Fevereiro
2001
Ano III - nº 30 |
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O PRIMEIRO
MILAGRE DE NOSSA SENHORA DA LUZ DOS PINHAIS |
Conta uma linda lenda provinda dos
primeiros povoadores dos Campos de Curitiba, que a primeira capela erigida à Nossa
Senhora da Luz teve assento à margem do rio Atuba, no vilarinho dos Cortes, acampamento
de sertanistas caçadores de ouro.
Com o andar do tempo, notaram os vilarengos do Atuba que a efígie de Nossa Senhora,
entronizada na sua tosca capelinha de sapé por aqueles rudes penetradores do sertão,
tinha o olhar voltado para os campos que daquele sítio decorriam para o poente, aos quais
os tupis chamavam Curitiba (Pinhais).
Essa região, porém, era então dominada pelos caingangues, índios ciosos, dos frutos,
de que se alimentavam, dos bosques de fuong (pinheiro) que faziam a terra pitoresca
e farta.
Mas Nossa Senhora insistia em mirá-la. Todas as manhãs aparecia com os olhos luminosos
voltados para ela.
E tal foi a insistência que os destemerosos sertanejos do Atuba resolveram sondar a
possibilidade da conquista do sítio indicado pela sua inspiradora padroeira. Com os seus
aprestos darmas, acrescidos de numerosos arcos de guerreiros tupis, desceram os
atubanos a coxilha do Bairro Alto, penetraram os pinheirais do Aú, do Bacaxeri e do
Juvevê, e surgiram na esplanada dominada pelos longos toldos dos bárbaros caingangues,
prontos para a esperada peleja.
* * *
Nossa Senhora, no alto do Atuba, sorriu.
Em vez da luta prevista como certa, o que ocorreu foi a acolhida generosa e cordial. Do
chefe índio para o chefe branco não partiu a flecha da hostilidade, mas o aceno da paz
neste chamado acolhedor: - Ha kantin! (Vinde!).
E a cordialidade os recebeu com as suas manifestações de expansão primitiva. Os arcos
caingangues foram lançados ao chão em sinal de paz. A rumbiá, da congonha (cuia de
mate), símbolo da hospitalidade, foi oferecida ao chefe dos caingangues. E rodou, depois,
por todo o círculo de guerreiros brancos.
* * *
A Virgem, na sua capela de palha, ainda uma vez sorriu. Dela fora o milagre da paz e da
cordialidade e ia ser também o da conquista daqueles lindos sítios dos pinhais.
A ookire (buzina) clarinou no bordo de um capão e ecoou na coxilha e afundou na
floresta.
De toda parte acudiram índios que se acercaram do on buonghvê (o maioral, o que
vê mais que todos).
Então Arakxó (gralha branca), ancestral da dinastia dos arakxós que tiveram o mando da
nação, revestido do manto branco de uso entre os guerreiros da sua raça e enfeitado com
o cocar multicor de sua suprema autoridade, com o bastão inseparável dos caingangues
marcou o local que os brancos deveriam tomar por centro da povoação que fundassem. E
fincando o bastão na terra gramada como se fora um ondeante tapete verde, cor da
esperança, disse com solenidade: - Tá! Tati kéva (Aqui! Aqui é o lugar).
Diz ainda a lenda que, ao fincá-la no solo, o chefe índio voltou-se para a sua gente e
ordenou: - Kuri tin! (Prontos para a marcha!). E em seguida comandou: - Muna!
(Vamos!). Todos os caingangues se movimentaram, lentamente, rumo das florestas do
ocidente, abandonando aos brancos, com liberalidade e altivez, o campo dos seus
arranchamentos e dos seus domínios.
* * *
E Nossa Senhora, na sua capela de sapê, sorriu pela terceira vez.
(MARTINS, Romário, Paiquerê, p. 88-90. Em ARAÚJO, Alceu Maynard; TABORDA, Vasco José
(org.). Estórias e lendas de São Paulo, Paraná e Santa Catarina) |
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