Fevereiro
2001
Ano III - nº 30 |
|
Conversavam em nossa casa em 1900:
- Mas é incrível como permitiam aquilo. A gente passava um mês ou dois fazendo
laranjinhas de cera em forminhas. Enchia dágua perfumada e esperava na janela os
conhecidos que passavam.
As pessoas vinham suadas, não sei como não havia pneumonias.
- Isso não é nada. Quando as laranjinhas acabavam, iam-se buscar copos dágua.
Depois, regadores. Depois, regadores. Depois baldes dágua. Depois dava aquela
loucura, os rapazes saíam pela rua e pegavam qualquer que passasse, traziam-no à força
e o jogavam dentro de uma tina ou tanque cheio de água. Não sei como não saíam brigas
horrorosas.
- Às vezes saíam. Foi bom que a polícia proibisse. Proibidas também as laranjinhas,
só ficaram as bisnagas. Afinal, uma bisnaga feita em chumbo esguicha um borrifo de água,
que não faz mal.
- Você já viu o lança-perfume? É uma bisnaga nova, de vidro, que não precisa
espremer. Basta comprimir a mola, que o éter jorra e seca imediatamente.
- Lembra dos mascarados vestidos de morcego? E os de esqueleto?
Eu me lembrava. O morcego era todo preto, tinha máscara focinhuda e um pano preto de cada
lado, que ligava cada pé a cada mão. Sacudia os braços para "voar" e eu
morria de medo!
O esqueleto também metia medo. Vestia de preto, aderente ao corpo. Usava máscara de
caveira. Trazia traçados em branco os ossos.
Quando, com cinco anos, eu olhava, ele avançava.
Não sei como não fiquei cheio de terrores e superstições.
* * *
1910. Eu vinha rompendo a custo a multidão, quando cheguei à praça Antônio Prado.
Havia uma roda grande de gente, afluindo e refluindo em torno de um espaço vazio, no
centro do qual estava um homem a cavalo. Cavalo de cabeça de papelão com o corpo armado
em talas, e saiote, como na Idade Média.
A multidão afluía e refluía, conforme o cavalo caracolava e saltava. O cavalo era
"bravíssimo" andava de lado, avançava para a multidão, que refluía e depois
avançava gritando: Ooooô!, entre risadas. O cavalo galopava em roda, caracolava.
A polícia não gostou. Vieram dois guardas. O povo fez Ooooô! para os guardas.
Prenderam o homem. Não havia carro de presos. Era preciso ir a pé. Ele perguntou se
podia ir montado. Não podia. Teve que apear. O povo fez Ooooô! Ooooô!
O homem despiu-se do cavalo como quem despe saia. Foi levado pelos guardas, descendo a
ladeira de São João, com o cavalo em baixo do braço, de cabeça alta, o homem de
cabeça baixa, e o povo atrás. Entraram pela rua do Seminário.
* * *
Vinha um grupo de índios "caiapós" abrindo caminho. Paravam e formavam roda.
Cobria-lhes o corpo uma espécie de maiô pardo fechado até o pescoço, punhos e
tornozelos. Era o "corpo bronzeado" dos índios. No pescoço, colares de
bugigangas. Nas cadeiras, nas canelas e nos punhos, penas de espanador. Na cabeça, um
cocar de penas de espanador. As faces tinham riscos vermelhos.
Metade do grupo trazia instrumentos rudimentares: nós de bambu gigante que serviam de
caixa de ressonância, taquarinas de várias grossuras que, sopradas, davam notas
musicais; e cabaças para sacudir, cheia de pedrinhas.
A outra metade do grupo estava armada de arcos e flechas. Os da música começaram a
tocar, batucando os pés. Os das flechas faziam danças guerreiras. O batuque aumentava, a
multidão batucava e o som propagava-se ao longe.
Os curiosos de trás, que não podiam ver, faziam pressão sobre os da frente. A pressão
aumentava, os da frente reagiam, saía rolo, gritava-se "fecha, fecha",
havia gente machucada, os caiapós iam para diante.
* * *
Lá vem vindo um Zé Pereira no meio da multidão. São quatro ou cinco homens pobremente
fantasiados, com calça e casaco de fazenda barata, de várias cores, e chapéus caipiras
com desenhos mal feitos.
O rosto é pintado a vermelho e as sobrancelhas e bigodes são reforçados com rolha de
cortiça queimada. Um deles traz bumbo.
Todos gritam: "Zé Pereira!" Zabumba o homem do bumbo. "Zé Pereira",
bum, bum, bum. E os homens dão saltos.
"Zé Pereira", bum, bum, bum. E os homens dão saltos. "Zé Pereira!"
E seguem seu destino.
* * *
Precedia o préstito, fantasiado a caráter o corpo de clarins da cavalaria da Força
Pública, que tocava, de instante a instante, a clarinada clássica do carnaval.
Em seguida, de casaca, montado num cavalo branco, o presidente do clube carnavalesco,
acompanhado da guarda de honra também a cavalo, em trajes medievais.
Seguia-se o primeiro carro alegórico iluminado com fogos de bengala, de que caíam
lágrimas luminosas. Às vezes incendiavam o imenso mar de serpentina, que era o chão das
ruas. Então os bombeiros, ladeando cada carro, precipitavam-se de botas, pisando nas
serpentinas acesas. Se fosse preciso mais socorro, vinha ao fim do préstito um
carro-tanque munido de mangueiras.
Outro carro alegórico: uma linda feniana vestida de nua, em malha cor-de-rosa, com
refolhos de gaze, sorria entre falhas de dentes.
Um carro de crítica sobre algum acontecimento recente, e um carro de apoteose à
República.
(AMERICANO, Jorge. São Paulo naquele tempo) |
|