Luta simulada entre cristãos e mouros,
representada por ocasião de festas religiosas ou acontecimento social de relevo. No
Brasil eram vistas a cavalo as duas alas inimigas, como Saint-Hillaire assistiu em Minas
Gerais, ou de pé, armados os castelos à beira-mar, como Henry Koster presenciou na ilha
de Itamaracá. Não conheço registo brasileiro anterior ao século XVIII. Em Portugal há
menção desde o século XV, com incontáveis variantes, aparecendo as figuras de Carlos
Magno, Oliveiros, Ferrabrás, o almirante Balão, a princesa moura Floripes, etc.
Mouriscada em Portugal. A velha Mourisca portuguesa, como Bluteau registou, não a tivemos
no Brasil. "Compunha-se de muitos moços vestidos à mourisca, com seus broquéis e varas a modos de lanças, com o seu rei de alfanje na mão, e este dando o sinal se começava a travar, ao som
do tambor, uma espécie de batalha". Os mouros só intervém no Brasil para
enfrentar e perder ante os cristãos. Essa Mourisca vinha das obrigações devidas pelos
mouros forros em ocasiões de festa (Monarquia lusitana, t. 6, fol. 16, col. 2) e
concorria em todas as solenidades, como se lê na Jornada de Nicolau Lanckmann,
representante de Frederico III, nas núpcias com dona Leonor, irmã de dom Afonso V de
Portugal, descrevendo as festas em Lisboa (Luciano Cordeiro, Uma sobrinha do infante,
Lisboa, 1894, 109, 112, 113, 118, 119).
Mourisco era ainda uma dança de par, baile mourisco, que Lopo dAlmeida registou em
carta a el-rei d. Afonso V: "
mandaram bailar meu sobrinho com Beatriz Lopes,
bailo mourisco" (opus cit, 173) e que ainda resiste na ilha da Madeira
(Carlos M. Santos, Tocares e cantares da ilha, 65-72, Funchal, 1937, Trovas e
bailados da ilha, 291, Funchal, 1942). Rodney Gallop cita uma moreska em
Cruzola, na Dalmácia (Portugal, A book of folk-ways, Cambridge,
1936, 175).
A luta de cristãos e mouros ainda se vê em Portugal. Gallop estudou uma assistida no
Sobrado, perto do Porto, entre mouriscos e bugios. No Brasil os cristãos e mouros
conservam o aspecto cavalheiresco de justa leal, findando
pela rendição e conversão dos mouros. Quando a chegança, onde os mouros participam,.é
tipicamente um assunto naval, o cristãos e mouros é uma página de cavalaria, com
volteios, floreado de lanças, interpelações e diálogos em linguagem arrogante e
belicosa.
Martius assitiu à cavalgada luxuosa no Tijuco, comemorando a aclamação de dom João VI.
Cristãos e mouros vestiam veludo azul e vermelho, bordados a oiro,
e fizeram um lindo jogo de agilidade, com rondas e giros fidalgos, antes da batalha (in Antologia
do folclore brasileiro, 83) e em Ilhéus viu o desfile com o embate subseqüente (idem,
86). Saint Hillaire descreve identicamente. Na inauguração da cidade de Goiânia (1942),
Renato Almeida estudou o baile eqüestre, de cristãos e mouros vestidos a caráter, em
batalha sob o esquema das velhas quadrilhas de cavaleiros. Não havia cantos e música,
como aliás não há nessa cavalgata. Esses torneios existem
secularmente na Península, desde a expulsão dos árabes. Garcia de Resende narra o
encontro do rei dom João II em Alvisquer, ribeira de Santarém, com seu cunhado, dom
Manuel, vestido, assim como o séquito, de mouros. Houve uma galante escaramuça, que
pareceu muito bem, informa o cronista.
Sobre as danças populares de Portugal, para confronto da origem e modificações das
brasileiras, ver M. Sousa Pinto, Danças e bailados, Lisboa, 1924, e os estudos do
folclorista português Luís Chaves, Danças religiosas, separata da Revista de
Guimarães, fascículo 4 de 1941; Danças, bailados e mímicas guerreiras,
separata do v. III, de Ethnos, Lisboa, 1942; Páginas folclóricas (3ª
parte, Pantomimas, danças e bailados populares), Porto, 1942. No México,
Robert Ricard, Sur les fêtes de moros y cristianos au Mexique, Journal de la
Société des Americanistes de Paris (JSAP), XXIV, 51-84, 287-291, 1932, XXIX,
220-227, 1937, XXX, 357-376, 1930; Compte rendu de la XVIe semaine de missiologie de
Louvain, 122-134, Bruxelas, 1938; John E. Englekirk, Notes on the repertoire of
the New Mexican spanish folktheater, Southern folk-lore quaterly, v. IV, nº
4, Gainesville, Flórida, dezembro de 1940.
O professor Englekirk informa que na dedicação da primeira igreja no Novo México na ciudad
de San Juan de los Caballeros, a 8 de setembro de 1598, foi representado o drama Moros
y Cristianos, de caráter popular. O tema é idêntico. Os mouros são vencidos e
batizados. Ver Aurélio M. Espinosa Jr., The field of spanish folk-lore in America,
33, onde denomina the obiquituos Moros y cristianos, southern folk-lore quaterly,
V, 1, março de 1941. O folclorista sansalvadorenho doutor Rafael Gonzales Sol, Fiestas
civicas, religiosas y exhibiciones populares de El Salvador, 1945, informa que o auto
de Moros y Cristianos é representado em dezesseis lugares somente no El Salvador.
Os combates simulados entre cristãos e mouros eram uma tradição aristocrática
portuguesa. Teófilo Braga (História do teatro português, I, 278, Porto, 1870),
recorda uma das festas famosas onde a cena se repetiu: "Manuel Machado de Azevedo,
cunhado de Sá de Miranda, recebeu o infante dom Luís e o cardeal dom Henrique, então
arcebispo de Braga, em sua residência, no batizado do seu filho, festivamente. Houve
"Comédia" no solar de Crasto onde ele morava". O marquês de Montebelo, na
vida de Manuel Machado de Azevedo, descreve (p. 56-58, cap. VI) as festas. Entre estas
houve esse entremez:
"Apenas avian los Infantes recebido sus salvas, quando de entre los arboles de la
otra parte les hizieron una salva de mas de dos mil mosquetes, y arcabuzes y todos en un
tiempo tan conformes, que todos se oyeron juntos, y ninguno fué segundo. Assi lo tenia
Bernardim Machado prevenido, y de entre los nublados de la polvora, que toldaron el Sol,
el Ayre y el Rio, salieron doze barcas, imitando otras tantas galeras, que divididas em
dos partes, fingieron una batalla de Malteses (oy se dize assi, que entonces era de Rodes)
y Turcos. Estes, con sus Abitos, de que Bernardim Machado que en aquel dia era Gran
Maestre, dando a mas de ochenta la misma Cruz que traía. Venció San Juan paró la
batalla, aclaró-se el ayre".
A festa é anterior ao ano de 1523, em dezembro, Solimão venceu Villiers de LIsle
Adam, expulsando os Cavaleiros de São João da ilha de Rodes. Embora o título popular se
mantenha Cristãos e Mouros, recordando os embates da conquista da Península aos
muçulmanos, na representação do auto o mouro é o turco, vindo da Turquia, onde seu
deus é rei. É convergência temática para o ciclo das guerras marítimas no
Mediterrâneo, entre os Cavaleiros de Rodes e depois de Malta contra os turcos e
porsteriormente corsários argelinos. A Cavalgata de Cristãos e Mouros ou o auto, com os
episódios de bordo, são ainda representados no Brasil, especialmente em São Paulo,
Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Nordeste (Rio Grande do Norte e Ceará, neste figurando
como cena do fandango), Goiás, etc.
(CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore
brasileiro) |
 Alfanje: Sabre de
folha curta e larga
Broquel: Escudo antigo, redondo e pequeno
Cavalgata: Reunião de pessoas a cavalo
Justa: Luta, combate
Oiro: variação de Ouro
Veja também:
- Chegança
dos Mouros.
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