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Fevereiro 2001
Ano III - nº 30

O CIGARRO E O FOGO NA POESIA POPULAR

O cigarro, desde a introdução do vício na humanidade, foi celebrado pela musa popular erudita. No folclore de todos os povos civilizados aparecem o fumo, o cigarro e o competente "fogo", se bem, muitas vezes, com uma ou duas quadras ou dísticos, ou sextilhas, ou décimas, ou, ainda, um ou outro adágio.

No Rio Grande do Sul o cigarro - pito, creolo, baio, pixuá, etc. - faz parte da vida do gaúcho. É muito difícil encontrar-se um homem de campo que não fume, ainda que seja um simples pixuá, isto é, cigarro forte de fumo ordinário. Entretanto, o populário quase nada regista: algumas quadras e algumas poesias gauchescas, de origem erudita, como esta de M. Faria Corrêa, em Rumo aos pagos:

Cigarro creoulo fumo
Tragando de ponta a ponta
Com meu isqueiro me arrumo
De vento nem faço conta...

e, entre outras, Fumo crioulo, de Valdomiro Souza, Fechando um baio, de Amândio Bica e Pito de palha, de João Palma da Silva.

J. Simões Lopes Neto (Cancioneiro gausca, 2ª edição, 1917), recolheu algumas trovas em que o cigarro aparece, às vezes como... Pilatos no Credo:

Eu não quero mais pitar
No pitinho de ninguém
Não quero que as moças digam
- Nem fumo pra pitar, tem!

Pitar - é fumar. Pitinho, diminutivo de pito - às vezes é cachimbo, mas no geral é fumo ou o próprio cigarro. Pitar no pitinho de outrem parece-nos que significa, neste caso, pedir, filar. Com referência a pito, são muito populares as seguintes expressões: "sossegar o pito" - acalmar-se, conservar-se quieto; "estar de pito apagado" - estar triste, abatido, jururu; "estar de pito aceso" - estar assanhado, irrequieto. Com referência à palavra pixuá, também encontramos frases feitas com o significado de ruim, covarde, imprestável, uma vez que pixuá designa fumo forte mas de má qualidade e fumar um pixuá, é fumar cigarro de qualidade inferior, ou intragável para a maioria. Assim:

Sujeito pixuá - sujeito ruim, imprestável.

Ser pixuá - ser de qualidade inferior, imprestável, o mesmo quanto a estar pixuá, isto é, incapaz de fazer qualquer coisa boa, no momento.

Quanto à poesia popular, eis algumas quadras, aliás as únicas que conseguimos colher:

Dizem que o cigarro tira
As mágoas do coração
Eu pito, re-pito e pito
E as mágoas nunca se vão...

Dizem que o fumo tira
As mágoas do coração
Mas porém quanto mais pito
Mais se pisa esta paixão...

Pisa, verbo pisar, significa, no Rio Grande do Sul - malchucar, ou machucar e não apenas calcar o pé com o pé. Usa-se, também, como sinônimo de maltratar.

Em cigarro de papel
Fumo verde não fumega
Onde há moça bonita
Meu coração não sossega

Do primeiro verso, há a variante: "No cachimbo ou no cigarro", anotada por Múcio Teixeira (Os gaúchos, v. 1):

O cigarro de palha (de milho sovada ou preparada) é o que denominam creolo, crioulo, ou cigarro creôlo.

Das transcritas, salvo a terceira e a quinta que nos foram dadas por um amigo, existem variantes. Mas citamo-las tais quais as recolheu J. Simões Lopes Neto (ob.cit.).

Pessoalmente recolhemos algumas mais modernas, ou bem modernas que, entretanto, não consideramos de cunho absolutamente popular, dado o meio intelectual em que as ouvimos: mesas de café no interior sul-riograndense.

Esta é de Santo Ângelo, da zona missioneira:

Quem não fuma seu cigarro
Quem não gosta de mulher
Se não é um grande santo
Tem um mau vício qualquer

Em Porto Alegre, ouvimos esta variante:

Quem não gosta de mulher
Quem não fuma seu cigarro
E não toma seu traguinho
Cuidado que é bicho zarro!

Em Uruguaiana, numa roda no Clube Comercial, alguém saiu-se com esta:

Há duas cousas no mundo
Que ninguém pode deixar
Um bom cigarro creôlo
E o pingo de seu andar...

Falava-se, justamente, sobre o cigarro e o melhor meio de deixar de fumar; a força de vontade. Foi nesse momento que ouvimos, de um senhor de meia idade, cabelos grisalhos, a trova acima que foi muito aplaudida, mas que declarou não ser dele, mas popular...

Em 1939, em Bagé, no bar do turco Salim Calil, hoje um dos mais ricos proprietários daquela cidade, ouvimos de um velhote, tipo de tropeiro, esta quadra:

Despois da lida do campo
Um bom trago pra animar
Um churrasco, um chimarrão
E um creôlo pra arrematar

De todas as que recolhemos, talvez seja esta a que mais cunho popular possua, não apenas pela linguagem, como por quem a recitou e pelo conjunto de "paixões" do gaúcho. Só faltou falar na mulher…

Não são esses, porém, os mais curiosos versos a propósito do cigarro, e sim os que têm por finalidade pedir cigarro e "fogo", - as trovas dos filantes de cigarro:

Do cigarro que eu fumava
Até nem cinza sobrou!
Um cigarro pra um amigo
Quem foi que um dia negou?

Se esta quadra é pouco popular (temos impressão que seja improviso do filante), bem populares são os dísticos:

Adão foi feito de barro
Amigo, cadê o cigarro?

que tem a seguinte variante no segundo verso: - Amigo me dê um cigarro.

Ando aqui meio malito
Não tenho nem para o pito!

Popularíssima e que conhecemos desde os velhos tempos de estudante é esta quadra para pedir fogo, e que nos parece ser conhecida em todo o estado do Rio Grande do Sul:

Me empreste o seu aceso
Pra acender meu apagado
Quando o meu tiver aceso
Lhe direi - muito obrigado

De molde absolutamente ofensivo e impróprio existe uma variante que também conhecemos desde aqueles tempos:

Me empreste, amigo, o seu quente
Pra acender o meu frio
E quando o meu tiver quente
Vá...

Cremos que esta quadra tenha surgido da brincadeira de mau gosto de algum desses gaiatos que querem fazer graça - embora de mau quilate - a custa de tudo, pois não acreditamos nosso gaúcho capaz de semelhante desbrio.

Finalmente esta que colhemos na zona de Passo Fundo:

Tenho palha, tenho fumo
Tenho faca de bom fio
Sirva-se, amigo, à vontade
Mas me empreste os seus avios

Esta é de tipo diverso das anteriores, pois, em troca do "fogo", oferece palha e fumo. Gesto típico de gentileza gauchesca.

Avios - apetrechos. Roque Callage (Vocabulário gaúcho) registra: "vocábulo empregado sempre no plural (...) avios de fogo (...) É o conjunto de objetos indispensáveis para uma pescaria, caçada ou para se fazer mate ou se obter o fogo por meio do isqueiro. Romanguera Corrêa (Vocabulário sul-riograndense) registra o mesmo, e também, com mais algumas acepções, Luís Carlos de Morais (Vocabulário sul-riograndense). Os avios de fogo do gaúcho compreendem o isqueiro, composto de ponta de porongo ou de chifre no qual é colocada a isca (estopa de algodão, preparada ou não), pederneira (lasca de sílex que chamam "pedra de fogo") e um pedaço de ferro, geralmente de lima velha, gasta, com o qual batem na pedra produzindo a faísca que incendeia a mecha (isca) do porongo ou chifre. Há isqueiros tanto de porongo (cabaça) como de chifre, verdadeiramente artísticos, com gravações e desenhos variados.

É possível que mais algumas existam por este Rio Grande do Sul afora. Por ora, entretanto, é o que conhecemos e nos foi possível recolher.


(SPALDING, Walter. Tradições e superstições do Brasil sul)

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