Jangada Brasil, nº 30, fevereiro de 2001: Palhoça – Dança dos Puris

DANÇA DOS PURIS

Após uma boa caça, ou um combate feliz, ou mesmo quando os índios se preparam para uma expedição desse gênero, em todas as circunstâncias enfim que os reúnem em grande número, verifica-se entre eles algo semelhante a uma festa. Os convivas são convocados ao som de um instrumento feito com a cauda de um tatu canastra ou com um chifre de boi, e logo o embriagante licor da chica inspira-lhes uma espécie de excitação sombria, que se manifesta por cantos e danças; mas esses cantos e essas danças são muito grosseiros e monótonos. Os índios colocam-se em fila circular, uns atrás dos outros; primeiramente os homens, a seguir, as mulheres, cada uma com suas crianças atrás de si, passando a mais velha destas os braços em torno da mãe e a segurando bem forte, fazendo a segunda o mesmo em relação à primeira e assim as outras. É nesta ordem que se movem lentamente, em torno de uma fogueira, dando um passo para a frente e um passo menor para trás, de modo a avançar muito lentamente. Quando percorreram, assim, um curto trajeto, correm precipitadamente a pôr-se de novo no lugar de onde partiram e recomeçam, em seguida, os mesmos passos. Ao mesmo tempo, executam, com a parte superior do corpo, com as ancas e com as mãos que juntam diante da parte inferior do torso, movimentos uniformes para ambos os lados. Acompanha esse gênero de dansa, se é que se pode chamar dansa, um canto monótono que mais parece um uivo, pois repetem sem cessar as mesmas palavras e exclamações. O sentido dessas palavras varia de acordo com os motivos da festa. Assim os parecis, depois de um combate com os botocudos, celebraram uma durante a qual repetiam sem parar: ho, ho bugure ita najy! o que quer dizer: ho, ho, o botocudo foi vencido. Tais festas, principalmente quando celebradas à noite, o que ocorre quase sempre, provocam no europeu uma impressão que nada tem de agradável, e a maneira pela qual os homens exprimem sua alegria tem algo horroroso. Quanto mais esquentados pela chica, mais os seus uivos se fazem confusos e sonoros e mais as danças e os movimentos do corpo se aceleram. Quando uma dessas festas precede uma expedição guerreira, os chefes aproveitam a oportunidade para excitar o ardor de seus companheiros com alocuções apropriadas às circunstâncias

(RUGENDAS, Johann Moritz. Viagem pitoresca ao Brasil)

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