Ainda o Senhor Morto andava em procissão
pelas pedrentas ladeiras de Olinda e já o negro Gaudêncio avisava pelas casas
conhecidas:
- Óiem lá que amanhã nós temo fonção.
Havia quem achasse aquilo uma falta de respeito:
- Credo! Que quentura a dessa gente!
Mas o Gaudêncio se explicava. E todos, afinal, acabavam dando-lhe razão. É que o
maracatu da Tedó já anunciara a função para o sábado. O
do Neco, também. E não havia o "Cabinda" de ficar por baixo dos outros. Ah!
lá isso era que não!
No sábado da Aleluia, mal pelos templos da cidade caíam os panos pretos dos altares,
sentia-se o bombo impaciente chamando.
O Gaudêncio, coitado, apesar dos seus sessenta, não parava um instante.
E logo ao escurecer, na estrada do cemitério, começava o batuque monótono e igual. Não
era aquilo, propriamente, um "ensaio".
A data dava apenas pretexto a um samba. Mas tinha-se pelo menos a certeza de que tudo
estava a postos, de olhos já fitos no Carnaval do outro ano.
Dançava-se a noite do sábado, entrava-se pelo domingo e até as primeiras horas da
segunda a toada do batuque subia, regular como uma prece:
Os reis que vêm da China
Rainha se coroou
Reis ô
reis ô
Rainha se coroou
Mais além, a velha Tedó, então rainha viúva do "Oriente", realizava também
seu banzé. Negralhões
sinistros ladainhavam:
Lanceiro seguro
Com sua lança na mão
E as negrinhas, dengosas, respondiam:
Levante sua bandeira
Defenda sua nação
No maracatu do Neco, o mais rico, a assistência era ainda maior.
Só de batedores de bombo havia três, afora não sei quantos ganzás
e cinco ou seis gonguês.
Situados na mesma estrada, a trezentos metros se tanto um do outro, nem fora preciso
declarar a rivalade que havia entre eles.
Ganhava nisso o pitoresco, cada qual apresentando-se com maior caráter e um maior senso
de ridículo.
Se o Neco, um moleque cinzento e da carapinha mais rebarbativa, tratada a óleo de coco, se o Neco, por exemplo, punha
uma calça de cetim amarelo e uma casaca de seda azul bordada a ouro, mestre Gaudêncio se
apresentava em gorgorão vermelho, bancando o cardeal, e
apondo ainda à casaca duas dragonas de antiga farda da
Guarda Nacional.
Somente numa coisa pareciam todos acordes: no uso do pince-nez.
Rei ou rainha sem pince-nez no exercício do cargo, não era digno de apreço.
Tinha de gemer pra ali com um pince-nez do legítimo.
Isso, de começo, não agradava ao Gaudêncio, pela repulsa viva que seu nariz chato
demonstrava ao instrumento, não se deixando agarrar por ele.
Mas enfim lá viera um de encomenda, de molas decerto mais positivas e sustentara afinal.
Esses primeiros sambas após a quaresma, se poderiam aliás considerar meros pretextos
para confirmar a coesão do grupo.
Dançava-se até o domingo da Pascoela.
Mas as funções começavam com regularidade na proximidade de Santo Antônio.
Já aí se discutia o figurino do rei e da rainha. Alvitava-se uma nota nova, formava-se o
quanto de quota cabia a cada nobre.
Que isso de quota, afinal, era coisa pra inglês ver. Cada um dava o que podia. As
despesas eram poucas. Meia dúzia de garrafas de cachaça a mil e tanto com o casco e mais
nada.
O vestuário para o saimento era comprado por conta própria. Nem obedecia a figurino. E
nisso decerto é que estava todo o pitoresco dos grupos.
Seis metros de uma belbutina safada, amarelo gema de ovo, uma
vez de papel doirado e temos aí pelo Carnaval seu Cristino, um negrão alto, possuidor
dos mais finos cambitos da cidade, paramentado que só um
rei.
Oia só pra eu!
E surge logo depois o Teteu, passeando a sua importância numa casaca verde, de cetim.
O rei mostra a cacaria dos dentes num sorriso:
- Deixa de bestera, moleque. Eu sou é osso.
Batem de novo os bombos. É a rainha que saai do mocambo pro terreiro.
Santo Deus! Não há quem diga que está ali a negra Benta que todo santo dia faz tapiocas
na quitanda do Nosinho do Amparo. Vem cinzenta de pó; o cabelo, à custa de óleo, aderiu
ao quengo.
Com um vestido azul celeste, de velha seda lavrada, o sapatinho doirado e as meias
brancas, quase deixa o pessoal de queixo caído.
Inté nem parece a Benta! diz o Generoso. Tá mermo que uma rainha! Que
orgúio! Que sacudido! E entonce o pincinê!
Que pra botar pince-nez a Benta está sozinha. Fica que só uma dona.
* * *
Logo na tarde de domingo de Carnaval começam a descer para o Recife os maracatus.
Dos mais remotos subúrbios vêm os grupos uns ricos e ostentando o que há de mais
vivo; outros pobres, cada qual com seu rei ou rainha, ou os dois juntos, suados,
ridículos, tresandando a suor.
Por mais humilde, dispensam tudo, até o séquito.
Não dispensam a umbela. Rei sem umbela não é rei.
Há as doiradas, dum doirado velho e que se diriam roubadas a um templo; há-as de seda,
roxas, agaloadas de ouro, amarelas, vermelhas, azuis
Um negrão sinistro sustenta-a com a ênfase que convém a um factotum.
E o préstito lá vai
Que convicção a desses reis de mentira, labutando a vida inteira, trazendo ainda
na pele requeimada as lanhadas dos seus antigos senhores!
Só nesses três dias de Momo são felizes. Felizes porque têm a ilusão do mando, a
ilusão de que podem, de que são senhores.
Tristes e ingênuos diabos!
[1927]
(VAREJÃO, Lucílio. In RIEDEL, Diaulas (org.) Os canaviais e os mocambos;
Paraíba, Pernambuco e Alagoas) |
 
Este conto foi estampado na Feira Literária, de São
Paulo, em maio de 1927. Outras produções do escritor pernambucano foram os romances O
destino de Escolástica (1920), A mulher do próximo (1921), De que morreu
João Feital (1922) e alguns volumes de contos.

Banzé: Festa popular
Belbutina: Tecido fino de algodão
aveludado
Bombo: Tambor de grandes dimensões e
sonoridade grave
Cambito: Perna fina
Carapinha: O cabelo crespo e lanoso dos
negros
Dragona: Galão ou peça de metal amarelo
que os militares usam nos ombros como distintivo.
Factótum: Aquele que se julga ou
mostra-se capaz de tudo fazer
Função: Solenidade, festividade
Ganzá: Espécie de maracá; cilindro de
folha-de-flandres, fechado, que contém grãos ou seixos, e é munido de um cabo
Gonguê: Agogô de uma só campânula
Gorgorão: Tecido encorpado, de seda ou
de lã
Negralhão: Aumentativo de negro
Pascoela: O domingo imediato ao da
Páscoa
Pince-nez: Pincenê: óculos sem haste,
que com uma mola prende no nariz
Quengo: Cabeça
Quentura: Calor
Rebarbativa: Rude; desagradável;
repelente
Séquito: Comitiva, cortejo
Tresandar: Exalar
Umbela: Guarda-chuva |