| As informações de Couto de
Magalhães sobre a teogonia selvagem vulgarizam na planície a imagem da lua cheia: Cairé
por ele revelada como instrumento destinado a despertar as saudades no amante
ausente. Segundo o experimentado sertanista, os tupis consideravam as luas, cheia e nova,
elementos auxiliares de Rudá, os deus do amor, e tinham invocações semelhantes às que
cantavam aquele deus, e para o mesmo fim de trazer os amantes ao lar doméstico, pelo
poder da saudade. Eram estas as invocações à lua cheia (cairé) e a lua nova (catiti): Cairé, cairé nú
Manuára danú çanú
Eré ci erú
Piape amu
Omanuara ce recé
Quanhá pitúna pupé
Catiti, catiti
Imara notiá
Notiá imára
Espejú (fulano)
Emú manuára
Ce recé (fulana)
Cuçukui xa ikó
Ixé anhú i piá póra.
Cuja tradução, apesar da ignorância do sentido de
alguns versos, é assim apresentada:
Eia, ó minha mãe (a lua) fazei chegar esta noite ao
coração (do amante) a lembrança de mim.
Lua nova, ó lua nova! Assoprai em fulano lembranças de
mim, eis-me aqui, estou em vossa presença; fazei com que eu tão somente ocupe seu
coração.
E existência de um deus do amor na teogonia tupi, como
pretende Couto de Magalhães, é formalmente contradita pelos estudos efetuados em torno
da alma aborígene e "incompassível com o seu fetichismo astrolátrico ainda mal
definido" opina Basílio de Magalhães. Entretanto o autor de O Selvagem
afirma que ouviu esses cantos repetidos as populações do Pará, conservando deles até a
música.
É imenso, variado e pitoresco o lendário indígena
criado em torno da lua cheia. Uma das suas mais interessantes manifestações encontra-se
entre os índios Inay e me foi narrada pelo paulista Pedro Faber Halembrck, que com eles
convive e se faz revelador de seus costumes bem como de um curioso sistema de contagem
pelas rotações do sol. Vede como é delicioso em sua ingenuidade este conto colhido
entre os índios Inay, esta umbesáua cheia ao mesmo tempo, de ternura e
malícia:
OS MARIDOS DA LUA
O indiozinho deitado na rede de tucum, está quase
dormindo. A índia moça canta junto, sob uma árvore uma coisa esquisita que ninguém
entende. De repente, um raio da lua, sem pedir licença entra pelas folhas e vai bater na
rede em que o indiozinho está quase dormindo.
O menino esfrega os olhinhos espia pela fresta e aponta
para o alto, perguntando o que é aquilo redondo, bonito , prateado, que esta lá em cima
no céu...
E a mãezinha dele explica. Explica lá na sua língua,
que ninguém entende. Aquilo é a moça lua. Sim, a moça lua. Uma moça que tem dois
maridos. O primeiro é um tipo mau, escasso, brabo. Nada lhe dá pra comer. Promete-lhe
surras. E a pobrezinha vai ficando magra, delgada, fina, doentinha que uma tristeza. Faz
até dó. A gente olha cá de baixo e vê a coitadinha. Parece um esqueleto, um
esqueletinho curvo, suspenso no céu.
Quando ela já está quase na espinha aparece então o
outro marido. Esse é bonzinho meigo, carinhoso. Leva-a para casa. Trata bem dela. Dá-lhe
ervinhas macias, frutas gostosas, leite de castanha. E a lua começa então a engordar
ficar outra vez bonita, nova, clara, leitosa, redonda como uma bola que a noite iluminasse
com leite.
É assim como essa imaginação fácil, curiosa e
espontânea que a mãe do indiozinho lhe ensina aquilo que nós por aqui, chamamos quarto
minguante e quarto crescente, isto é, as fases da lua no seu movimento de translação em
torno da terra.
(ORICO, Osvaldo. Vocabulário de crendices
amazônicas) |
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