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CARREGADORES E VENDEDORES AMBULANTES
CARREGADORES E VENDEDORES AMBULANTES
[1846]
Quase penetrando na baía, a rua que se estende ao longo da praia da Glória é a única
passagem da cidade para o Botafogo. Ao entrar nessa rua, voltei-me para uma caixa de
esmolas, pregada a um canto de uma humilde loja perto do ponto onde saltei pela primeira
vez em terra. As esmolas aparentemente destinavam-se a obter a salvação das almas das
crianças. Gordos querubins holandeses haviam sido pintados sobre a caixa, mas o tempo
quase os extingüira e tornara tudo tão branco quanto montes de neve. Enquanto a
examinava ouvi um alarido que me assustou como se viesse do inferno. Realmente, procedia
de espíritos sombrios. Era um grupo de mais de vinte negros, cada um deles tendo sobre a
cabeça um ou mais artigos de mobiliário doméstico cadeiras, mesas, armações de
cama, colchões, panelas, caçarolas, candelabros, jarros de água e louças tudo
pertencente a uma família que se mudava para nova casa. Cantando apenas nos intervalos,
passaram em silêncio pela parte baixa do Catete e em seguida iniciaram de novo o canto de
Angola que a princípio me surpreendera. Lá seguiam, continuando seu trote lento e
sacudido! O que ia à frente usava calças que terminavam nos joelhos, uma faixa de lã
vermelha ao redor da cintura, uma rodilha sobre a cabeça, sujas franjas coloridas caíam
até a metade de suas costas e nas mãos uma matraca ornamentada com pedaços de pano e
com a qual marcava o compasso e abria caminho.
Os pregões de Londres são bagatelas quando comparados aos da capital brasileira.
Escravos de ambos os sexos apregoam mercadorias em toda a rua. Vegetais, flores, frutos,
raízes comestíveis, aves domésticas, ovos e todos os produtos rurais: bolos, pastéis,
roscas, doces e guloseimas, "toucinho celeste", etc., passam continuamente por
baixo das janelas. Se uma cozinheira deseja uma caçarola, ouve imediatamente o sinal do
caldeireiro ambulante; sua campainha é constituída por uma panela, na qual bate com um
martelo. Uma jarra de água está quebrada? Basta esperar um pouco, pois dentro de meia
hora surge um vendedor de moringas. Se alguém deseja remodelar seu serviço de mesa com
novos jogos de facas, copos, garrafas de mesa, pratos, talvez um galheteiro e alguns
artigos de prata, não precisará esperar muito tempo. Caso os vendedores de cutelaria,
cristais, porcelanas e prata não tenham ainda passado pela porta, aparecerão dentro de
pouco tempo. O mesmo acontece com todo artigo de uso feminino, desde vestidos de seda ou
mantas, até lenços e papéis de alfinetes. Sapatos, gorros enfeitados, belas jóias,
livros para crianças, novelas para as jovens e obras de devoção para os beatos, Arte
de Dançar, para os desajeitados, Escola de bem vestir para as jovens, Manual
de polidez para os rústicos, Oráculo das jovens, Linguagem das flores,
Relíquias de Santos e um Sermão em honra de Baco essas e milhares
de outras coisas são vendidas durante o dia.
Os vegetais são trazidos em cestas abertas e as aves em cestas fechadas; pastéis, doces
e artigos semelhantes são transportados sobre a cabeça em grandes latas, nas quais se
vê pintado o nome e o endereço do proprietário; gêneros secos, jóias, mercadorias de
luxo são expostos sobre balcões ou mesas portáteis, com caixas de vidro fixadas por
cima. Tais coisas são muito numerosas.
Os proprietários acompanham os artigos de prata e de seda, assim como o pão, pois neste
os negros não têm permissão de tocar. Quando um freguês chama, o escravo traz sua
carga, desce-a e permanece a seu lado até que o proprietário entregue os artigos
desejados. O anúncio dos vendedores de gêneros de secos é feito pela vara de jarda, que
é constituída como as réguas de duas pernas. Segurando-a perto da junta, as pernas
ficam continuadamente batendo uma contra a outra. A jarda brasileira é a vara,
equivalente a 43 ½ polegadas inglesas ou 1,10 metros. O côvado, antiga medida
portuguesa, também é utilizado e equivale a 28 ¼ de nossas polegadas ou 71
centímetros; assim sendo, a vara das ruas não é dividida de maneira igual, tendo uma
perna mais longa, que equivale ao côvado. São essas as únicas medidas usadas pelos
negociantes do Brasil. Os tecidos finos como seda, cambraia, crepes e outros, são
vendidos por côvados e os outros artigos por varas.
As jovens pretas minas e moçambiques são as mais numerosas, sendo consideradas como as
mais espertas vendedoras. Muitas delas levam consigo também uma criança, que prendem às
suas costas por meio de uma faixa amarrada ao redor da cintura. Entre o pano e seu corpo,
a criança aninha-se e dorme. Quando acorda, espia curiosamente para fora como andorinha
implume, espreitando pela beirada do ninho. Para proteger a criança contra o sol, a negra
coloca uma jarda de tecido de algodão na parte de trás da caixa que leva sobre a
cabeça; o pano serve como cortina e conforme seus movimentos atua também como uma
espécie de leque.
Os negociantes freqüentemente se distraem com charutos que guardam em lugar
curioso quando chamados para mostrar seus artigos. Um desses cavalheiros, com um estoque
extraordinariamente variado, foi chamado hoje até o corredor. Possuía pentes, sabão,
agulhas, perfumes, tintas, penas, fios, grara, livros, papéis, lápis, fósforos, jogos
de chá de porcelana inglesa, peças de fina cutelaria e não sei que mais, tão cheio se
encontrava seu balcão de vidro. Antes de aproximar-se, colocou o charuto atrás da orelha
e ao inclinar-se percebi, projetando-se da outra orelha, um palito de dentes.
A maneira como os fregueses chamam os vendedores de rua é digna de nota e de imitação.
Saem para a porta ou abrem uma janela e emitem um rápido som, mais ou menos como um xit
algo entre um assobio e a exclamação que se usa para espantar galinhas. É
estranho que tal chamado possa ser ouvido a grande distância. Se a pessoa está à vista,
sua atenção é logo despertada: volta-se e caminha diretamente para o freguês, guiado
agora por um sinal dirigido aos seus olhos e constituído pelo fechamento dos dedos da
mão direita duas ou três vezes, com a palma da mão voltada para baixo, como se
estivesse raspando alguma coisa, sinal usado universalmente e que significa : "Venha!"
Não se ouvem gritos para chamar pessoas nas ruas, pois daquela maneira silenciosa e
engenhosa todas as classes se comunicam com os amigos que passam ou com outras pessoas a
quem desejam falar. Tal costume, acredito, data da época clássica.
Aproxima-se agora o mais alto e mais escuro chapeleiro que jamais vi. Veste as habituais
camisas e calças pardas que chegam até os joelhos e os cotovelos. Em sua caixa vêem-se
belos gorros de seda, nada mais. Apregoa tais artigos, e após dar alguns passos, volta-se
de um lado a outro, à procura de bons fregueses.
Ontem, um jovem negro se aproximou com um par de sagüis ou macacos em minuatura. Parou e
ergueu a caixa de vime, que não teria mais de 40 centímetros quadrados. "Três
mil réis?", perguntei. "Não senhor, seis mil réis",
respondeu-me, apresentando sua mão direita, na qual havia indubitavelmente seis dedos.
Foi esse o único vendedor itinerante de macacos que encontrei nas ruas. No mercado
existem numerosos outros.
Ao aproximar-me de casa, encontrei um negro que vinha do campo trazendo uma vara muito
mais alta que ele e amarrado nela um lagarto, considerado como uma guloseima. Comprei-o,
pretendendo trazê-lo para os Estados Unidos, mas perdi-o na viagem de volta. Tinha 80
centímetros de comprimento e 15 de largura, na parte mais grossa. Uma pancada que deu com
a cauda no peito do escravo que auxiliava a segurá-lo numa caixa fê-lo perder a
respiração.
Certa manhã, há alguns dias, chamamos um vendedor de doces. Entre os doces e os artigos
de fantasia, viam-se numerosos santos: rústicas esculturas em madeira com 8 centímetros
por 13. Apanhando um São Domingos, perguntei-lhe o preço. O negociante negro sacudiu a
cabeça, dizendo: "Foi benzido; não pode ser vendido, mas apenas trocadol seu
custo é duas patacas". É dessa maneira que se dá valor às coisas sagradas. O
vendedor diz que custaram tanto e que serão trocadas por soma igual. Eu não poderia
comprar o fundador dos Dominicanos por 32 cents, mas por esse preço poderia adquiri-lo e
mais doze outros santos, se considerasse a transação como uma conveniência recíproca
entre o vendedor e mim, sem intenção de negociar prosaicamente. Como porém não se
devem obter lucros com os negócios piedosos, os vendedores necessariamente acompanham a
oferta de todo artigo com uma mentira, expondo com a seriedade e devoção que o artigo
exige no momento, a quantia que pagaram e que esperam receber por ele.
(EWBANK, Thomas. A vida no Brasil) |
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