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Fevereiro 2001
Ano III - nº 30

O DINHEIRO DO CAJU

Este conto pertence ao volume intitulado Água preta - em que o autor reuniu histórias decorrentes da existência de uma cidade baiana da zona cacaueira.

Levantou-se cedinho. Muito antes do que fazia todos os dias. O coração batucava. Era uma alegria incontida. Afinal, o pai consentira que colhesse os cajus maduros para vender na feira.

A decisão fora tomada no pé da noite, antes de Totonho levar o milho para os porcos, as cabras e as galinhas. O pai chamou-o, olhou-o nos olhos, em silêncio, depois passou-lhe a mão grossa na cabeça, num gesto que mais parecia um desejo de alisar-lhe os cabelos desmanchados para um lado. A velha Raimunda mexia o caldo na cozinha. Mas quando viu o marido chamar o menino, espiou. Seu interesse era tão grande quanto o de Totonho. É que o filho vinha pedindo há tanto tempo... Queria ser homem, botar caju no balaio e ajeitar-se num cantinho da feira, vendendo como os outros. Quando Totonho pedira, a primeira vez, o velho humilhou o bichinho. Que não se enxergava. Homessa! Já se viu! Era ainda um pirralho! Fosse cuidar dos pintos e recolher os ovos. E encerrara o assunto, com a mesma secura, a mesma economia de palavras na boca, quando afastava a velha Raimunda dos pedidos que desaprovava:

- Não tem caju para desperdiçar, não senhor! Fique ajudando sua mãe.

Isso fora na outra safra. Já ia um ano. Conhecendo o pai, engolira o desejo. Cada vez que ia à feira, nos sábados, ajudando a mãe, ou segurando o dedo robusto do pai, sempre espichava os olhos para os que vendiam jaca, abiu, laranja ou caju. Em casa, por dentro da cerca, quando via as tropas sacudindo as cangalhas, no rumo da cidade, sofria. Um sofrimento sem forma, resumido apenas num ponto: vender na feira. Sentia-se responsável. Era bem capaz de trepar nos cajueiros, colher os cajus maduros e vendê-los. "Veja aqui o caju, seu homem." Muitas vezes repetira seu pregão. Havia-se exercitado, junto aos porcos ou diantes dos capões. Seus primeiros fregueses foram as cabras, os bichos de casa. Esperava o pai sair para a roça e subia nos pés de caju, com um pequeno balaio atravessado ao ombro. Colhia dois ou três e ia vendê-los no quintal. "Olha o caju, sinhá dona!" A cabra perguntava o preço. Ele respondia firme: "Três mil réis a fieira." A cabra ia embora sem comprar. Oferecia sua mercadoria ao porco: "Olhe o caju, seu homem." Por fim, ia chupá-los na beira do rio.

Foi assim que esperou a nova safra. Viu pé de laranja ficar amarelo, pé de pitanga carregar. Viu a cabra dar cria, viu galinhas botando pinto debaixo das asas, viu o milho crescer. No inverno, quando a chuva descia puxada de relâmpagos e trovão, via o rio inchar por cima das margens, arrastar tronco de bananeira, levar bicho morto em suas águas. Uma vez legumes chegou a desejar que o pai adoecesse, para substituí-lo na vendagem dos legumes e das frutas. Imaginava-se tangendo o jegue na estrada, com os caçuás entupidos. Imaginava-se vendendo, pegando dinheiro graúdo, voltando para casa como o pai voltava: "Sinhá, a feira hoje foi boa. Gente era muita. Não ficou um talo de couve." Mas o pai era forte. Mais forte que o jegue, pois uma vez vira o velho desatolar o jegue de uma lamaceira. Os braços queimados e longos se enfiaram por debaixo da barriga e retiraram o animal do barro. O bicho lhe pareceu tão leve quanto ele, Totonho, nos ombros do pai, quando o velho o suspendia para subir na jaqueira. Depois se arrependeu do mau pensamento. Sacudiu a cabeça daquela idéia.

Abriu a porta dos fundos, caminhou para o quintal, no rumo dos cajueiros. A manhã ainda estava fria e obscura. Mesmo assim, pôde ver os frutos amarelos e vermelhos. Seu dia chegara. Andou por debaixo dos cajueiros, escolhendo os maiores. A cabra pinoteou para seu lado. Fez que lhe dava de comer e a cabra lambeu-lhe os dedos. Olhou mais uma vez os frutos maduros e voltou para ver o balaio. O pai já estava de pé. A velha Raimunda soprava o fogo, com os olhos ainda pegados de sono. Deu um bocejo longo, depois que o fogo subiu. Reparou que o filho estava de pé e indagou:

- Como espertou uma hora dessa?

Em seguida corrigiu-se. Lembrou que o menino ia à feira. E apontou para onde estava o balaio. O filho retirou primeiro um boca-pio, depois uma cesta e, por fim, o balaio grande. O velho falou:

- Pegue a vara lá fora.

Era a grande ajuda do pai , para colher os cajus. Largou o balaio, disparou para o quintal. O sol já vinha furando o céu. Rompeu o ajuntamento das galinhas, numa carreira doida. Agarrou a vara, embaraçou a ponta nos ramos da pitangueira, foi tolhido em sua pressa. Mas deu uma sacudida e livrou-se.

- Olha a vara, pai.

Cada vez que o velho atingia um caju, para ele aparar, seu coração se desarrumava. Não deixou nenhum se esborrachar no chão. Quando via que não podia parar com as mãos fazia-o com a camisa. O caju era macio, durinho, guardando por dentro da pele lustrosa o caldo doce. O monte já estava alto. Mas o velho não parava, futucando. Totonho dançava debaixo do cajueiro, correndo no rumo da ponta da vara, aqui, ali, acolá, aparando os cajus que vira nascer. Quando a colheita ia escasseando, indicava:

- Aquele, pai.

Depois que terminaram, chegou a vez de juntar as dúzias e amarrá-las. Ambos, pai e filho, acocoraram-se no chão, na tarefa silenciosa. De vez em quando, o velho espichava os olhos para o filho, reparando na agilidade de seus dedos. Não havia botado sentido no menino. Aquele jeito de pegar os cajus, de amarrá-los pela castanha, num movimento harmonioso, sem perda de tempo, era dele. Até mesmo a ajuda dos dentes, para o nó, no remate final, era dele. Nem mesmo a velha Raimunda, que também chegara para ajudar, conhecia a sua maneira de terminar a fieira, aperfeiçoada em anos sucessivos, por ocasião das safras de caju. Eram dois ou três movimentos especiais que constituíam seu segredo, sua arte de juntar cajus e concluir duas fieiras, enquanto outros entregavam uma. Os três ali estavam, trabalhando sem palavras, cada um sabendo o que fazer. Mas só ele e o filho faziam gestos idênticos. Quase ao mesmo tempo largavam a dúzia terminada no balaio. Houve um momento em que as duas mãos, a dele e a do filho, se tocaram na boca do cesto. Onde foi que esse menino andou me vendo, santo Deus - se perguntava o velho. E se admirava cada vez mais com seu Totonho. Chegou a sentir uma espécie de orgulho, de doçura, de mel escorrendo no coração, vendo-o repetindo exatamente seus movimentos. Depois não agüentou, e perguntou:

- Onde aprendeu a amarrar caju, menino?

Totonho levantou os olhos. Encarou o pai. Nesse momento, o velho descobriu um buço no lábio superior do filho. E achou que deveria ter feito a pergunta substituindo menino por meu filho. As mãos de Totonho, que seguravam um caju e uma tira de fibra, ficaram imóveis. Sua resposta foi tímida, quase imperceptível, pois se embaraçara na garganta:

- Aqui, pai.

Quando recomeçou o serviço, já não acertava mais. O velho terminou a última dúzia. E, pela primeira vez, mandou Totonho trazer o jegue, arrumar os caçuás, botar nos mesmos a mercadoria da feira. O sol já estava esquentando. O velho tomou seu café. Ao levantar-se, olhando para fora, disse à Raimunda:

- O menino já cresceu. O jegue bem arreado, os caçuás corretos. Dê café para ele. E veja se tem uma camisa limpa, que a dele tá com nódoa de caju...

No caminho para a feira, de propósito deixou o filho dirigir o jegue. E mais uma vez seu coração engordou, com uma espécie de orgulho. Totonho, com uma varinha na mão, tocava de leve a anca do animal, proferindo as mesmas frases de excitamento:

- Caminha, seu... caminha!

Aquelas velhas palavras caíam nos seus ouvidos atentos, ele seguia os movimentos do filho, que cumpria sua tarefa com uma convicção de homem. Seus passos eram firmes, a voz segura, o fustigar da varinha na medida, sem nenhum maltrato para o animal. E o caminho da feira sem mistérios: Totonho entrava pelos cortes, economizando a caminhada, como se toda a vida tivesse feito aquela estrada. O velho marchava em silêncio, apenas notando os acertos do filho. Perto do mata-burro, não precisou esclarecer: o filho - Santo Deus! - sem vacilar despachou o jegue pelo desvio. É verdade que todo sábado o animal seguia para a feira. Mas ele conhecia seu jegue, e tinha certeza que não era de hábitos, de rotina. Era até um animal teimoso, obstinado, de vontades duras. Mas vinha obedecendo ao filho sem esquivança.

Quando as primeiras casas da cidade foram passadas, não tinha mais dúvidas: o filho era um homem. E era capaz de cumprir seu desejo antigo de ir à feira, tomar conta do seu negócio, sem desastre.

Tirou o chapéu, abanou o rosto. O sol estava ardendo. Sentiu-se um pouco enfraquecido, um cansaço nas pernas. Seria o sol, a causa daquela fraqueza? - perguntou-se. Não. Não era o sol. Era o filho, o filho que se distanciara na frente, tangendo orgulhoso o seu pequeno jegue. Ficara gente, crescera, já tinha penugem, musculatura para escorar o sustento da velha Raimunda, se ele baqueasse, como agora estava baqueado, na sua velha obrigação. O filho, quase a perder de vista, marcara bem a distância que os separava. Pensou na roça, no seu pedaço de terra bem plantado. Pensou na criação e imaginou o filho cuidando de tudo: dando milho aos animais, remendando a cerca dos porcos, trazendo água da cacimba, dando de bebar à terra no seu tempo. Abanou mais uma vez o rosto. O suor escorria como nunca. Deu um grito para o filho:

- Totonho!

O filho parou o animal, olhou para trás e voltou. Falou primeiro:

- Olhe: se não vender tudo, não faz mal. Pode ir sozinho.

Totonho sentiu coisas por dentro. Uma vontade de abraçar o pai, de dizer-lhe que não se importasse com nada. Mas só disse duas palavras:

- Sim, pai.

O velho relembrou o trabalho da manhã, os gestos do filho repetindo seu saber, a agilidade de suas mãos. Olhou-o bem, reparou mais uma vez no risco tênue do lábio. E depois de dar uma palmada na anca do jegue, falou:

- O dinheiro do caju é seu, meu filho...


[1958]

(MEDAUAR, Jorge. Em RIEDEL, Diaulas (org.) Coqueirais e chapadões; Sergipe e Bahia. São Paulo, Editora Cultrix, sd. Histórias e paisagens do Brasil)

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