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Fevereiro 2001
Ano III - nº 30

EMBOLADAS DE ZÉ MENINO

Zé Menino, esse pobre aleijado que se arrasta pelas ruas de Fortaleza, andando em posição quadrupedal, sobre os joelhos e as mãos calosas, é um repositório vivo e ambulante de cantigas populares alagoanas. Não o conhecem? Ele estaciona quotidianamente à porta do Banco do Brasil, nas calçadas da Biblioteca Pública e da Assembléia Legislativa, quando não na praça José de Alencar, onde, às vezes, nas imediações do Mercado das Frutas e Cereais, se bate em desafio com o cego Sinfrônio. É infalível nas festas religiosas de Soure, Parangaba e Messejana.

No galope rítmico das emboladas, Zé Menino canta coisas interessantes. Uma delas é subordinada ao refrão:

- Como é que o home se chama?
Como é o nome do home?
- É Mané Fuloriano!

Esse Mané Fuloriano deve ser Manoel Floriano Peixoto, o forte soldado alagoano, a quem a admiração dos brasileiros deu a antonomásia de Marechal de Ferro. Os versos que ainda hoje o celebram, datam, decerto, dos tempos tempestuosos em que no governo substituiu a Deodoro da Fonseca, outro egrégio filho das Alagoas, venturosa Terra dos Marechais.

Para melhormente ouvir Zé Menino e apreender-lhe as cantigas, atraí-o à minha casa. No alpendre da "Rocinha", ele não se fez de rogado e, variando inteligentemente de toadas a fim de evitar monotonias, cantou uma infinidade de emboladas, das quais aqui fica não pequena quantidade:

Uma cabocla
Uma mulata, uma morena
Eu no mato das pequena
Canto até Mané chegá!

Eu vi Antônia
Vi Maria e Cordulina
Esta negra é quem me ensina
Lavá roupa sem moiá

Muié casada
Que duvida do marido
Leva mão no pé do ouvido
Pra deixá de duvidá

Rapaz solteiro
Namorou muié casada
Tá com a vida atrapaiada
Na ponta dum bom punhá

Saco, saco
Bisaco, saco de chumbo
Minha mão não sai do prumo
Na pancada do ganzá

Senhora dona
Que é que tem nessa panela
Xambari, peito, costela
Carne da volta da pá

Corre depressa
Vai na casa de Janoca
Se não fô torrá pipoca
Mande o caco pr’eu torrá!

Senhora dona
Feche a porta do escritório
Lá vem gente de Izidoro
Vem danada pra brigá...

Agora mesmo
Estou com a vida como quero:
Catacumba e sumitéro
É pra gente se enterrá

À meia-noite
Meu cachorro acoa um bicho
Eu carrego este capricho:
Um homem só não me dá!

À meia-noite
Me encontrei com um lobisome
O bicho quese me come
Quase eu morro de gritá

Eu dei um tiro
Na cabeça da guariba
A bala passou por riba
Pegou num tamanduá

Galinha nova
Quando avoa do poleiro
Primeiro faz um peneiro
Mode ver galo cantá...

O trem de ferro
Quando vai pra Pernambuco
Vai fazendo vuco-vuco
Vai danado pra chegá...

Pernambuco
Paraíba e Alagoa
Ó meu Deus, que terra boa
Mode a gente vadiá

Carneiro novo
Se você mata-me os bois
O negoço é com nós dois
Você tem de me pagá!

Sujeito morto
Morto, morto, amortalhado
Com três dias de enterrado
Se esse diabo falará

Senhora dona
Arrepare o seguimento:
Rodapé, cama de vento
Ferro novo de engomá...

Sou bicho duro
Eu sou um alagoano
Já tou com dezoito ano
Na pancada do ganzá!

Ai, meu ganzá
Que custou mil e seiscento
Ele tem merecimento
Cada ponta um maracá...

Ele merece
Cada ponta um anelão
Cinco dedo em cada mão
Pra podê quilariá

Piaba doida
Batendo em riba da linha
Meu pensamento adivinha
Pode vir de lá pra cá!

Dentro do mar
Eu vi a barca de Noé!
A balança deu fié
Meu talento também dá

Antônio Guede
José Guede, Mané Guede
Arre lá com tanto Guede
Que eu também quero guedá

Senhora dona
Vontade também consola
Macaco toca viola
Porém não bate no ganzá

Tive a veneta
De amontá no meu foveiro
Batê mão ao meu dinheiro
Ir comprá meu enxová

Eu compro calça
Paletó, camisa fina
Me falta um par de botina
Já mandei encomendá...

Cheguei na loja
Comprei xale de belota
Fui dar a dona Carlota
Que é danada pra luxá

Tornei voltá
Comprei pente de cocó
Escolhi do mais milhó
Para a morena quebrá...

Negro safado,
Eu já vou chamá Francisco
Barra a casa, apanhe o cisco
Se não quer levá manguá!

Conhece, negro
Doutor de sabedoria:
Vila de Santa Maria
Porto de Mina Gerá!

Muié casada
Seu marido é ciumento
Abra a porta que eu vou dentro
Esse diabo onde é que está?

Eu vou no mato
Mato grandes e miúdo
Chego em casa: pélo tudo
Dou à negra pra torrá...

A negra pega
Vamo pra beira do fogo
Agora danou-se o jogo:
O diabo não qué torrá...

Fico com raiva
A negra pede um pedaço:
Solto-lhe a mão no cachaço
Deixo o mocotó rolá...

Pedro Paulino
Tem um neto que está home
Quando tem raiva não come
Pega as arma e vai brigá

Rapaziada
Batam palma e arresponda
Não tenham medo da ronda
Que ela hoje não vem cá!

Olhe o carro
Olhe a carreta, a carretia
Da meia-noite pro dia
Quando eu gosto de cantá

Olhe o carro
Olhe a carreta, olha a carroça
Chamurro da ponta grossa
Não briga com marruá!

Eu sou disciplo
De Romano e Serradô
Da terra sobe o calor
Quando eu balanço o ganzá

Pego o ganzá
Desenrolo o carrité
Pego o pinto pelo pé
Não deixo o pinto voá...

Ai, meu ganzá
Ai, meu ganzá, meu ganzarino
Camisa de pano fino
Meu ganzarino ganzá

Eu tou no tomba
Do galope agalopado
Fiquei negro bronzeado
Foi de janeiro pra cá

Eu dou na venta
Dou na cara, dou no ôio
Se o cabra fica zanoio
Tira a taba do queixá

Soldado velho
Do bonete arrebitado
Tem os óio aboticado
Que só cachorro do má...

Você me atira
Eu me abaixo e a bola passa:
Até eu gosto da graça
Do baque que a bala dá...

Faca de ponta
É danada por costela
Negro vê a ponta dela
Morre doido e não vai lá...

A cheia grande
Passou lá no meu roçado
Deixou tudo escangalhado
Meus bicho passando má...

Olhe o cavalo
Olhe o dimunho, olhe o matuto:
Todos arreio são curto
Rabichola e peitorá...

Eu vou no mato
Corto vara de ferrão
Derruba! bota no chão!
Não deixa o bicho espirrá!

Atira, atira
Corta, corta, emenda, emenda!
O ferreiro está na tenda
Mas não sabe trabaiá...

Olhe um macaco
Subindo de pau arriba
Fazendo vez de guariba
Fazendo Pelo-Siná!

Dona Marica
No assubir da ladeira
Se faça de mais maneira
Mode a carga não virá!

Senhô de engenho
Paletó de gasimira
Você diz que se admira
De ver fogo em tabocá...

Eu vou no mato
Vou cortar um pau linheiro
Para ver se sou ligeiro
No cacete de jucá

Pedro Calixto
Filho de Marica Bela
Bote o fogo, acenda a vela
Que o vapô qué manobrá

Eu dou-lhe uma
Dou-lhe duas, dou-lhe três
Querendo dou outra vez
Dou quantas vez queira dá!

Passo que fala
É papagaio da Alagoa...
Todo pau não dá canoa
Pereiro e pau de juá

Olha Viçosa
Olha Atalaia, olha Catende!
Quem canta comigo aprende:
Outro remédio não há...

Eu pego planta
Levo planta, arranco planta
Quando for no fim das planta
Tenho planta pra lhe dá

Anda ligeiro
Vai na casa de meu sogro
A chaleira está no fogo
Tem café pra nós tomá

Moleque novo
Que só anda de magote
Leva pisa de chicote
Na cozinha de Iaiá

Passe pra aqui
Passe pra ali, passe pra tuia:
Hoje é sabo de Aleluia
Dia santo de guardá

Capim de planta
Mussambê, pé-de-galinha
Ô-lê-lê camaradinha
Olhe a pancada do !

Matuto besta
Quando chega nos hoté
Fica todo atrapaiado
Sem sabê o que é que é

Sou bicho brabo
Eu sou pau pra toda obra
Já vi trem fazê manobra
Em Gulora de Goitá

Soldado novo
Quando vai brigar na guerra
Dá um tiro, a bala erra
Sai danado no punhá

Eu vi a cobra
Que mordeu minha cadela
Eu vi a rodilha dela
Lá no tronco de araçá

Chico Tampa
Zeca Tampa, Mané Tampa
Dei na famía dos Tampa
Fiz os tampa se daná

Por isso mesmo
Que eu me chamo Ludugero
Eu sou negro mas não quero
Sua filha pra casá

Por isso mesmo
Que eu me chamo Marcolino
Pego na corda do sino
Repico e bato siná

Por isso mesmo
Que eu sou cabra gororoba
Já comi carne de cobra
Com farofa de embuá

Seu fogueteiro
Bote fogo na giranda
É fogo pra toda banda
Nos ares de ta-ra-ta-tá!

Do rasgamento
De mortalha da coruja
Não tem esse que não fuja
Com medo de se assombrá

Já faz um ano
Que eu namoro uma menina
Ela é nova e pequenina
Tem faceirice no andá

Eu dei um cheiro
No cangote duma nega
Eu cuidei que era manteiga
Mas vi diabo pra almiscá

Saltei de banda
Dei outro no filho dela
Mulata cor-de-canela
Danadinha pra cheirá



(MOTA, Leonardo. Sertão alegre)

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