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Fevereiro 2001
Ano III - nº 30

OS BRINDES

Na sua faina ainda de poetar sempre e de tudo chasquear e fazer espírito, tem o povo em linguagem predileta e propriamente sua, estabelecido, como que uns tantos brocardos ou sentenças com relação aos nomes próprios e apelidos, quer de família, quer domésticos, e respostas adequadas e rimadas sobre certas perguntas e frases empregadas no correr de uma conversa ou alteração, bem como nos diversos lances do jogo de cartas, o que é muito comum, original e de bastante espírito e agudeza.

Neste imenso concerto de expansões populares, são de um característico próprio as solenizações à saúde em banquetes, hoje quase que em completo desuso, ou antes, absolutamente abolidas...

Sílvio Romero, nos seus Estudos sobre a poesia popular, considera, muito acertadamente, as solenizações, os brindes, ou mais vulgarmente, saúdes, levantados nos nossos banquetes burgueses, como objeto que tem seu lugar na história da poesia popular, e a este respeito escreve o seguinte no seu aludido livro:

"Conquanto não se nos tenham ainda deparado nas coleções de cantos populares que temos podido consultar, certos versinhos, que costumam acompanhar as saúdes nos banquetes, todavia não deixam eles de ser uma das manifestações, ainda que das mais acanhadas, da poesia popular; E por isso aqui indicamos alguns fragmentos dos que se costumam cantar em nossos jantares burgueses. Como a cousa se passa é sabido: alguém faz uma saúde, e por via de regra, a soleniza cantando."

Consignando depois alguns dos versos mais vulgares de tais solenizações de saúdes, registra entre outros, os seguintes, muito conhecidos entre nós ao tempo em que isso tinha o seu lugar:

Como canta o papagaio?
Como canta o papagaio?
O papagaio, o papagaio
O papagaio canta assim:
- Grô, grô, grô, grô

Como canta o periquito?
Como canta o periquito?
O periquito, o periquito
O periquito canta assim:
- Gré, gré, gré, gré

O gato amarrado
Dá pra miar
A boa champanha
Dá pra lançar
Este é o gato
Que pegou o rato
Que roeu a roupa
Que estava na corda
Que amarrava a bota
Bota vinho, bota
Vira, vira, vira!...


Por nossa vez, recolhemos estes:

Encontrei com Santo Antônio
Na ladeira do Pilar
Gritando em altas vozes:
- Este copo é de virar!

Toque lá, e toque cá
Este copo é de virar
Toque cá, e toque lá
Satisfeito há de ficar

O que faz a minha glória
É a mulher do vizinho
Mas quando bebo seu vinho
Completo minha vitória
Até com risco de vida
Viva a cousa proibida

O roxo vinho
Corra nas tripas
Mande-nos Baco
Dele cem pipas

Bebamos, companheiros
Bebamos, companheiros
O suco da uva
O vinho verdadeiro


(COSTA, Pereira da. Folk-lore pernambucano)

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