Fevereiro
2001
Ano III - nº 30 |
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Vou-lhe contá um causo sucedido.
O causo é o seguinte e o seguinte é este:
Vivia noutros tempos no sertão um casal, cujo casal vivia tão bem, que nem Deus
cos anjo. Causava inveja a todo mundo de arruparado que andava. Vai, sinão condo,
pareceo em casa uma rataria, que era rato pru castigo, rato prus riba do tempo, que não
houveras mãos a medi.
Roupas, comestive... tudo destroçado, inté os donos da casa jandava cos pé
roído e sem podê achá um remédio pra simiantes praga em tembos de ficá, marido e
muié, tudo paiêta, ambos los dois. Um dia pariceu na dita cuja casa um gatim preto,
muito gordo, muito esperto, e começou logo a fazê muitas proeza, matano e fugentano os
ratos. Ora, marido e muié ficaro num contentamento có gatim que não tirava ele da mão,
alisando: meu gatim práqui, meu gatim prácolá. Era mêmo cumo um fio, tanto o amô cá
da estimação. A casa, que andava numa tribusana, numa trevoada de malassombrada, estava
sossegada.
Um dia o marido fêis uma viage e a premêra recomendação prá muié é o gatim. Assim
quele saiu, o gatim desapareceu. A muié coge ficou doida. Percurou o gatim por toda
parte, remexeu pru todo los canto, inté plos vizim, e gatim de minhalma. Dias ô
dispois, chega o marido e a premêra coisa que progunta é o gatim. Coutou-lhe a muié o
causo sucedido. Ela inda falava, e foi conde sinão conde, saiu o bichim de dentro do
quarto de drumi, e miano piadoso, veio ocrreno topá co senhô, que, logo sentido,
ficou muito aborrecido, veno o pobrezim esquileto de magro, de fome que stava có
colete apertado.
- Oras sta seos cóidado; muié! disse o marido. Tudo isso é pruqe saí de casa e você
não fêis causo dele.
- Eu aprovo ca vizinhança toda, marido, em cumas ele não se achou em parte alguma.
Andei de codío atrais dele.
- Apois bem! Stá veno onandava nosso gatim? Não me caia noutra condeu
viajá. Quem tem um bichim assim, né pra se tratá tão male. E desta vêis se passou-se.
Gatim continuou nas proeza e foi cresceno a cada dia engordano mais. O dono da casa que
era muito resmelengue, mais muito trabucadô da vida e muito piritmo nas trabulança, teve
que girá noutra viage daí a tempos, e novas recomendação à muié. Cumo da premêra
vêis assim conteceu da segunda, logo que o homem chegô: mas porém, desta foi um bababá
dos meos pecado, que coge ca muié apanha no séro.
Acode, acode, aquéta, tei mão!... sempre os vizim apalacáro o baruio. Jaí as coisa
anda azeda: um rem-rem-rem hoje, um zum-zum-zum amenhã, um dirê-eu, que virou um
cataçá duma intriga dos diabo.
Nova nicicidade doutra viage e nova recomendação e logo có principosto de, se
não achasse o gatim cumele deixava ela le pagaria muito caro.
Ora, se bem disse, mió saiu. Gatim caiu no mato, virou tirira, logo que o home saiu. A
muié, coitadinha, virou, remexeo, fêiz premessa a conto santo houve, escogitou por conto
boraco das redondeza e vizim, responsou SantAntonho, percurou, indagou, revirou... e
nada. Chega o marido e lá de longe foi logo, antes de sodá a muié, progutano por aqui.
- Cadêl-o, meu gatim, muié?
- Nosso gatim, meu marido...
Não acabou de falá, que o gatim, saino de den de casa, coge de rasto, foi miano piadoso
senroscá entre as perna do seu sinhô, que acabava de sapiá. Stava coge
espirano de magro e de miséra. Antonce, o home não contou fiado não! Meteu-lhe o
chicote que trazia na muié, deo-lhe pancadas de cego, fêiz artes de cabeça, quebrou-lhe
um braço, abriu brechas na cabeça e espancou a coitadinha promode a bestage do gatim.
Passou-se. Dias ô dispois do baruio, o home arrependeu-se de tê prucedido assim, e
envergonhado, sapaxonou... ele que vivêra tão bem có sua muié! Inventou por isso
mêmo, outra viage; mas, desta feita, com tenção de nunca mais botá pé em casa.
Arrumou o saco e meteu cara na mundaça adoidamentes. Ora bens!
Nesse dia, viajou ele sem pará, de banzativo que andou, chegando muito tarde da noite
debáxo de um pé de páo ramaiudo, que não teve tempo de vê quis páo era uma bonita
gameleira. Encostou o saco nas raiz, e cansado, ali se ficou inté muito tarde; e sem sono
se mardisse consigo da sua inigligente sorte.
Que conde sinão conde, repetino chegou aquela coisa, cumo um pato: vão! vão! vão!...
xuá! em ribas na copa da gameleira, e quetou. Daí mais a pouco outra, daí mais outra e
outros mais.
E começaro a conversá muito baixinho, de sorte que o home não entendia bem o que era,
nem vê o que se passava, pruvia da escuridão. Aqui o camim fazia uma encruziada, e viu
ele antonce que aquilo era a odiença do capeta. Que cum poucas chegou mais um cum
baruião. Era o maiorá. Stavam esperano por ele. E ferraro logo na conversação que se
uvia:
- Que fizeste hoje?
- Eu atentei hoje um fio ca mãe.
- Ora, isté nada. São pecado que o home perdoa; nada fizeste; e você?
- Eu arranjei uma briga, onde houve muito tiro e muita faca-fóra, cabeça rachada e muito
sangue.
- Sempre serviu, mas porém, não são coisa de muita importança. Sempre o home perdoa. E
você?
- Eu stou arrumano uma quenga entre dois irimão, mas, ainda não acabei.
- Muito bem! continue. E você?
- Eu arrumei sempre uma calunha entre dois compadre có duas comadre e um fio que ficou
muito espraguejado, pruquê bateu no pai.
- Esta foi bem boa; mas são coisa... e o homem inda perdoa. E você?
- Eu estou atentando um resadô cuma resadêra, in bens cumo um moço cuma
moça que já stá pra caí... fugino.
- Bem! bem! continua. E você?
- Eu stou trabaiano cuma usurave que já robou metade duma fortuna.
- Ah! sim, bem feito! bem feito! Sempre o home custa a perdoá. E você?
- Eu stou cadijuvano um jogo cumas bebedeira qué de nos trazê muito lucro.
- Muito bens! Trabaia, inséste mais inte o fim. E você?
- Eu sempre arranjei um que solicidou pru suas mão.
- Oh! Um caçadão! E você?
- Um hoje me vendeu-me a arma dele e me passou-me o arrecibo, escrivido có sangue dele,
pramode ganhá uma demanda e pulá numa boa fortuna.
- Muito bem! Merece um plemo. E você?
Eu fis dois sesfaquiá e se matá numa briga pramode uma herança, e o que ficou cum
herdeiro era outro.
- Bens! Você é de tê um plemo. E você?
- Eu stou agarrado cum freguêis que stá comeno orfo em vida cuma viúva.
- Muito estimo. Isté uma maravia. E você?
- Eu virei um home casado e stou reduzino outro que está coge virado, de encansinado que
stá.
- Forgo muinto da nutiça. E você?
- Eu arrumei uma rua de muié que são nossa e que nos stão dano muita gente boa.
- São gente resmelengue: conde qué, qué mêmo. Muito bens; e você?
- Eu tão somente arrumei um que se casou duas vêiz. As muié são viva.
- Ah! essa são nojento. Já seio. Vôr mandá apariá a cama deles. Em todo causo, muito
que bens! E você?
- Eu fiz um juiz dá hoje uma sentença injusta. Ilai muita castionação. O baruio é
grosso, morre gente!
- Berabo! São dos que o home tem ódio. Bens! E você?
- Eu, coge nada. Hai muitos ano queu ando de premenentes na rabada de um casá, que
seguno se fala na língua deles por lá, vivia cumo os anjo no paraiz...
- Deixemo lá disso. Issaqui não se fala. Negoços de paraiz é pra lá cum eles; mas,
bano...
- O negoço stava difirço e eu já stava dexano eles de partes, condo aconteceu a casa se
enchê de rataiada. Eu, pan! pruveitei e virei um gatim e acabei cós rato e me tornei-me
um gatim destimação.
O home qué muito giradô, conde saía de casa, logo mil recomendação fazia à muié.
Eu, antonce, se me sumia e só parecia condo ele chegava de viage. Daí começou um
desaprecate entre ambos los dois, o marido sempre jurano a muié. A principe eu era gordo,
mais todas las vêis que ele chegava me achava tocano nas espinha. Na derradeira viage eu
fiquei e pareci tão magro,quassim quele foi me vendo-me, rompeu logo
coela, deu-lhe muitos tabefe e chicotada e cum páo socou-lhe muitas porretada,
quebrou-le um braço, rachou-le a cabeça, arrumou a trôxa e ganhou os páo na mudança,
largou-le pruma vêis.
- Que debedabo! Berabo! muito bens! muito bens! brabo! brabo! Ora viva! Isté
qué diligença e sabê fazê as coisa. Terá um grande plemo conde acabá có
serviço.
Aqui o galo cantou: cacariocô!
- Escuta! disse o maiorá. Quis galo é esse qui cantou?
- É o galo pedrez!
- Cacariocô!
- Quis galo é aquele?
- É o galo china.
- Cacariocô!
- Este?
- É o galo musgo.
- Cacariocô!
- Esse outro?
- É o galo preto das canela amarela e a crista da serra.
- Está cabada a odiença. Alavanta a cumilidade! Houve antonce um tendepá de conversa e
cada um foi saino: vão! vão! vão! vão!... cumo tinha chegado. Nisso o home que stava
debáxo da gameleira tinha óvido tudo.
- Acão! seu méco! Ah! é assim, eim? Stá bom!...
E arrumou outra vêis a troxa e cortou pra casa, onde chegou de menhãs hora
dalmoço brabo.
A muié, logo que o vio ficou muito indimirada e foi logo arrecebê ele coa mão na
tipóia; mais porém, adiente dela correu o gatim miano muito, mas piadoso do que das
outra vêis.
o homem apanhou ele, alisou ele e botou, ô dispois, no chão; mais porém, o gatim
inrestou co ele, miano... miano... enroscano po las perna dele.
- Muié, ocê já deu de comê a nosso gatim? progontou ele ca cara muito
enfarruscada e percurano já um páo.
- Não! home. Já le tenho dito muitas vêis que ele se some, logo que você sae.
- Se some! eim? Apois, eu te torno amostrá e é já.
A muié veno o perigo, correu chorano; e ele apanhano um bom porrete, desandou com ança,
mas porém, na cabeça do gatim, que deu aquele estouro que fedeu enxofre pru treis dias.
O dispois, foi ele, antonce, contá a muié o causo sucedido da gameleira da encrusiada.
Daquela data em diante foi ele vivê bem com sua muié, como dantes era.
(AMBRÓSIO, Manuel. Brasil
interior) |
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