Ainda hoje, vez por outra,
quando aludo às coisas demasiado lentas, digo que lembram o Padre-Nosso da velha
Cosma, de dona Cosma.
Era uma estória contada por meu pai, com aquela graça feiticeira que ele sabia emprestar
às evocações da meninice sertaneja.
Andei, homem-feito, dando uma batida para saber quem havia sido Dona Cosma.
Identifiquei tratar-se de dama de alta jerarquia, de sangue fidalgo e limpo,
representante das famílias mais antigas da aristocracia rural no alto sertão
norte-rio-grandense de outrora.
Era dona Cosma Rodrigues Veras, filha de Silvestre Rodrigues Veras e dona Eugênia de
Barros. Casara com um sobrinho do padre Miguelinho, o fuzilado na revolução de 1817,
Joaquim Felício de Almeida Castro, e foram pais do bacharel Miguel Joaquim de Almeida
Castro, deputado provincial e federal pelo Rio Grande do Norte na Constituinte da
República, presidente do Estado no regime republicano como presidira o Piauí no
Império. Homem eminente, ríspido, culto, figura impressionante pela energia, altivez,
coragem: (História da República do Rio Grande do Norte, 190-206, com os discursos
na Câmara dos Deputados ao final, Rio de Janeiro, 1965).
Não se trata dele e sim da senhora sua mãe, dona Cosma, que meu pai, que a conhecera,
chamava-a, sertanejamente, a velha Cosma.
Uma vez meu avô paterno e a família foram hospedados por dona Cosma. Já não recordo a
fazenda mas situava-se no atual município de Augusto Severo, então Triunfo. Agasalho
incomparável. Ceia farta. Agrados. Depois, diante do imenso oratório de jacarandá, dona
Cosma foi fazer as orações da noite, rodeada pelas crias de casa, servas, empregadas e
escravos. Antes de 1888.
Benzeu-se e começou a rezar o Padre-Nosso, espetando olhares fiscais nos circunjacentes
atentos, aparentes ou reais. Como matrona do velho bom tempo, devia advertir e manter a
disciplina familiar. Ali, como em Roma, família era o conjunto de seres sob sua
vigilância, manutenção e comando.
Aí vai dona Cosma rezando o Padre-Nosso, contrito:
- Padre Nosso que estais... Fenelon? Fecha a boca, negro!
- No Céu. Santificado seja... Te aquieta, moleca!
- O vosso nome... Deixe de risada, herege!
- Venha a nós o vosso reino... Bote a língua pra dentro, Bastião!
- Seja feita a vossa... Que balançado é esse, Catarina?
- Vontade... Vicente? Você fechou o chiqueiro?
- Assim na terra... Vá arrotar na cozinha, negra!
- Como no Céu... Fechou bem fechado, Vicente?
- O Pão-Nosso... Parece que a cabra está solta!
- De cada dia... Severino, tire a mão dos pés!
- Nos dai hoje... Deixe de abrimento de boca, Zefa!
- Perdoai as nossas dívidas... Acabe com essa coceira!
- Como nós perdoamos... Inácio? Bote esse gato pra fora!
- Os nossos devedores... Não disse que a cabra está solta?
- Não nos deixe cair... Bote o gato logo, está surdo?
- Em tentação... Zeferina? O lugar de dormir é na rede!
- Mas livrai-nos, Senhor... Pare com esse roncado, Jeremia!
- Do mal... Solte os pés, negro sujo!
- Amém... Voceis não deixam a gente rezar direito!
Não creiam na comocidade dessa oração onde Maria e Marta se equilibravam no cuidado
pela responsabilidade caseira. Era a intranqüilidade perpétua para que tudo seguisse no
ritmo macio e certo, imutável e doce, da Tradição.
(CASCUDO, Luís da Câmara. Superstição no Brasil) |
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