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A FLOR NO PEITO

Um costume de antigamente, hoje abolido: a flor no peito. Moda de ambos os sexos. No paletó masculino uma fendazinha cerzida à lapela para nela ser inserido o hastil do cravo ou do suspiro. Jovens e velhos usavam-na e não fugiam ao floril ornato. Nas mulheres, as flores eram cativadas por um alfinete ou broche sobre o seio. A flor ao peito que já uma popular canção da revista Tim-Tim por Tim-Tim celebrizava como elemento de correspondência entre os amantes:

Uma flor no peito
Quer dizer respeito
Assim na cabeça
Quer dizer depressa
Posta na cintura
Quer dizer ternura!
Cá do outro lado
Quer dizer cuidado!


O oferecimento de uma flor, ao se sair de uma visita, atravessando-se um dos cuidados jardins familiares de outrora, seria gentileza de todo merecedora de agrado, e constituiria uma impolidez não enfiar a rosa ou a cravina na boutonnière. A menos que a posição social não permitisse esse desfrute. Contava-se de um grave médico que, metido no seu croisé respeitável, e recebendo uma flor de uma cliente obsequiosa, meteu-a dentro da cartola. Mas, ao entrar na maxambomba tivera de cumprimentar outra senhora de seu conhecimento e deixara a rosa cair-lhe ao colo…

Outros cavalheiros da época não se privaram da flor no peito, embora de idade prevecta, como o comendador Veiga, sempre de lapela enfeitada nos seus fraques claros. Houve também um solicitador cujo nome nos escapa, habitual no uso de grandes flores na gola do paletó. Homens mais moços, então, timbravam em completar a elegância de seu indumento com um pequeno buquê à lapela. Alguns traziam até parasitos roxos que lograram preferência durante algum tempo e custavam até caro: 2$000 um…

Alguns desses devotos da flor no peito tinham suas predileções, e até exclusividades. Uns traziam sempre uma La-France, outros botão-de-ouro, aquele o bem-casado, tantos gostavam de angélicas, e não seria de estranhar a esquisitice de alguém a ostentar um cravo-de-defunto.

Os jovens, esses eram ecléticos: contentavam-se com os gêneros das flores recebidas, não raro em ramalhetes emoldurados em folgas de manjericão ou de bambu de salão, quando não de malva-rosa e melindro. O que viesse das lindas mãos dadivosas era acolhido com aprazimento e ia crescer as relíquias já secas de ofertas anteriores, depois de se ostentarem à lapela enquanto viçosas.

Tal o prestígio das flores, que se vendia por 500 réis uma brochura denominada Dicionário das flores. Ali cada espécie tinha um sentido particular. E, como nas cópias do Tim-Tim, variava essa significação consoante fosse colocada de um modo ou de outro, à esquerda ou à direita, singela ou acompanhada… Um verdadeiro telégrafo ótico e assaz proveitoso numa época de difíceis comunicações verbais.

Essas flores mensageiras de amor tanto caíam nos colos das sinhazinhas como subiam de arremesso hábil aos sobrados. algumas flores tornavam-se, às vezes, suspeitas de "jetatorismo" para uma pessoa. Todo o dia em que a botava ao peito não lhe saía bem a espera do namorado ou se arrufava com ele. Evitava essa flor "pesada". Que mundo de expressões dessas flores que se traziam ao peito na história dos amores!


Cravo roxo no meu peito
Logo me cai a semente
É melhor morrer de um tiro
Que viver de ti ausente


A flor no peito, no entanto, era predileta dos que não tinham mais preocupações de amor. Usavam-nas pelo prazer de tê-las perto e de lhes sentir o aroma. Muitos retratos antigos, em álbuns, revelam esse costume. E, dentro dele, poder-se-ia estudar o favor disputado por certas flores em épocas de maior destaque. Isso aconteceu com o miosótis, por exemplo, hoje quase desaparecido. Ele teve um verdadeiro apogeu. Forget me not, diziam uns. Pensez a moi, dfeiniam-no outros. Os suspiros, também, perderam muito sua voga. As próprias violetas declinaram um tanto do apreço. Os amores-perfeitos sumiram-se. E em realidade os jardins domésticos estão sendo substituídos, por motivos econômicos, pelos gramados ou pelos seixos ralados. Tudo custa tão caro!…

A abolição da flor no peito originar-se-ia de duas razões, talvez: a dificuldade das flores, em casa, e a desnecessidade de auxílio floral para os contatos de amor. As bocas hoje dizem sem obstáculos o que antigamente expressava uma rosa ou um crisantemo.

E… Que iria fazer uma flor num slack?…


(Sette, Mário. Maxambombas e maracatus)

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