontamentos, forçado pelas conveniências, ou pela necessidade, e análogos estados d’alma. Comendo corda, acreditando em mentiras. Comeu junça, sexualmente forte. A junça, Cyperus esculentus, Linneu, dizem ser tônico afrodisíaco, nos tubérculos terminais das raízes. Comer salgado, enfrentar situação dificultosa, precariedades.

Confeito: decoração açucarada nos bolos de festa. Remate, coroação, para findar. Para confeito da questão, não me pegou!

Para confeito da obra
Uma viola na mão.

Cuscuz: seios flácidos, disfarçados sob a blusa.

Dendê: coisa gostosa, apreciável, pitéu, excelente. “Fez ontem o seu dendê em frente a nossa tenda de trabalho o velho maracatu Porto Rico”, noticiava no Recife o jornal Pernambuco, nº 104, 1914. Dificuldade, empecilho, obstáculo; aí é que está o dendê!

Derrama-molho: pequena barraca, estreita ou de boca diminuta.

Empada: preguiçoso, lerdo, poltrão, negligente. Visita inoportuna.

Farinha: abundância, fartura, quantidade. Gente como farinha.

Farofa: vaidade, presunção, gabolice, mentiras, ostentação falsa. Farofeiro.

Por fora muita farofa,
Por dentro molambo só.

Feijão: comida diária, o trivial, o passadio comum. Fui serrar os feijões de papaiFeijão-todo-dia, o ritmo cotidiano, inalterável. Feijão-com-coco, festa suspeita, confusa, convidados desiguais.

Filé: moça nova, sadia, atraente. Rapaz afeminado.

Fruta: aguardente; gostar da fruta, cachaceiro. Fruta verde, mocinha; jovem namorada curiosa de agrados. Fruta nova, pessoa estranha, estrangeiro. Meretriz recém-chegada. Aplicada ao indivíduo estranho era corrente em Portugal, na primeira metade do século XVI. No Auto da Ave-Maria, Antônio Prestes escreveu:

D’onde vem a fruta nova
não n’a vi senão agora.

Furrundum: doce de cidra ralada, com rapadura ou açúcar mascavo. Entre os caipiras de São Paulo e fronteiras de Minas Gerais é também discussão, barulho, briga.

Galinha: covarde, moleirão, assustado. Pederasta. Mulher lasciva e fácil. 

Galinha morta, incapaz de reação. Inerte. Abúlico. Comendo galinha, mulher de resguardo, parturiente.

Galinheiro: a mais alta galeria nos teatros, também denominada Poleiro Paraíso. Poulailler, Paradis, em França, origem do nome no Brasil. Quem faz opinião no teatro é o galinheiro.

Galo: brigão, provocador, arruaceiro. Mulherengo, bordeleiro. Ter grande potência sexual. Comendo um galo, apressado, inquieto, atarefado, ansioso. Um galo na testa, hematoma. Salgar o galo, bebida matinal. Cabeça de galo, ovos cozidos com pirão. Cocktail. Rabo de galo, cachaça e vinho.

Ganço: bebedeira, pileque, carraspana. Viver no ganço. Está de ganço. Gancista. Deu a gança, zangar-se deblaterar, irar-se dizendo desaforos.

Garapa: solução fácil; banalidade, vulgaridade. Foi aquela garapa. Encarapar, enganar, iludir, persuadir convencer. Morais registrou no seu dicionário; “Engarapar, v.at. Dar garapa § fig. Fazer a boca doce a alguém, para o reduzir à aquilo que queremos”. Antônio de Morais Silva foi senhor de engenho em Pernambuco.

Goiaba: proveito. Ganho desonesto. Comendo goiabada,outrora vida de cáften e presentemente receptador de contrabandos. Olho da goiaba, ânus. Na gíria dos ciganos em São Paulo, Minas Gerais, pelo sul do país, morder na guaiába é fazer negócio, entrar em acordo de compra, permuta ou venda.

Goiabada: solução imprevista; transação mais rendosa e fácil que se pensava. Que tal o negócio? Goiabada, amigo! Na goiabada, tratamento carinhoso, abundante, sem previsão da finalidade. Está na goiabada, vamos ver o que sai.

Goma: contar vantagem, auto-elogio, alardear importância. Mentira, exagero, filáucia. Vive contando uma goma danada! Tumor no periósteo, exostoses mollesEngomadonas gomas, elegante caprichoso na indumentária. Gomeiro, pábulo.

Guabiraba: é um adjetivo que significa zangado ou irritado. Estar nas guabirabas, desconfiado. É uma mirtácea comum a todo território nacional, fruta e doce.

Grude: bolo de goma de mandioca, açúcar, leite de coco. Os grudes de Estremoz eram os mais famosos do Rio Grande do Norte. Goma líquida para colar couro papel, fazenda. Briga, barulheira, altercação, rezinga. Namoro agarrado.

Jaca, jaqueira: negócio sem embaraço, pronto, rápido, lucrativo. Jaca, chapéu alto. Jaca mole, molenga, aparvalhado, imbecil. Conseguiu o emprego? Foi jaqueira!

Jenipapo: mancha azul-negra nos glúteos ou na cintura, mancha mongólica, tida como indicativa de mestiçagem. Fidalgo de jenipapo, ironizavam com os mulatos ricos do tempo do Império.

Jerimum: o mesmo que melancia na linguagem popular.

Limão: temperamento azedo, constante mau-humor, zangadão irritante. Falhando o plano, errado o cálculo, deu limão. Pormenor característico, vivacidade comunicante, simpatia envolvente, não existindo, dizem faltar limãoLimão de cheiro, mocinha airosa, agradável, simples. No Auto dos Cantarinhos, meados do século XVI, Antônio Prestes cita o limão de gentileza, como elogio a uma namorada em Lisboa.

Lingüiça: homem magro, comprido, desajeitado. Encher lingüiça, ocupar o tempo com banalidades; discurso sem assunto digno de audição; palavrório; chantagem verbal.

Macaxeira: braços alvos e roliços. Perna branca. Na Bahia, anota Hildegardes Vianna, descascar aipim e desnudar perna branca. Aipim é macaxeira. Membro viril. Nas macaxeiras é vida folgada, o rato dentro do queijo.

Minha gente venha ver
A vidinha do preá;
Metido nas macaxeiras,
Comendo sem trabalhar.

Maduro: todo objeto em situação propícia. Bom ensejo. No ponto, “O negócio está maduro e se não aproveitar apodrece”. Idade madura. Maturidade. Já estou maduro para as frutas verdes. Jinjibirra.

Malassada: carne mal-assada, à inglesa, ligeiramente passada. Frigideira ou fritada improvisada. Demi-viergeDonzela de candeeiroquae virgo putatur impudica vero est. Nesse sentido malassada é a donzela fiambre, dos séculos XVII e XVIII, não empregada verbalmente no Brasil na mesma vulgarização da Espanha e Portugal. 

Mamata: rendimentos abundantes sem trabalho; função vantajosa sem esforço; fortuna tranqüila. Mamavero. Marmionda. Melgueira.

Mangaba: É uma mangaba!… Essa expressão exclamativa é aplicada a uma fruta gostosa; a um alimento qualquer de sabor esquisito e agradável; a um objeto que exprima superioridade. Cheirando a mangaba, bêbado.

Mangabinha: namorada ardente, excitadora, provocando luxúria.

Manga-verde: negócio prematuro; aviso ou promessa inoportuna; intromissão indébita. Compromisso incumprível.

Manjuba: é a mesma pititinga, Menidia brasiliensis, a sardinha nacional. Genérico de alimentação, comida, passadio. Manjubar, comer. Intercorrência de manjar. Dinheiro ilícito, lucro vergonhoso; gorjeta; molhar a mão; pepineira, mamata. Pititinga denominada povoação praeira ao norte de Natal.

Manteiga: melindroso, molenga, cheio de dengues, susceptibilidades, agastando-se por tudo. Manteiguinha, namorada derretida.

Marmelada: negócio escuso, tratantada, desonestidade proveitosa. Malandragem.

Melaço: mel-de-furo exportado do Brasil para Portugal onde lhe davam esse nome. Por extensão, o mesmo que garapa. “A festa começou muito bem mas acabou que era um melaço”. Namoro quente. Está num melaço daqueles… Nobreza do melaço, diziam no Rio de Janeiro da aristocracia rural fluminense. Barão-do-mel-de-furo, zombavam em Pernambuco dos senhores de engenho feitos barões do Império.

Meladura: gorjeta. Ganho demasiado. Tirar meladura, aproveitar-se. Comigo ninguém tira meladura. É a quantidade de caldo de cana comportável na caldeira, na fabricação do açúcar.

Melancia: seios volumosos. Mulher gordalhona, pesada, lenta.

Melões: despesas, gastos diários. Preciso arranjar com que comprar os melões.

Mingau: pessoa sem energia, inútil, molenga; covarde, assustada; choro fácil, incontido, sem motivo. Comendo mingau, ajudado pela amante. Mantido sem despesas pessoais. Parasitando.

Molho: de molho, em observação, na espera; sem confiança; em prova.

Moqueca: estar de moqueca, encolhido; arredado. Adoentado. Fora da circulação.

Ova: negativa peremptória. Uma ova! De modo algum! Não e não!

Ovo: coisa repleta, cheia, completa. A sala ficou um ovo. A princesa dona Isabel Maria, regente do Reino, 1826-1828, dizia: Portugal é um ovo, pequenino mas cheio!

Paçoca: misturada, confusão de coisas amarfanhadas. Fitas, rendas, panos revolvidos. Seco na paçoca, destemido, forte, resistente; interior de São Paulo.

Paio: pagador crédulo, bonachão, mão-rota, o coronelPague o paio e bata o bombo!

Pamonha: desprovido de iniciativa, parvalhão, submisso, lerdo, pesadão.

Pamonhice no Maranhão. Escrevendo em outubro de 1835, o português João Loureiro informava do Rio de Janeiro para Lisboa: “Este Império dá cuidado pelo estado convulso do Norte, e Sul, e pelas desarmonias pessoas, e intrigas do centro; mas tudo segue com esperanças no Novo Regente, que não he Pamonha (adivinhe o significado desta palavra) e he homem de mãos limpas, e de Constância”. O Novo Regente era o padre Diogo Feijó.

Panelinha: minoria influente, unida, decisiva, dominadora.

Panqueca: o frito de ovos, manteiga, açúcar e canela, denomina quem viva sossegado, sem cuidados e preocupações. Está na panqueca. “Vadiação regalada, boa vida”, anota Amadeu Amaral.

Papa-angu: homem ridículo, sem compostura, tolo. Papangu era o farricoco, mascarado que afastava à chicote os curiosos atrapalhadores na procissão de Cinzas no Recife, Olinda, e noutras cidades nordestinas. No Recife desapareceu à volta de 1831 mas em Natal veio até depois de 1870. Pessoa grotesca pelas feições ou traje. Houve no Recife, 1846, um jornalzinho com este nome, O Papa-Angu.

Papa-arroz: o natural do Maranhão.

Papa-goiaba: o fluminense, natural da província do Rio de Janeiro.

Papa-jerimum: o natural do Rio Grande do Norte.

Papa-mamão: o natural de Olinda.

Papo: arrogante, ameaçador, mandão. Falar de papo grosso ou de papo cheioGarganta. Falastrão. Está no papo, coisa resolvida, possuída, questão liquidada.

Pão-pão, queijo-queijo: razões últimas e lógicas. Referência ao farnel suficiente para trabalho e jornada em Portugal: Queijo e pão é refeiçãoDe pão e queijo não existe sobejo. Equivalência e satisfação irrecorríveis. Elas por elas.

Pão-com-dois-pedaços: máximo proveito; facilidade absoluta; êxito.

Pão-doido: amalucado; leviano, inconseqüente; recadeiro de políticos e de namorados, sem descanso na tarefa. Pão-doido é o que retiram o miolo para assar.

Pão-dormido: pobre em roda de ricos. Come pão dormido e arrota galinha. Passar altivamente com os próprios recursos. Pão dormido mas não quero o seu peru. O senador Nilo Peçanha dizia ter sido criado com paçoca e pão dormido.

Pão-duro: avarento, cauíra, usurário. Defensor de costumes mortos. Modelo do mau-gosto antigo. Mendigo rico.

Papinha: negócio vantajoso sem muita labuta; namoro farto; recompensa sem merecimento. Estar ou viver nas papinhas, tratado esplendidamente e sem retribuição. Papinha e de colher, fartura e agrado.

Pastel de nata: Conhecer a força dos pastéis de Nata, reconhecer e respeitar o poderio ou prestígio de alguém. Frase colhida no Recife por Pereira da Costa nos primeiros anos do presente século. O caipira paulista, significando castigo sofrer lição pesada, diz: Conhecer o rigor da mandaçaia. A mandaçaia Melipona anthiodes, Lep, é uma abelha produzindo mel delicioso e ferroando dolorosamente.

Pato: o pagante a vítima, crédulo, imbecil, pacóvio. O otário. Pedaço de charque correspondendo à omoplata.

Peixão: mulher bonita, de formas opulentas. Pancadão.

Peixe: Pegar peixe, cochilar. É peixe de fulano, ser o favorito.

Peixe caro: visita rara, ausência nas festas, recusa de convites. Vender o peixe é valorizar a causa própria, argumentando com veemência. vender o peixe caro é apreçar demasiado o merecimento.

Peixe fresco: prostituta nova. Estreante político ou literário. Primeiros namoros. Debutante.

Peixe podre: sem valia, sem significação, desprezível. Refugo, destroço humano.

Peixinho: o preferido, o mimado, o favorito. O mesmo que peixe.

Pepineira: negociata, tramóia venturosa com abundantes resultados. Clima propício para determinada produção. O pepinal, pepinière, deu em França a mesma intenção satírica, de onde, possivelmente, a tivemos. Pândega, patuscada, esbórnia. Pechincha. Compra barata.

Pepino: temperamento, gênio, propensão, tendência. De pequenino é que se torce o pepino. Em França é ter paixão, amor ardente; avoir um pépin pour quelqu’un. Membro viril. 

Peru: assistente impertinente, indesejável, obstinado. Peru calado ganha um cruzado. Aperuar, acompanhar jogo ou acontecimento social sem participação responsável. Namorado, porque sabe fazer roda. Ostentação, pompa incabida, exibicionismo. Apaixonado teimoso na perseguição.

Piaba: pequena quantia, cousa de pouca importância. Na piaba, penúria. Piabando vivendo com recursos limitados. Piabeiro, pescador indolente.

Pinhões: exclamativa de repulsa, protesto, desagrado: Ora, pinhões! Correspondente ao português: E peras! Sabe o que mais? Pinhões!

Pipocas: exclamação de desabafo, ora pipocas! Ora, sebo!

Pirão: genérico de alimentos. Ganhar pros pirões! Vou aos pirões! Mulher. Ao distraído, insistentemente provocado. Dizia-se no Recife de 1924: Pega o pirão, esmorecido!

Pitomba: pancada, pedrada, cocre, tiro, na cabeça. Levou uma pitomba no quengo. Exclamativa: Ora, pitombas! “Pequenos pedaços de carne do Ceará, charque, quase que perdido provindos dos que se cortam por imprestáveis, ou perfazer as pesadas”; Pereira da Costa.

Ponto de bala: não se alude ao projetil de arma de fogo mas simplesmente ao ponto em que a calda do açúcar refinado com essência de fruta, atinja à densidade indispensável para o esfriamento e feitura de balas, bolas, rebuçados, vendidos em cartuchos de papel.

Prato: genérico de alimentação, subsistência. Só ganha pro prato.

Puba: estar na puba, isto é, estar no trinque, estar muito bem vestido e ataviado, informa Amadeu Amaral. Casquilhice, faceirice no trajar, segundo Valdomiro Silveira.

Puxa-puxa: recadeiro, serviçal, fâmulo espontâneo nas intrigas ou correspondências de amor. Leva-e-trás. Namoro, para o caipira paulista.

Queijo: corpo feminino, as partes mais volumosas. Comer queijo é acalcanhar o calçado. Quem come muito queijo fica sem memória. No século XVII, 1665, Dom Francisco Manuel de Melo versejava:

Sempre ouvi por regra aceita
De Galeno que aja glória
Que tira o queijo a memória
A toda gente direita.

Comendo queijo de brisa, curtindo fome. Foi queijo, valeu a pena. Facilidade.

Quitanda: biscoitos, bolo ou qualquer doce de forno, e também saúde, posição social, para o interior de São Paulo.

Rapadura: lamber a rapadura detrás dum pau, esperar indefinidamente pelo inimigo para matá-lo (Nordeste). Entregar a rapadura, desistir de alguma empresa ou plano (São Paulo).

Roer: ter ciúmes. Roedeira, roendo, ciúmes, despeito amoroso.

Rosca: face, mais vulgarmente, o nariz. Disse-lhe as verdades nas roscas da venta. Marido passeando ou dançando com a esposa é pão em rosca.

Sal: graça, espírito, talento. Bom de sal, temperado. Sal e pimenta, cabelo grisalho.

Siri: o rapaz que conduzia o lampião ou facho iluminado a marcha dos figurantes do Bumba-Meu-Boi (Natal, RN).

Sopa: coisa, negócios, conquista amorosa, sem custo e prontamente. É sopa! Foi uma sopa! Sopa no mel, o cúmulo do êxito.

Suco: essência, o principal, o superior, a excelência. É o suco!

Sururu: o saboroso molusco. Mytilus alagoensis, J. Lima ou Mytilus mumdahuensis, E.D., significa barulho, confusão, balbúrdia, alteração da ordem. Há em São Luís do Maranhão em festa de estudantes com essa denominação. Clitóris.

Taioba: nádegas. Negócio inconfessável mas vantajoso. Roendo taioba sem ninguém saber.

Tareco: biscoito de farinha de trigo, ovos, açúcar, de forma discóide, pequenino e duro. Miudezas caseiras, bugigangas e bagatelas domésticas, pequeninos objetos, misturados, confusos. Cacarecos.

Texeré: é a infusão de erva-mate (Ilex paraguaiensis, St.Hil.) n’água fria, sul do Mato Grosso e Paraguai, ao contrário do chimarrão que é feito com água quente, tradicional no Rio Grande do Sul e províncias vizinhas. O tereré não determina o mesmo efeito no plano da convivência que o semi-alimento gaúcho. Daí as frases alusivas: Tereré não resolve, deixe de tereré, isto é tereré, valendo circunlóquio, inutilidade verbal, paliativo. A frase divulgou-se, depois de 1930, por todo o Brasil.

Tomates: testículos. Exclamação: Uns tomates!

Uva: beleza, sabor, suficiente para ser cobiçada; completa. É uma uva! Já era empregada em Portugal no século XVI.

Vinagre: usurários, agiotas, emprestando dinheiro a juros altos, executando as penhoras sem piedade. Vinagrada, vinagreira, ação do vinagre, eram aplicados no mesmo sentido, notadamente no Recife em princípios do século XX onde Pereira da Costa do registrou.

Xaréu: o peixe Caranx hippos no vocabulário nordestino valia mentira, imaginação. Todos afirmavam ter ceado xaréu quando a comida fora outra bem diversa. Comi cação, arrotei xaréu. Ficou o delicioso carangídeo valendo petas e lorotas. Os nascidos na Cidade Alta, em Natal, têm o apelido de xarias, comedores de xaréus. Os da Cidade Baixa, a Ribeira, são os canguleiros, apreciadores do cangulo. Pegou xaréu, mentir.

(Cascudo, Luís da Câmara. “Folclore da alimentação”. Em Revista Brasileira de Folclore, ano 3, nº 7, setembro/dezembro de 1963)

 

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