Fevereiro
2001
Ano III - nº 30 |
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A orquestra com a sua toada conhecida
aproximava-se. Ouvia-se já distintamente a cantiga dos foliões:
O morcego bateu asas
Mas não pode avoá...
Quem não tem prazer na vida
Não diverte o carnavá
Era o primeiro bando de mascarados a passar no domingo lá por nossa casa.
Eu, que os esperava desde o amanhecer, ficava feito barata tonta. E o rebuliço na rua
tomava ares de loucura epidêmica. Abriam-se de golpe as janelas de toda a vizinhança.
Corriam ao portão os modestos moradores de um cortiço de defronte.A meninada gritava.
Enchiam-se as esquinas de gente à fresca.
- São os morcegos!
- Venham ver depressa!
- Corra Melinha!
D. Neném... Chica!... Vocês perdem... Eh! vêm os cabeças-grandes!
Acorriam todos. Patrões e criadas. Brancos e negros. Até minha vó, eternamente
resmungando contra os máscaras, contra esses "três dias de juízo", largava
disfarçadamente os filhós que fritava com gabada perícia, e arriscava uma olhadela de
beiço torcido para a troça que passava num estardalhaço de orquestra e de cantos.
Somente meu avô, vivendo imerso nas trevas de uma catarata, não se mexia da sua
cadeira-preguiçosa e continuava a fumar o cachimbo, ouvindo a música, sabe Deus com que
saudades da mocidade e da visão. Na imensa alegria, na inegável ventura de minha
infância seria esse talvez o único instante de compreender o horror da cegueira: a
impossibilidade de apreciar o carnaval.
Nesses "três dias de juízo" eu não saía da janela, com a minha paciente e
meiga sinhá Aninha, ao lado, protegendo-me e animando-se. Porque o meu entusiasmo pelo
deus Momo se misturava a um temor pronunciado pelos mascarados. Gostava doidamente de
vê-los, porém tinha medo deles.
Mascarados! Que importância eles assumiam perante meu espírito de criança! Tomava-os na
imaginação infantil como seres reais que apareciam nas manhãs de domingo da
qüinquagésima e se sumiam nas tardes de quarta-feira de Cinzas misteriosamente. Para mim
eles eram eternamente assim, burlescos, guisalhantes, coloridos, engraçados. Não
imaginava sequer que continuassem a viver, sim, junto a nós, mas com seus trajes
habituais, com suas maneiras comuns e com as suas próprias máscaras. Somente depois,
muito depois, vim a saber disso... Quantas vezes no meio do ano, interrompendo um
brinquedo, indagava de mim mesmo: "Onde estará aquele dominó azul que boliu comigo
na rua do Hospício?" ou "Em que casa morará o cabeça-grande que fez medo a
minha prima Gina?" Que satisfação seria a minha se ele me aparecesse de repente,
como uma alma de outro mundo, sem ser dia de carnaval?
Passavam morcegos. De cetim preto, lantejoulas, fazendo piruetas, abrindo e cerrando asas,
cantando ainda:
O morcego bateu asas
Mas não pode avoá...
Depois, eram pierrôs de babadinhos e canudos, diabinhos dando com os rabos nos moleques,
os princípes de trajes vistosos e cabeleiras brancas, os caveiras com as costelas à
mostra, os professores de palmatória na mão e máscaras de burros, os dominós de
veludo, as fronhas nas cabeças e saias de baixo penduradas aos pescoços, os bobos de
fraques com botões de bolachas... Em bandos, em bandos... Passavam os caboclinhos com as
suas penas, os seus arcos, a sua toada... Tantos que não se podia dar conta de todos.
Castanholas, guizos, falsetes, gaitas, reco-recos. Carrerias e gritos:
- Você me conhece?
- Ai... ai... ai...
- Mascarado! Mascarado!
Lá em nossa casa, desde umas semanas antes, picava-se papel. Vinham das lojas folhas e
mais folhas de papel de seda verde, azul, encarnado, amarelo, roxo, róseo. E, diante de
meus olhos em festa pelos anúncios de Momo, trabalhavam as tesouras de minha Dindinha, de
minhas tias Iaiá e Neném, de minha mãe, de sinhá Aninha, de Chica... Às vezes eu me
metia a ajudante, mas o insucesso era fatal: saía cada graudão de meter medo. A
habilidade consistia justamente em transformar o papel quase num pó que era para judiar
com os outros. Dava uma coceira de corpo abaixo, do cristão ir tomar banho e mudar a
roupa.
Enchiam-se caixas de sapato, cada uma de sua cor. E minha avó relembrava o tempo de moça
em que, em vez de se picar papel, fabricavam-se limas-de-cheiro. Reunia-se a família
inteira nos antigos solares. As senhoras e sinhazinhas sentadas nas marquesas de
jacarandá; as escravas pelo chão em esteiras de pipiri. Acendiam fogareiros, derretia-se
em latinhas a cera, a terebintina e a tinta. Depois em formas de madeiras ou gesso
moldavam-se as duas bandas da lima e, após enchê-las de água-flórida ou de colônia,
soldavam-nas. Eram os projéteis carnavalescos da época. Atirados contra o inimigo,
estouravam por percussão e molhavam a pessoa toda. Quando não eram as limas, era o banho
dentro de uma gamela, de uma tina, de um barril... Nesse tempo não havia máscaras;
existia apenas entrudo.
Agora, o papel picado e a bisnaga de água perfumada. Uns compravam as bisnagas nas lojas,
em caixinhas, de vários tamanhos: nº 6, 8, 10, 12. Outros traziam os tubos de chumbo
vazios e enchiam-nos em casa. Mais econômico. O brinquedo de bisnagas era intenso,
nervoso, formidável. No meio da refrega, rasgava-se o fundo do tubo com os dentes e
derrama-se todo o líquido de uma vez nos cabelos das moças já cobertos de papel picado.
À tardinha, em menino, eu ia com meus pais, para a residência de uma tia, sinhá
Pequena, na rua do Hospício. Levava um saquinho de papel e umas bisnaguinhas. Dali, via o
desfilar da mascarada, dos clubes pedestres: o Caiadores, o Vassourinhas, o Parteiras da
Boa Vista, o Lenhadores, as Pás, dezenas e dezenas de outros. Havia anos de se
licenciarem para mais de cem. E assistia também ao desfilar do povo que vinha dos
arrabaldes, descendo das maxambombas na estação das Oficinas e tomando o caminho da rua
da Imperatriz.
Uma delícia imcomparável para meus olhos de dez anos esse espetáculo.
Carnaval de meu tempo...
Que tristeza quando na tarde de terça-feira a matriz da Boa Vista principiava a dar os
toques de cinzas! Com o escurecer caía uma verdadeira nostalgia dentro de minha alma. O
frenesi do brinquedo, o falsete dos máscaras, o entono das cantigas, as marchas dos
clubes, os clarins do Cavalheiros da Época, não arrefeciam, sim. Antes subiam de
intensidade num paroxismo de folia. Porém a certeza de que tudo aquilo no dia seguinte
cessaria, doía-me no coração.
Faz chorar
Faz chorar
O saudoso carnaval
Amanhã é quarta-feira
Acabou-se o carnaval...
Eu sentia uma saudade que somente muitos anos depois eu vim a experimentar maior. De
outras cousas tão pouco carnavalescas.
E parecia-me uma blasfêmia ouvir minha avó sentenciar: Felizmente destes estamos livres.
(SETTE, Mário. Maxambombas e maracatus) |
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