Fevereiro
2001
Ano III - nº 30 |
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As maravilhosas máquinas e aparelhos de
hoje, brotaram em tempo remoto da inteligência popular, antes mesmo do aparecimento do
alfabeto entre os anônimos do povo.
A complicadíssima usina de açúcar, cuja montagem e funcionamento exigem a perícia de
engenheiros especializados, - essa usina gigantesca provém do moinho de sovaco e da
bolandeira. Com engenhosas forquilhas, cangalhas e jacás sobre o lombo do burro, com
canoas escavadas em troncos de vinhático, o nosso povo deu conta de toda a circulação
das riquezas nacionais e da produção importada, antes do aparecimento dos grandes
caminhões e do transporte aéreo.
O complexo das máquinas das grandes empresas moageiras tem origem nas humildes mós
trituradoras, ainda precedidas no Brasil pelo tosco e pachorrento monjolo.
Essa evolução dos maquinismos pode ser apreciada em suas origens se observarmos os
pequenos meios rurais aonde não chegou ainda a grande indústria e onde a família
conserva a sua importância de grupo econômico como unidade de produção.
O homem do povo primitivo, observando o movimento perpétuo do curso dágua,
compreendeu logo o aproveitamento da energia hidráulica, valiosa, fácil e barata. O
pilão dágua originário da Índia e da China, foi talvez o primeiro passo nesse
aproveitamento.
No primeiro volume de sua História Geral do Brasil (4ª ed.), o visconde de Porto
Seguro refere a sua visita em 1873 à Exposição Universal de Viena, onde viu, na seção
da China, um modelo de monjolo com o nome em caracteres chineses, correspondentes a Chui
toi, que quer dizer pilão dágua. Para o Brasil, foi trazido da Ásia por Brás
Cubas, sendo o primeiro instalado na vila de Todos os Santos, hoje cidade de Santos; e os
índios o chamavam Enguaguassu (pilão grande), pois já usavam o pequeno pilão de
mão.
Rodolfo Dalgado, embora longe das fontes de averiguação, respondeu a uma consulta de J.
Lúcio de Azevedo em uma nota de que transcrevemos apenas estas palavras:
"Monjolo - aparelho hidráulico rudimentar, usado pelos pequenos lavradores para
reduzirem a farinha. O termo, se é peregrino, deve ligar-se ao sânscrito musala,
por via dos prácritos modernos (marata, guizerate, concani, etc.) musal, pilão de
limpar e descascar o arroz, feito de madeira pesada, tendo metro e meio de comprido e
cinco centímetros de diâmetro."
Jornal de Letras (fevereiro de 1951) publica um capítulo inédito do livro de
memórias Rio Abaixo, de E. Roquette Pinto intitulado "O monjolo". Aí
são referidas boas fontes, onde muito se pode ler sobre esse invento popular. Da
monografia então citada, de Jorge Dias, Vê-se que o monjolo, ou munjolo, perdeu o nome
ao adaptar-se em Portugal, mas inspirou tipos variados como o pio de piar os milhos,
espécie de gangorra socadeira movida por pés humanos; e o bate-Pedro, do Minho,
também chamado pisão ou batuco, que é o mesmo monjolo modificado, para
espantar pássaros, batendo sobre uma lata ou qualquer coisa em que faça barulho.
No Brasil, não só foi conservado o primitivo nome de monjolo, como também passou
este a acudir outras designações. A narceja comum, conhecida no interior
espírito-santense por verrumeira, é conhecida em Minas Gerais por munjolinho,
talvez pelo seu movimento característico de baixar o longo bico repetidamente. Diversas
plantas, árvores de grande e pequeno porte, e algumas espécies de arbustos, têm o nome
de monjolo.
"Grandes folhas tripartidas possui o monjolo (Erythrina Corallodendron),
cujas flores escarlates e muito estreitadas formam espigas cimosas que se desenvolvem no
meio do inverno, quando esta pequena árvore está desfolhada." (Decker, Flora
brasileira)
O monjolo, ainda encontrado no hinterland do Espírito Santo, consta, como seu
ancestral asiático de um longo madeiro, mais grosso numa extremidade com uma escavação
em forma de cocho, e na parte inferior da outra a mão de pilão cavada
perpendicularmente, de modo a ir bater no fundo do pilão fixado ao solo. Articula-se
sobre um esteio, com movimentos de gangorra. O cocho na parte menor, mais leve e elevada,
baixa levantando a outra parte com a mão de pilão, mas esta logo cai pesadamente batendo
sobre o fundo do pilão, pois o cocho despejou toda a água na descida.
O cálculo das dimensões do madeiro e do conteúdo do cocho para manter a regularidade
dos movimentos exige uma habilidade admirável nesses homens simples da lavoura.
As diversas partes do monjolo recebem nomes especiais, que variam de um lugar para outro.
Não conseguimos recolhê-los no Espírito Santo, apesar de termos enviado cartas para
diversos municípios, onde o monjolo ainda é visto, ajudando na pilação de café, milho
ou arroz.
Diversos lavradores ainda o conservam em suas terras, já porque o escasso rendimento da
pilação é compensado pela facilidade e gratuidade do trabalho, já porque vejam no
monjolo uma tradição pitoresca e gostem de ouvir ao longe a música do choro
dágua com o ringe-range do madeiro e o bater do pilão.
(FRAGA, Christiano. Em Folclore. Vitória, julho-dezembro de 1951) |
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