Fevereiro
2001
Ano III - nº 30 |
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A PSICOLOGIA DOS
LETREIROS |
Uma das manifestações de folclore mais
interessantes a estudar é a dos letreiros das casas comerciais. Eles exprimem, não
somente gostos, aspirações, sentimentos e educação do seu proprietário, como,
também, as inclinações do povo e as influências que o tangem. Às vezes, mesmo,
perpetuam fatos.
Já tenho feito, por desfastio, observações de letreiros, topando cousas interessantes.
No Ceará, por exemplo, há títulos de lojas; ou de vendas, curiosíssimos, e que dão
amostra do espírito do povo, ou de tradições conservadoras. Perto do Matadouro de
Fortaleza, uma taverna apelidada Viva o resplendor da corveta Liberal!, guardava a
recordação da visita desse esquecido barco da nossa antiga marinha àquelas paragens. A
loja O Farol da Bastilha, na rua Formosa, fora havia tempos, fundada por um
francês.
A alguns letreiros acompanhavam, nas paredes, pinturas infantis, em cores berrantes. Para
os lados do Alagadiço, numa casa baixinha, uma torre amarela em fundo verde, o crescente
lunar, branco, surgindo por trás, e o título pomposo: A Torre da Lua. Para os
lados do Outeiro, monstruosa onça-pintada, tomando todo um oitão, com o seu colorido,
espetaculoso, e o dístico A Casa da Onça.
Outros letreiros cearenses, ou, melhor, fortalexienses, demonstram o espírito garoto da
gente do local: O Diabo a Quatro, na praça dos Voluntários; Os Quatro Diabos,
no parque da Liberdade; O Canto da Brisa, por trás da Santa Casa, do Necrotério e
da Cadeia, em lugar fresco; O Caminho da Verdade, perto do cemitério; O Sol
Nasce Para Todos, no Mercado; Fiado? Nem a meu pai!, na rua do Chafariz...
Em plena serra de Baturité, encontrei uma feita uma loja entitulada A Rosa dos Alpes,
e, na cidade de Baturité, ao pé da mesma serra, uma venda com este espantoso cabeçalho:
Venham Ver a Bobagem do Zé Teotônio na Ponte do Melo. Entrei nessa casa e li à
parede esta quadra popular:
Quem vende fiado
Perde o freguês
Fica logrado
No fim do mês
Por todo o mundo - e não só no meu Ceará - a arraia miúda se compraz com os títulos
estrambóticos, filauciosos, ou cheios de espírito, das pequenas casas de comércio. A
leitura dos livros europeus nos dá milhares de nomes impagáveis de tascas e de ruas.
Paris, cérebro do mundo e do coração da humanidade, tem ainda hoje a rua do Chat Qui
Pêche e o restaurante do Chien Qui fume...
Em Santos, vi um dia, na praia do José Menino, pintado numa fachada, um barril com três
cruzes no tampo e isto: O Calvário da Boa Pinga. Esse botequim é irmão de um da
rua Dom Manuel, no Rio de Janeiro, que vai desaparecer agora, por causa do plano
modificador, em cuja frontaria pintaram uma pipa falando: "Vem freguês, meu
amor, espero apaixonada por ti! Vem, meu anjo!"
Em São Paulo, vi, certa vez, à porta de uma casa de pasto, uma enorme tabuleta com estes
dizeres: "Restaurante Elétrico, Sistema Marconi". E o seu proprietário
explicava: "Elétrico", porque os acepipes são feitos, aqui, com pasmosa
rapidez; "Sistema Marconi", porque aqui não há fio, isto é, o
pagamento é à boca do cofre...
Na cidade de Caçapava, defronte da estação da Central, há tempos, um turco fizera
escrever estas palavras no frontão da loja: "A música dos beijos". Na mesma
posição, em Maxambomba, ou Nova Iguaçu, existia o Centro Lotérico e Literário,
onde se vendiam bilhetes de loteria, revistas e jornais...
E contam numa pequena cidade do interior do Ceará, de um ignorantíssimo negociante que
mandou pôr à porta da sua loja, de leques para senhoras e de artefatos de seda, o
aforisma latino: "Dura lex, sed lex", que aos seus fregueses traduzia assim:
"Duram leques e seda dos leques".
Mas, o record dos letreiros estapafúrdios coube a um comerciante de Petrópolis,
vendedor de batatas, feijões e cebolas, que fez escrever tudo isto na parede do seu
armazém, na avenida Cruzeiro:
Termomêtro Mercatório
Grande Empório de Vitualhas
Tubérculos Solâneos
Féculas Euforbiáceas
Bulbos Asfodeleos
Meses após, a casa faliu, por falta de freguesia...
(BARROSO, Gustavo. O sertão e o mundo) |
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