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PIMENTA

Capítulo XLVIII
EM QUE SE DECLARA QUANTAS CASTAS DE PIMENTA HÁ NA BAHIA

À sombra destes legumes, e na sua vizinhança, podemos ajuntar quantas castas de pimentas há na Bahia, segundo nossa notícia; e digamos logo da que chamam cuiém, que são tamanhas como cerejas, as quais se comem em verdes, e, depois de maduras, cozidas inteiras com o pescado e com os legumes, e de uma maneira e de outra queimam muito, e o gentio come-a inteira, misturada com a farinha.

Costumam os portugueses, imitando os costumes dos índios, secarem esta pimenta, e depois de estar bem seca a pisam de mistura com o sal ao que chamam de juquiraí na qual molham o peixe e a carne, e entre os brancos se traz no saleiro e não descontenta ninguém. Os índios a comem misturada com a farinha, quando não têm que comer com ela. Estas pimentas fazem árvores de quatro e de cinco palmos de alto, e duram muitos anos sem se secar.

Há outra pimenta, a que pela língua dos negros se chamam cuiemoçu; esta é grande e comprida e depois de madura faz-se vermelha; e usam dela como da de cima; e faz árvores da altura de um homem e todo o ano dá novidade; sempre tem pimentas vermelhas, verdes e flor, e dura muitos anos sem secar.

Há outra casta, que chamam de cuiepiá, a qual tem bico, feição e tamanho dos gravanços; come-se em verde, crua e cozida como a de cima, e como é madura faz-se vermelha, a qual queima muito; a quem as galinhas e pássaros têm grande afeição; e faz árvore meã que em todo ano dá novidade.

Há outra casta que chamam sabãa que é comprida e delgada, em verde não queima tanto quanto é madura, que faz-se vermelha, cuja árvore é pequena, dá fruto todo o ano, e também se usa dela como da mais.

Há outra casta que chama cuiejurimum por ser da feição de abóbora assim amassada; esta, quando é verde, tem a cor azulada, e como é madura se faz vermelha; da qual e em todo ano dá novidade,

Há outra casta que chama cumari, que é bravia e nasce pelos matos, campos e pelas roças, a qual nasce do feitio dos pássaros que a comem muito, por ser mais pequena que gravanços; mas queima mais que todas que dissemos, e é mais gostosa que todas; e quando é madura faz-se vermelha, e quando se acha desta não se come outra; faz-se árvore pequena tem as flores brancas como as mais, e dá novidade em todo ano.

(SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil em 1587)

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