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FEIRAS DO NORTE
A feira é o traço de união do sertão com
o mundo. Metido a semana toda nas brenhas, na dura lida do roçado ou do campeio das
rezes, varejando fechados e caatingas no rastro dum barbadão vasqueiro, cavando a terra
negra, o dorso nu, em violenta helioterapia que é muita vez seu prato de resistência, o
sertanejo espera o dia da feira na vila ou na cidade próxima, como um dia de festa.
É lá que vai encontrar os amigos e conhecidos de outras bandas, vindos, como ele, por
longos caminhos de serra e vale, ao chouto do cavalinho de duro fôlego, quando não
levantando a poeira da estrada com o lepte-lepte da alpercata, o chapéu de couro revirado
como um escudo contra a solama, o espírito leve das penas de todo dia, além da confiada
esperança no lucro que lhe venha dos caçuás atestados de jerimuns e macaxeiras, de cana
ou milho verde.
Já de longe, da entrada do povoado, vai vendo o risco amarelo ou zarcão das paredes do
mercado, com os seus quartos onde se alojam as vendas regulares dos produtos doutras
zonas, arroz, açúcar, querosene, carne de sol e tecidos, como também os pequenos
restaurantes de sinhá Rita ou da tia Zefa, para um almocinho mais enfeitado do que o do
seu pobre rancho.
No largo pátio do mercado, batido de sol africano, que se derrama sobre os toldos das
barraquinhas e os fichus das mulheres arranchadas diante dos pequenos negócios, os
tabuleiros de beijus, pés-de-moleque, cuscuz, tapioca e bolos de milho, a algazarra é
grande, desde as primeiras horas do dia.
Ninguém tem pressa de vender, o gosto maior é o de dar à língua, para uma conversinha
que vai se traçando de canto a canto, como uma renda daquelas mesmas que certa moça de
dedos de fada está mostrando aos fregueses de mais posse, como o moço engenheiro que
veio da capital fazer uns estudos para o futuro traçado da rodagem, ou a noiva da vila,
em preparo de enxoval.
São o mostruário o próprio chão da praça de areia ou as calçadas das casinhas de
parede caiada, quando a feira se reúne fora das portas, no largo da Matriz ou no próprio
mercado ao ar livre. Há de "um tudo", desde a rapadura, as cuias de ovos, os
artefatos de palha de carnaúba ou ouricuri, conforme as terras, colheres de pau, a
ingênua cerâmica de todo o Brasil. Há também os produtos mais nobres do sertão, as
rendas de bico ou de labirinto, já faladas, os artigos de couro trançado, rebenques,
chapéus marcados a fogo, selins e arreios do mais belo acabamento, a caprichosa cutelaria
de certas zonas, como no Crato, facas de lâmina de aço de Toledo, o cabo cravado como
uma jóia, com incrustações não raro de ouro e de marfim, a folha capaz de varar moedas
de níquel nos balcões das vendas.
Feiras de Limoeiro, de Russas, de Morada Nova, no meu sertão do Ceará, por onde
começaram as andanças de metade da minha vida, onde os meus alvoroços de rapaz
naturalmente preferiam, ao rigor da mais segura marca do artigo, os dengues de certas
feirantes de olhos cor de âmbar, braços que nem o velho Machado de Assis saberia cantar
devidamente, peitos de rola, fazendo ninho no vestido de chita, "atestados de
malícia", como dizia o clássico lusíada, a boca mais viçosa do que qualquer fruta
temporã dos balaios defronte. Caboclinhas das várzeas do Jaguaribe e do Banabuiu, que eu
tinha ido descobrir tão longe, para a companhia das praierinhas evocadas nos meus
primeiros contos do Meireles, tanta vez apenas vistas uma hora, para a lembrança de toda
a vida. Estou vendo de novo, por exemplo, agora mesmo, a Amélia do Pedro Aleijado, que
parecia ter nos pés as asas de Mercúrio, tanta a facilidade com que a víamos, um dia em
Russas, outro a cinco léguas, em Limoeiro, logo mais em União, das mais belas criaturas
que até hoje cruzei por este mundo, a pele vizinha do ouro, olhos da mesma Carmen, uns
cabelos que era ver seda negra, um corpo de dar bebedeira na gente. E uma graça de
requebro, um modo de rir, com uma flor no canto da boca, uma tamanha insolência de beleza
em toda a figura, quando punha as mãos no quadril e derramava o olhar, de banda, como um
óleo, amolecendo e derrubando toda reserva de resistência dum cristão. Pura fortuna e
glória do sertão, bem feita e ágil como o meu cavalo Gavião, tão longe das
sofisticadas mulatas dos "shows" de hoje em dia, era bem uma princesa árabe
transviada na roça para pábulo do primeiro cabra desempenado que a cobiçasse.
Feiras de Lençóis, Andaraí e Mucugê, por onde eu iria ainda, dez anos depois, rever os
mesmos patrícios da minha mocidade, não mais, todavia, na roupa de couro dos vaqueiros
nordestinos, mas no terno de brim ou algodãozinho do garimpeiro das Lavras, "fazendo
o saco" de provisões da semana, na véspera de se meter seis dias seguidos nos
corações da serra do Veneno ou nos boqueirões de Santo Antônio, do São José ou do
Barro Branco.
Feiras de Valença, do Cairu, de Taperoá, com a especialidade da pequena Mesopotâmia do
sul da Bahia, os camarões secos no espeto, dum sabor específico, as laranjas de Cajaíba
de que só as do Cabula eram iguais, a farinha de mandioca de fama tão grande, os galões
de azeite de dendê que é ouro puro, os panacuns de milho verde e caranguejo.
Feira de Água de Meninos, no Salvador, um bazar africano, em pleno areal das docas, ao
pé do mar que Jorge Amado celebrou como ninguém, o Mar Morto, o mar de Dona Janaína,
namorada de Dorival Caymmi pequeno mundo de cerâmica do Recôncavo, donde salta,
aqui e ali, Exu bem preto, com a boca escancarada em rubro de fogueira do inferno,
floresce a policromia de jarros e bilhas arabescadas ao vivo, espalhando-se em canteiro
flamejante dentre as areias da praia.
Quanto mais distante a vila ou povoado, a feira mais típica e mais brasileira. Toda a
vida do resto da semana ganha uma energia de que nem sequer se suspeita nos outros dias.
Ao lado das barraquinhas ou do simples amontoamento dos gêneros pelo chão, andam os
grupos de moças e rapazes, na hora do namoro mantido pacientemente no ciclo
hebdomadário. Há as comadres, valentemente tesourando as vizinhas. Há os cantadores que
vêm de longe também, com a harmônica e a viola e renovam, há quatro ou seis séculos
de distância, no tempo e no espaço, os jograis e troubadours das eras de Dom
Sebastião.
Esses são em muitas das feiras o centro solar da animação, a glória de alguns enchendo
ainda hoje a memória de muitas cidades sertanejas, quando não mesmo da capital.
Um do meu tempo, famoso em Fortaleza, em cujo mercado ia cantar todos os domingos,
acompanhado na sua peregrinação pela mulher que durante a semana lia para ele folhetos e
manuscritos envelhecidos, era o cego Sinfrônio, sem rival durante dez ou quinze anos.
Leonardo Mota deixou para a posteridade o traço mais vivo da passagem desses rapsodos
errantes que só a glória de cantar blasonam, em rompantes de empáfia e gabo próprio.
Foi assim, por exemplo, que Sinfrônio se apresentou na casa do folclorista:
Anda já em quarenta ano
Que eu vivo somente disso.
Achando quem me proteja
Eu sou bom neste serviço
Eu faço vez de machado
Em tronco de pau mucisso....
Esta minha rabequinha
É meus pés e minhas mãos,
Minha foice e meu machado,
É meu mio e meu feijão.
É minha planta de fumo,
Minha safra de algodão.
De outro deles, um piauiense meio letrado, ouvi certa vez esta sextilha, da mais
contundente filosofia:
Falar em nobreza e cor
É um pedantismo teu.
Morra eu e morra um nobre
E sepulte o nobre mais eu.
Que amanhã ninguém divide
O pó do nobre do meu.
De deliciosa frescura e espontaneidade são também as estrofes de amor, cantadas nas
feiras, como esta que Jacó Passarinho, outro cantor do Ceará, nos deixou igualmente na
memória:
De amor a gente não muda,
De ano em ano, mês em mês.
Amor é que nem bexiga,
Só dá na gente uma vez.
Muitas vezes, ao cair da tarde, quando os negócios já estão quase no fim e cada um se
prepara para ajeitar os trens e se pôr de marcha para casa, os ânimos de dois valentes,
aquentados por alguma dose mais liberal de cachaça do Cumbe, do Acarape ou de Santo
Amaro, pegam fogo e já rompe, no alegre brouhaha, a celeuma dum bate-boca que
não tarda a degenerar em rolo grosso.
Lambedeiras de palmo surgem ao sol, os rijos jucás de metro sobem no ar, e é muita
cabeça lascada, quando um não fica estirado no pó, agarrando com ânsia as entranhas
que querem bolsar para fora. Trilam apitos dos fiscais da feira, os policiais displicentes
que andavam fazendo roda, como galãs cinematográficos, a algumas das mocinhas mais
requestadas, voam no rastro da briga, mas quando chegam em geral não há mais nada que
fazer, senão levar para a farmácia para um remendo de esparadrapo o do cocuruto em
sangue, ou providenciar uma rede para o transporte doutro ferido mais grave ou dalgum
morto.
Com isso, os retardatários levantam a tenda, as comadres que desde a manhã andavam num
canto a outro, em conluios animadíssimos, acocoradas na primeira sombra ao alcance da
mão, remexendo mexericos e fazendo as mais variadas "trancinhas" com a vida
alheia, benzem-se na boca, tratam de juntar os trens igualmente, reservando para a
próxima semana os restos do cabedal de comentários.
Os namorados, que vão ficar apartados até o próximo sábado ou quarta-feira, trocam
saudades e recomendações, numa fartura de olhares longos onde Amor derrama seus filtros
mais doces e doloridos.
Outra vez os animais de carga se atrelam, estalam bruacas de couro e caçuás de cipó
trançado, pendentes das cangalhas de madeira, enfileiram-se as tropas, cada feirante toma
seu rumo, os minguados níqueis que sobraram das barganhas do dia ao fundo do bolso ou
amarrados na ponta do lenço, metido no seio, quando se trata das mulheres. E, novamente,
a praça se despovoa, a vida em câmara lenta vai tomando conta do lugar, como sempre, lá
da Matriz vem o toque das Ave Marias, pelas longas e dormentes estradas de retorno as
primeiras sombras da noite ou o aguaceiro do luar do sertão se despejam, na imponderável
grandeza das coisas que não mudam, desde que o mundo é mundo, na marcação do ciclo que
a feira, relógio da vida sertaneja, acabou de encerrar naquela hora.
(LIMA, Herman. Imagens do Ceará) |
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