Ir para a página principalRetornar para Colher de Pau

Fevereiro 2001
Ano III - nº 30

DO VOCABULÁRIO PERNAMBUCANO: CAJUADA, CAJUAL, CAJUS, MATURI

Cajus

A idade, os anos de vida. "Dona Miquileta, senhora que já lhe bate à porta o seu quadragésimo caju." (O vapor dos traficantes, nº 240, 1860). "Miss Pepa não pode ocultar os seus 52 cajus, e bem maduros." (Lanterna mágica, nº 553, 1898). "O Domingos Soares chupou mais um caju do balaio de sua existência." (A pimenta, nº 86, 1902). "Mais um caju trepou-se ao meu costado." (Pio Piparote). Esta representação dos anos pelo caju vem da contagem dos mesmos, que faziam os índios, servindo de base o ano lunar, que terminava na época da floração do cajueiro. "Pelo acaju contam os naturais da terra seus anos: o mesmo é dizer tantos anos, que tantos acajus." (Simão de Vasconcelos). A. J. de Melo no seu idílio Itae, apresenta-nos como protagonista da peça uma bela índia pernambucana, apaixonada, que lamentando a morte do pai no assédio do castelo de Olinda, os seus infortúnios e a perda de uma irmãzinha de sete anos arrebatada pelos invasores, tristemente exclama: "Coitadinha! Sete vezes apenas vira em flores o cajueiro desde que nascera!" A época da frutificação do cajueiro, da colheita dos seus frutos, o acaju, era para os índios a suspirada estação da fartura de víveres e da abundância de prazeres, das festas e das orgias prolongadas, e de uma embriaguez constante produzida pelo caium, acaju-im, o vinho de caju, que a seu modo fabricavam. A dicção acaju, entre eles, tinha a expressão de ano, estação, e uma frase particular, acaju etá, exprimia a idade, os anos de vida do indivíduo, para a contagem dos quais guardavam de ano uma castanha de caju, acaju itimaboera, ou itimbera, cujo processo era designado por uma locução própria, acaju roig, segundo Gonçalves Dias, Marcgravi que esteve em Pernambuco na primeira metade do século XVII, escreve isto mesmo na sua Historia rerum naturalium Brasilie, sem dúvida consultada por aquele escritor. Vem daí o vulgaríssimo qualificativo de ano por caju, e conseqüentemente a frase: já tem os seus cajus, para indicar uma idade provecta, e esta, inquerindo-se da de alguém. Quantas cajus tem você? Os nossos índios ainda guardam estas vetustas tradições dos seus antepassados, como se vê de uma passagem de Martius (Viagem científica pelo Brasil, 1817-1820) citada por Alfredo de Carvalho: - "Interrogado o sábio Martius a um indiozinho sobre a sia idade respondeu-lhe: Onze acaju que tebo; isto é, onze caju inteiros, querendo assim exprimir que já completara o sei undécimo aniversário." - O caju, como já se disse, entra na lírica nacional, já pela castanha, como pela flor, o sumo e o cheiro agradável do sacocarpo e das folhas, e na boca do vulgo corre axiomaticamente: - Quem não come do caju não percebe das castanhas; Quando você ia aos cajus, já eu voltava com as castanhas assadas; Eu não sou caju, isto é, tolo, besta! idiota, assim, ou com esta locução complementar: que nasce de cabeça pra baixo. "Então mostrando talento, provando não ser caju. Vai o nosso amigo Bento, e arranjou um jaburu." (Tico-Tico, nº 432, de 1914)


Cajuada

Bebida refrigerante feita do sumo do caju, água e açúcar, ou antes, o que se chamava ponche de caju, cantado em belíssimos versos pelo nosso poeta Natividade Saldanha, em uma das suas odes; esse "ponche agridoce do louro caju, o pomo suave, ao cheiro e ao paladar, que se Atlanta gozara os d’oiro deixando, nem quisera vê-los" "A Lourenço ofereceu Marianinha uma tigelinha de cajuada." (Franklin Távora, O matuto). "Comeram dentro da sé tabuleiros de pastéis, bolinhos com cajuada." (América ilustrada, nº 1, 1881)


Cajual

Floresta, abundância de cajueiros, o belo anacardium da nossa flora, a que os índios davam a expressão particular de acajutiba, ou concorrentemente, cajuípe, de caju. ipe, com a expressão de um lugar abundante de cajueiros, ou de cajus. "Tomaram os holandeses por entre um cajual, e por um largo caminho na vila de Olinda." (Calado, 1648). "É este vinho de caju entre os índios estimado sobre todos os outros; e ser senhor de um destes cajuais, para o efeito dele, é ter o morgado mais pingue." (Simão de Vasconcelos, 1668). "Quando menos pensava deu consigo em um cajual." (Franklin Távora). Com o nome de Cajual há uma serra no município de Água Preta, assim chamada pela abundância de cajueiros que ali se encontra. O cajueiro em fernando de Noronha, frutifica o ano inteiro (Mário Melo, Arquipélago de Fernando de Noronha).


Maturi

A castanha ou fruto do cajueiro (Anacardium) ainda verde, muito volumosa e tenra, assim aproveitada para guizados, fritadas e confeitos. "A fritada do maturi, quer dizer, da castanha verde e, seu estado rudimentar, rivaliza com a do camarão." (Artur Orlando). Maturi, segundo Beaurepaire-Rohan, é provavelmente, um vocábulo de origem tupi.




(COSTA, F. A. Pereira da. Vocabulário pernambucano.)

VEJA MAIS: Pereira da Costa

Pereira da Costa: vida e obra

Os brindes

Pregão dos leiloeiros

A crendice popular e o destino final dos espíritos

A morte de dom Ratinho

O número sete (primeiro artigo publicado)

Topo

Jangada Brasil © 2000