São curiosíssimas as
superstições populares com relação a defuntos e almas do outro mundo.
O cadáver coloca-se de pés para a rua, e na sua condução para a sepultura vai de pés
para a frente, salvo o dos padres, que têm compostura oposta, em virtude de preceitos
eclesiásticos.
Se o corpo fica mole, é prenúncio certo de vir a alma do morto buscar proximamente
alguém da família, e o mesmo ocorre quando fica de olhos abertos; e para evitar isso
alguém deve fechar, recitando a conhecida fórmula: - F., fecha os olhos para o mundo,
e abre-os para Deus.
Quando um cadáver é dado à sepultura, envolvido, não se tira a agulha que coseu a
fazenda; e para não se ter medo do defunto e não assombrar a gente de casa, beija-se-lhe
a sola do sapato.
Ao passar de um féretro, todos se descobrem respeitosamente, e pedem a Deus que lhe dê o
céu.
As pessoas que conduzem um cadáver ao sair da casa para a sepultura devem também
tomá-lo à entrada do cemitério.
Dedo ou mão de anjinho pagão e um pedaço de corda de enforcado dão felicidades a quem
os possui.
Quando morremos, o espírito se evola imediatamente, mas não vai para o seu destino, o
céu ou o inferno, segundo as suas obras praticadas neste mundo; e, enquanto o cadáver
não baixa à sepultura, permanece junto ao mesmo. Os nossos índios, porém, acreditavam
que o espírito só se apartava do corpo depois do seu completo estado de decomposição;
e enquanto não ia para a lua, lugar destinado à sua morada e descanso eterno, percorria
as florestas, assistia às suas conversas, às suas danças, e era testemunha, enfim, de
todas as suas ações.
Para outras tribos, apesar de originárias todas de um mesmo tronco, o tupi, - a vida
remuneradora dos justos era passada em localidades encantadoras, que se afiguravam no
reverso das montanhas azuis, a serra geral que percorre a vasta extensão da costa austral
do Brasil, e cujas montanhas viam a uma certa distância; mas os espíritos infiéis,
pusilânimes eram proscritos dessa mansão, como anatemizados e votados a misérias e
provações, erravam por desertos estéreis e se acolhiam aos covis das feras.
Segundo a crendice popular, para verificar-se o destino final dos espíritos, é preciso
um julgamento prévio.
O espírito apenas desprendido da matéria, comparece perante o arcanjo São Miguel, e
tomando ele a sua balança, coloca uma concha as obras boas e na outra as obras más, e
profere o seu julgamento em face da superioridade do peso de umas sobre as outras.
Quando absolutamente não se nota o concurso de obras más, o espírito vai imediatamente
para o céu; quando são elas insignificantes, vai purificar-se no purgatório; e quando
não tem em seu favor uma só obra boa sequer, vai irremissivelmente para o inferno, donde
só sairá quando se der o julgamento final, no dia de juízo, seguindo-se então a
ressurreição da carne.
À morte dos justos e bons, que atravessaram a sua passagem por este mundo, sem pecados,
assiste um anjo, invisivelmente, empunhando uma espada flamejante para os defender de
Satanás, que, ainda mesmo nesse extremo momento da vida, comparece junto ao leito para
arrebatar-lhes a alma: e São Pedro, na sua qualidade de porteiro do céu, espera-os nos
seus umbrais para dar-lhes ingresso no Paraíso.
O recém-nascido que não foi amamentado e morre batizado, não participando, portanto, de
coisa alguma deste mundo, é um serafim, anjo da primeira hierarquia celestial, e vai
imediatamente para as suas regiões ocupar um lugar entre os seus iguais; o que recebeu
amamentação e as águas do batismo é simplesmente um anjo, porém antes de entrar no
céu passa pelo purgatório para purificar-se dos vestígios da sua efêmera passagem pela
terra, expelindo o leite com que se amamentou; e o que morre pagão fica eternamente
privado da luz e glórias celestiais, e vai habitar as sombrias regiões do Limbo.
A mulher casada que não teve filhos, quando morre vai vender azeite às portas do
inferno, para alimentar o fogo eterno a que são condenados os maus e os perversos, que
morreram fora da graça de Deus.
O cadáver dos indivíduos que morrem excomungados pela igreja, fica completamente
ressequido, como uma condenação da terra contra os seus pecados, e não consome o nariz
dos que têm por hábito cheirar a comida; ao dos parricidas mirra-se-lhe o braço, cuja
mão praticou o crime; e o dos meninos que dão pancada nas mães, fica com o braço
inteiriçado.
A terra não consome o cadáver dos santos e bem-aventurados; conserva intactos os seus
corpos, e deles desprende-se um aroma suave e agradabílissimo, que transporta a místicos
pensamentos; e picando-se os mesmos, deitam sangue. Do corpo de Santo Antônio, a terra
consumiu tudo menos a língua.
Sobre este particular prodígio, referem as Memórias do Cabido de Olinda, que,
trasladando-se para um carneiro de mármore o corpo do bispo dom Matias de Figueiredo e
Melo, falecido em 1694, encontrou-se sem corrupção alguma, deitando sangue um dedo
casualmente ferido quando se abriu a sua primitiva sepultura; e a quem ainda hoje visita a
velha, mas belíssima catedral olindense, indica-se-lhe em respeito o sepulcro do bispo
santo, como o consagra a veneração popular e o diz o epitáfio inscrito sobre o
monumento.
Frei Francisco de Assunção, religioso franciscano do convento de Sirinhaém, falecido em
1710, foi um homem de santa vida. Pelas suas grandes virtudes, predisse com precisão o
dia da sua morte, e no seu cadáver observou-se admirável prodígio, - "porque, como
refere Jaboatão, ficou tratável e brando, dando estalos os dedos, e os moviam, parecendo
estar vivo na cor, e sem os comuns defeitos da corrução."
Os homens santos caminham suspensos do solo, em altura conveniente, e os seus passos são
tão firmes e seguros como se andassem sobre a própria terra. Desses fatos estão cheias
as nossas legendas religiosas, e o povo os repete com uma inabalável firmeza de crença.
O nosso cronista Jaboatão, escrevendo detalhadamente a vida de frei Cosme de São
Damião, notável franciscano do convento de Olinda, onde professou em 1597, refere que,
sendo ele empregado em sua mocidade, antes de abraçar a vida religiosa, no Engenho Velho,
do Cabo, e entrando em uma ocasião na casa de purgar, o seu proprietário, o velho
fidalgo João Paes Barreto, para falar ao moço Cosme, - "o foi achar a um canto,
posto de joelhos sobre as tábuas dos andaimes em que se assentam as formas de açúcar,
em oração, e não só todo absorto nela, mas levantando no ar bastantemente."
O mesmo escritor, referindo-se ao falecimento de frei Cosme, na Bahia em 1659, consigna um
documento firmado pelos doutores em medicina Antônio Rodrigues e Francisco Vaz Cabral, os
quais, em termos de fé e juramento aos Santos Evangelhos, declaram que - "estando
para ser dado à sepultura o corpo do dito padre, e tocando-lhe o nariz, boca, orelhas,
cabelos e os esmunctórios do seu corpo, não acharam sinal algum de mau cheiro, ou
corrução, o que julgavam ser coisa mais que natural, em razão de serem passadas mais de
vinte e sete horas depois que faleceu, e ser tempo de maior calor (novembro), sendo
acessório a esse acidente, o que faziam as muitas luzes e grande tumulto de gente, de que
sempre o corpo esteve cercado..."
Nos nossos dias, quando se trata do virtuoso padre Arsenio Vuillemain, natural da França,
pertencente à Congregação da Missão, fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo, e
falecido nesta capital no dia 3 de junho de 1899, com 64 anos de idade, refere-se que, por
várias vezes, fora visto ele caminhar suspenso, e assim estar em suas orações.
Sobre esse prodígio observado no padre Vuillemain, particularizamos o seguinte fato, que
nos referiu uma respeitável pessoa, assegurando-nos a sua notoriedade:
"Caminhava ele apressadamente, como costumava, por certa rua desta capital, quando ao
aproximar-se de uma casa, grita para dentro uma criança que estava à janela: - Venham
ver um padre andando suspenso - Vuilleman dirige-se logo para a criança, e com um sorriso
angélico e bondoso bate-lhe carinhosamente nos lábios com a mão dizendo-lhe: - Cala a
boca, minha filha, - e prossegue no seu caminho.
A criança, porém, nédia, viva e de perfeita saúde, adoece imediatamente, sem causa
conhecida, e falece dentro de poucos dias. Era um anjinho predestinado e tocado da graça
divina; o seu lugar não era na terra: foi para o céu."
No lugar de uma estrada em que se pratica um homicídio, coloca-se uma cruz, perante a
qual param os viandantes respeitosamente, descobrem-se e rezam em intenção do morto; e
depois, colhem um ramo verde e deitam-no aos pés da cruz.
As almas do outro mundo aparecem, e falam mesmo, mas com uma voz estranha, anasalada,
horrível, crença esta que é geral entre todos os povos, cultos ou não, e que entre
nós mesmos remonta-se aos próprios indígenas, que apesar do estado de barbaria em que
viviam tinham uma vaga noção do Ente Supremo, a que chamavam Tupã, criam em
gênios bons e maus, e supersticiosos como eram, acreditavam em almas penadas ou
pecadoras, a que na língua geral, ou tupi, dava-se o nome Angatecô, e às almas
do outro mundo o de Angoeira.
Firme o povo nessa crença, implantada desde a sua infância, e mantida por uma corrente
de indestrutível tradição, é passivamente arrastado a crer em todas essas
fantasmagorias; e revelam-se mesmo fatos extraordinários, narrados e afirmados com uma
inabalável convicção, os quais apavoram aos tímidos e enchem as crianças,
principalmente, de terror tal, que adormecem amedrontadas vendo ao vivo, em sua
imaginação frágil, as horripilantes cenas dos fatos descritos nas íntimas palestras de
família.
(COSTA, Pereira da. Folk-lore pernambucano) |
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