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Fevereiro 2001
Ano III - nº 30

BENTO MILAGROSO

O curandeiro que diziam, operava milagres... - Romaria de crentes ao seu sítio, na "linha de Beberibe - Desilusão dos que não obtinham nem melhoras para os seus males...

Muita vez a alcunha supera o nome próprio ou o próprio nome do alcunhado, fazendo-o esquecido de todo, ou em parte. Foi o caso do doutor Maracujá de Gaveta, cujo nome foi absorvido pelo apelido. Muitos pseudônimos também suplantam o nome de quem os usa, como agora, no rádio, ninguém sabe quem é Henrique Forez; mas se falarem em Almirante toda a gente dirá ser "incrível, fantástico, extraordinário" não se conhecer o verdadeiro nome do inteligente, operoso e bem organizado radialista, produtor de tão interessantes programas radiofônicos.

Pelos anos de 1912 ou 1913 apareceu no Recife um homem - um curandeiro - do qual se dizia operar verdadeiras curas milagrosas. Daí lhe darem o apelido de milagroso.

No Brasil, como em outras partes do mundo, surgem, de quando em vez, figuras de pseudo-profetas, criaturas que se dizem "iluminadas", enviadas do Céu, a cumprirem na Terra determinadas missões... E, como "é infinito o número dos tolos", ou dos crédulos, é, também, quase infinito o séquito dos que vão à procura desses predestinados, em busca da felicidade, seja na recuperação da saúde perdida ou seja na volta da paz de espírito que lhes fugiu.

(...) O curandeiro que apareceu no Recife, há uns quarenta anos passados, se chamava Bento, nome, aliás, sugestivo, como de criatura abençoada... Seu reduto era um sítio pitoresco um pouco além de Beberibe, e onde havia uma fonte de água mineral!... Naturalmente ele experimentou em si próprio os efeitos salutares da tal, em doenças do estômago ou do aparelho digestivo em geral, e a deu a beber a alguém que se queixava de estar doente, confirmando, assim, o aforismo que diz: De médio e de louco todos nós temos um pouco...

A afluência de enfermos

Em breve se espalhou pelo Recife a notícia de que, pertinho de Beberibe, havia um homem, seu Bento, que "curava todas as doenças", dando, apenas, aos enfermos um pouco d’água e, o que era ainda melhor - sem cobrar um tostão pelo remédio!...

O grande mestre Miguel Pereira já afirmou certa vez, e com visos de verdade, que "o Brasil é um vasto hospital"... Se o não é de doentes... verdadeiros, certamente é imenso o número de "doentes imaginários", daqueles cuja doença é imaginarem que estão, de fato, doentes e que desandam a comprar e a tomar todos os remédios que os verdadeiros doentes compram e tomam...

Quem passar, a qualquer hora por uma farmácia ou, principalmente, por uma drogaria, onde dizem que os remédios custam menos..., a serem vendidos pelo grande número de empregados ali trabalhando sem descanso, - verá as multidões que se aglomeram em frente aos balcões esperando a vez de serem servidas.

Pois o Bento, de Beberibe, seguia o exemplo do Evangelho que manda "dar de graça o que de graça se recebe"... Sim, ele tinha ali, à mão, a fonte de água mineral, correndo, perene, sem lhe custar coisa alguma, e ele nada cobrava pelo seu trabalho de apanhar a água na garrafinha que o "cliente", ou crente trazia, e entregá-la cheia de "água misteriosa"... Não sei se ele recusaria qualquer espórtula que um ou outro consulente o obrigasse a aceitar a título de lembrança ou... para comprar um charuto...

Um "secretário"

Embora o Bento Milagroso - talvez também analfabeto - não precisasse "escrever" qualquer receita, e se limitasse a "dar" as águas da fonte, era tão grande a afluência de pedintes da água, que ele se viu obrigado a ter um ajudante, a quem deu o pomposo título de... secretário!...

E o secretário do Bento Milagroso, como todos passaram a conhecer seu ativo e diligente ajudante "não tinha mãos a medir"... ou melhor: "não tinha mãos... a pegar" tantas as garrafas que lhe eram apresentadas para que fossem cheias daquela "água santa"!...

Santa Clara

A água era e é, realmente, clara, levemente acidulada, como toda água mineral que se preza e, após a morte do Bento Milagroso, - que, com ela, fazia milagres de cura, tornando-se um dos "tipos populares do Recife" do seu tempo, - alguém, inteligentemente, se propôs a explorar a fonte, dando-lhe o nome de uma santa, e surgiu, no mercado, a água mineral natural de Santa Clara. Sem o querer, estou também fazendo propaganda da água em apreço, propaganda pela qual nada cobro, como o saudoso Bento Milagroso não cobrava também quando a distribuía... de graça.


(WANDERLEY, Eustórgio. Tipos populares do Recife antigo)

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