Fevereiro
2001
Ano III - nº 30 |
|
Em um dos capítulos de seu
livro Estudos de folclore cearense (Imprensa Universitária do Ceará, 1969),
Eduardo Campos, ilustre médico e folclorista, focaliza "O caju - tema
folclórico" (p. 57-63), e aí desenvolve uma série interessante de informações
sobre as várias propriedades da saborosa fruta eminentemente nacional. Fala na alegria do
povo cearense quando chega a "safra do caju", época "sem dúvida, de muita
importância para a comunidade", pois "todos, sem distinção, procuram seus
frutos: as donas mais diligentes fazem gostoso mocororó, caldo que se obtém de
frutos escolhidos e que, pela introdução da cola perdem certas substâncias, os taninos,
que isentam a bebida de qualquer gosto amargo". Desse caldo se preparam as cajuínas,
que tive o ensejo de beber, geladinha, durante a recepção na Casa de Juvenal Galeno, aos
folcloristas presentes ao V Congresso Brasileiro de Folclore, realizado, em 1963, em
Fortaleza.
Informa ainda o autor que o caju é complemento das refeições na Terra de Iracema,
abrindo o apetite, "sendo aconselhado o seu uso pelo gosto que produz, cortado e
servido de mistura com o feijão." (p. 59)
Outro nortista de talento e cultura, Luís da Câmara Cascudo, em seu sempre informativo Dicionário
do folclore brasileiro (verbete caju), reafirma o uso total do cajueiro:
"Das folhas às raízes, o cajueiro pertence à terapêutica popular, e a época da
colheita abre para as populações pobres, auxílios inesperados e regulares", mas -
deplora o eminente mestre - apesar de tudo que dá o cajueiro, "nenhum dos
aproveitadores (pensa) no cultivo de tão querida árvore".
Outros apaixonados do caju têm feito a sua louvação, apontando-lhe as mil e uma
particularidades. Do caju e do cajueiro, Câmara Cascudo refere na segunda edição do seu
Dicionário (Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1962): Oton Machado, Estudos
novos sobre uma planta velha, João Peretti, Cajueiro, Mauro Mota, O
cajueiro nordestino. Antes, - após informar que "o pendúculo carnudo e
sumarento dá vinho e vinagre a castanha é gulodice secular", Cascudo acrescenta que
o caju e a castanha foram gabados "em todos os cronistas do Brasil colonial."
Também Eduardo Campos faz vincante referência ao trabalho de Mauro Mota. Veja-se o
seguinte tópico: "A idéia de que o cajueiro poderia transformar-se em tema para
excelente livro deve ter acudido a muita gente, mas, persistente, estudioso e sobretudo
interessado em assuntos de nossa geobotânica, foi o senhor Mauro Mota o desbravador do
assunto, dando-nos agora, em outra edição, o seu passeio sentimental que, como certas
viagens de turismo, tem um título que é convite simples, mas incisivo. O cajueiro
nordestino (edição do Ministério da Educação e Cultura, coleção Vida
Brasileira).
Também aqui no Espírito Santo - onde é o caju abundante e saboroso - encontra o anacardium
occidentale do sábio Lineu seus mais devotoso entusiastas.
Duca Eleotério, por exemplo, uma das bem retratadas figuras de A oferta e o altar,
- nome com que, debalde, o autor do romance (Renato José Costa Pacheco) tenta esconder o
venerando barrense Manuel Antônio de Oliveira, também conhecido por Manduca Evêncio -
faz, a certa altura do livro, enfática apologia do caju e do cajueiro: "Do cajueiro
tudo é útil ao homem. Desde as folhas até o lenho. O caldo com aguardente é aperitivo
estimulante. O doce é excelente. A filha intervém: - Mas o fruto deve ser descascado com
faca de bambu, osso ou madeira... - Falou a minha mestre-cuca. O caldo, como ia dizendo,
dá excepcional xarope. O maturi, a castanha (assada com muita cautela, pois até a
fumaça é cáustica) fornece amêndoa que rivaliza coma do Pará. O bagaço exprimido
serve para alimentar animais domésticos. A casca do tronco, em maceração dá gorda para
curtir peles de pequenos roedores... Os circunstantes ouvem, sem diálogo, a sabedoria do
velho: as folhas perfumam compartimentos mal ventilados, ou onde há doentes. A madeira
bem seca serve para fabricar paus de tamancos. Da resina faz-se cola. Qual outra árvore
tão útil ao homem?"
Maturi - informa Dua Eleotério - "é o caju verde". Pereira da Costa, em
seu clássico Vocabulário pernambucano (Revista do Instituto Histórico e
Geográfico de Pernambuco, v. XXXIV, p. 475) nos esclarece: "Maturi. A
castanha ou fruto do cajueiro, ainda verde, muito volumosa e tenra"; e acrescenta,
com relação à castanha (tal como Duca Eleotério) ser ela "aproveitada para
guisados, fritadas e confeitos", informe comprovado por Artur Orlando, que ele cita:
"A fritada do Maturi, quer dizer, da castanha verde em seu estado rudimentar,
rivaliza com a do camarão". No Dicionário de vocábulos brasileiros, de
Beaurepaire-Rohan (Salvador, Editora Progresso, 1956), lê-se acerca do termo:
"Maturi, s. m. (Piauí e de Pernambuco até o Ceará) castanha ainda verde, do caju,
de que se fazem diversas iguarias e confeitos. Na Bahia lhe chamam Maturi."
O depoimento insuspeito de Manduca Evêncio (via Renato Pacheco) nos garante a presença
do termo também em terras do norte capixaba.
No mesmo Vocabulário pernambucano encontramos a respeito do caju, o seguinte dado
que julgamos interessante referir: "A época da frutificação do cajueiro, da
colheita dos seus frutos - o Acaju - era para os índios a suspirada estação da
fartura de víveres e da abundância, dos prazeres, das festas e das orgias prolongadas, e
de uma embriaguez constante produzida pelo cauim. Aca-ju-im, o vinho de caju, que a
seu modo fabricavam." (p. 156)
É verdade que, na opinião mais generalizada, o cauim se preparava com raiz de mandioca.
Lá está, como vistas precisamente ao Espírito Santo, a informação de Augustin de
Saint-Hilaire: "No dia seguinte ao em que visitei a aldeia (o Piriquiaçu) devia
celebrar-se a festa de Todos os Santos e todos os habitantes (indígenas) haviam preparado
o cauim ou cauaba, bebida embriagante que se prepara com raízes de
mandioca..." (Segunda viagem ao interior do Brasil. Coleção Brasiliana, v.
71, p. 221)
Mas o cauim também poderia ser feito com outros ingredientes. Estevão Pinto, por
exemplo, nos esclarece ao afirmar: "A mandioca própria para a fabricação do vinho
(cauim) era o aipim (...) Vinho se faz ainda do abacaxi ou ananás, da mangaba, da pacova,
da jabuticaba, de caju, da batata, do jenipapo" e também "das bagas de
milho." (Os indígenas do nordeste. Coleção Brasiliana, v. 112, p. 85)
Vemos assim que, desde os mais recuados tempos, neste Brasil tão encharcado de cachaça,
já se ligava o caju à embriaguez, através do cauim, numa antecipação de século ao
gostoso ritual do caju amigo.
Que o caju está "casado" com a cachaça, creio que todo mundo sabe ou imagina.
Quase se pode afirmar que não há caju sem cachaça, nem cachaça sem caju, no tempo da
safra gostosa da fruta. Eduardo Campos afiança-nos esta afinidade entre um e outro em seu
referido livro. Depois de desfilar uma série de marcas de aguardente, colhidas em
Fortaleza, através de cento e quinze bares e cento e doze botequins, escreve (p. 44):
"O Ceará é uma exceção na maneira curiosa de servir a aguardente. Não se concebe
bebida vendida sem o acompanhamento, chamado, com muita propriedade, tira-gosto.
Quando alguém pede uma bicada ou um trago, a bebida já lhe é servida com
fruta ou o pedaço de carne que representa o tira-gosto, tudo pelo preço normal da
dose vendida a retalho." E mais adiante: "Mas, sem dúvida nenhuma, o caju é o tira-gosto
preferido. Quando os cajueiros frutificam, não faltam nos botequins e vendas suas
deliciosas frutas cortadas em fatias que, espetadas por palitos, são servidas em pratos
aos que vão molhar a goela." Em outro livro, Estudos de folclore cearense (Imprensa
da Universidade do Ceará, 1960), insiste o mesmo inteligente autor: "Os nordestinos,
principalmente os cearenses, não tomam aguardente ou outra bebida sem que não se sirvam
do tira-gosto, que sempre (é) a fruta regional, no período da safra (...) De
tantos tira-gostos que a fantasia dos bebedores excita e descobre, nenhum se
compara ao caju, cortado e servido aos pedaços, em prato fundo, apanhado pelos
degustantes, higienicamente espetados em palitos." o ilustre folclorista do Ceará,
porém, não nos explica o modo, a forma, o ritual usado pelos bebedores quando ingerem o
saboroso tira-gosto.
Via de regra (não falo só porque vi...) o tira-gosto, qualquer que ele seja, é
tomado sem o concomitante gole da branquinha. Come-se o naco de carne-seca ou de
porco, a lasca de peixe frito, a rodela de lingüiça, uma azeitona, a castanha do Pará,
dois ou três mosaicos de torresmo ou de queijo etc. e depois, vá lá o trago da cariacica.
Assim é que habitualmente se procede. O "casamento" entre a cachaça e o tira-gosto
ocorre (digamos) "com separação de corpos". Como caju, ou melhor, com o
caju-amigo não é assim que se faz.
A informação me foi transmitida por quem, nesse assunto, merece fé e fé plena: Cortado
o caju em fatias transversais - e cortado (importante!) com faca ou lâmina de bambu -
postas estas num prato, espetadas ou não em palitos, o bebedor "autêntico"
toma na boca uma das fatias, mastiga-a, mastiga-a como a ruminar, sem engolir o sumo nem o
bagaço; quando a boca estiver cheia do caldo do caju (e da saliva, naturalmente) só
então é que se vira o gole da pura, e engole-se tudo de uma vez. (Tudo às vezes
não: o bagaço pode ficar na boca e ser cuspido fora depois; se o bebedor quiser, porém,
engole-o também).
É precisamente a este ritual que se dá o expressivo nome de caju-amigo.
Claro que o "irmão da opa" não se contenta jamais com uma fatia de caju e um
só gole da pinga. Vai repetindo, repetindo a mastigação e os goles, enquanto
houver à mão fatias de caju e cálice com cachaça.
Não me lembro de ter lido a expressão caju-amigo em nenhum dicionário da
língua, nem mesmo os especializados. Não está registrada no clássico Vocabulário
pernambucano, de Pereira da Costa; nem no Dicionário de brasileirismos, de
Rodolfo Garcia; nem no Dicionário de vocábulos brasileiros, de Beaurepaire-Rohan;
nem no Dialeto caipira, de Amadeu Amaral; nem no Dicionário da terra e da gente
do Brasil, de Bernardino José de Souza; nem em O meu dicionário de cousas da
Amazônia, de Raimundo Morais; nem em O linguajar carioca, de Antenor
Nascentes; nem no Novo dicionário da gíria brasileira, de Manuel Viotti; nem no Vocabulário
analógico, de Firmino Costa; nem no Dicionário de termos populares
(registrado no Ceará), de Florival Seraine; nem em A linguagem popular do Maranhão,
de Domingos Vieira Filho; nem no Pequeno dicionário brasileiro da língua portuguesa,
tão recheado de brasileirismos graças a Aurélio Buarque de Holanda; nem no glossário
anexo ao romance Furundungo, de A. J. de Souza Carneiro. Nem mesmo em qualquer obra
de autores do norte e nordeste ou de qualquer outra região do país.
Só num livrinho informativo, A cozinha baiana (Bahia, Edição da Livraria
Universitária, 1948), por sinal, de um capixaba, Darwin Brandão, encontrei, à página
66, o seguinte: "Caju-amigo - suco de caju açucarado. Aguardente pura. Toma-se
primeiro o caju e em seguida a aguardente."
A explicação é vaga, como se vê. Interessante é que, em nota de pé-de-página, o
jovem autor indica a fonte onde colheu a informação: "Esta fórmula me foi
fornecida pelo Dadaio Miranda, boêmio de quatro costados. Diz ele (Dadaio): O caju
amigo tira o bafo de tigre, isto é, o cheiro desagradável que fica na boca da
gente."
Acontece que Dadaio Miranda não era baiano, mas fluminense, e a expressão "caju
amigo" por certo a ouvira ele aqui em Vitória, onde viveu, de Amaro Bastos, Políbio
Andrade, Roberto Ribeiro de Souza, Paulo Velozo e, depois, de Izidro Benezarth, Paulo
Silva, Eugenilio Ramos, Cícero Nonato, Ariston Greppe, Domingos Martins de Mattos e
outros da mesma alegre roda. Darwin Brandão, que aqui também morou, recolheu - como
confessa - a expressão e a fórmula, (esta o seu tanto alterada) e as incluiu como
baianas em seu livro.
Não tem o mais mínimo apoio sério a opinião do cronista Henrique Pongetti em seu livro
Direito e avesso (Rio de Janeiro, 1957, p. 323), quando, tentando fazer gracinha,
diz que o caju amigo é invenção e "fórmula secretíssima" dos mineiros. Não
é não! Os velhos bebedores capixabas de há muito usam não apenas a expressão mas o
ritual do nosso caju amigo e lhes garantem a criação genuinamente nossa.
[1969]
(NEVES, Guilherme Santos. Em Folclore.) |
|