COMO
ELES COMERAM UM PRISIONEIRO E ME LEVARAM PARA A FESTA
(capítulo 36)
Alguns dias depois, um prisioneiro serviria de refeição numa
aldeia de nome Ticoaripe, localizada a cerca de seis milhas de Ubatuba. Alguns modradores
de nossa aldeia também quiseram ir até lá e levaram-me junto para a festa, em seu
barco. O prisioneiro que eles tinham a intenção de comer pertencia à tribo dos
Maracaia.
Sempre que um prisioneiro vai ser morto, eles preparam aquela beberagem chamada cauim.
Na noite anterior ao banquete da festa fui ter com o escravo e perguntei-lhe: "Você
está bem preparado para a morte?" Sorriu, afirmando que sim, que estava com tudo o
que era necessário, só a mussurana é que não era longa o suficiente, em sua
terra era mais bem feita. Referia-se assim ao cordão, da grossura de um dedo e feito de
algodão, com que os prisioneiros são amarrados. Depois continuou a falar, como se
estivesse indo à quermesse.
Eu tinha comigo um livro português, que os selvagens haviam trazido de uma nau tomada de
assalto com o auxílio dos franceses e me deram.
Depois de deixar a companhia do prisioneiro, li um trecho do livro, mas fiquei com tanta
pena do homem que voltei a procurá-lo com o propósito de continuar a nossa conversa, já
que os Maracaia são amigos dos portugueses. Contei-lhe que também era um prisioneiro,
como ele, e não tinha vindo à festa por ter vontade de comê-lo, mas porque meus
senhores me trouxeram. Ele respondeu: "Sei muito bem que sua gente não devora
homens."
Tentei consolá-lo com o argumento de que iriam comer apenas a sua carne, ao passo que seu
espírito iria para um lugar aonde os espíritos de minha gente também iam, no qual se
encontrava muita alegria. Quis saber se isso era mesmo verdade e eu afirmei que sim. Ele
disse que nunca chegara a ver Deus, então respondi que o veria numa outra vida. Com isso,
terminei a conversa e fui embora. Ainda naquela mesma noite, surgiu um vento forte,
arrancando pedaços dos tetos das cabanas. A reação imediata foi a cólera dos
selvagens, que falavam: "Aipo mair angaipaba ybytu guasu omou", o que
significa: "O homem mau, o santo, trouxe o vento, pois no dia anterior ele voltou seu
olhar para o couro dos trovões". Referiam-se assim ao livro. achavam que era eu quem
tinha feito aquilo, de propósito, porque o escravo era amigo nosso, dos portugueses, e eu
queria impedir a festa com o tempo ruim. Como eles ficaram muito irritados com aquilo,
pedi a Deus nosso Senhor: "Senhor, protegeste-me até agora, continua sendo meu
protetor".
Ao nascer do dia, o clima estava bom novamente, e eles beberam bem humorados. Eu, por
minha vez, fui falar com o prisioneiro e expliquei a ele que o grande vento tinha sido
Deus querendo levá-lo para junto de si. No dia seguinte, ele serviu de alimento. O modo
como isso aconteceu é assunto descrito em um capítulo posterior.
COMO ELES COMERAM O
PRIMEIRO DOS DOIS CRISTÃOS ASSADOS: JORGE FERREIRA, FILHO DO COMANDANTE PORTUGUÊS
(capítulo 45)
Quase em frente à minha cabana ficava a do chefe Tatamiri,
possuidor de um cristão assado. Segundo seu costume, mandou preparar a beberagem, e para
isso reuniram-se vários selvagens, cantando, dançando e divertindo-se muito. No dia
seguinte, prepararam e comeram a carne assada. Quanto à carne do outro, de Jerônimo,
ficou por quase três semanas pensurada na cabana em que eu também vivia, dentro de uma
cesta sobre o fogo. Com isso, tornou-se seca como madeira. O fato de não ter sido comida
por tanto tempo tinha o seguinte motivo: Paraguá, a quem ela pertencia, havia partido
para procurar as raízes das quais se produz a beberagem que devia ser bebida durante a
refeição com a carne de Jerônimo. Desse modo, o tempo ia passando, mas eles não
queriam levar-me à nau antes da festa em que comeriam a carne de Jerônimo. Enquanto
isso, a nau francesa, que estava ancorada a cerca de oito milhas de Ubatuba, foi embora.
Fiquei muito perturbado ao receber esta notícia. Por sua vez, os selvagens achavam que,
como os franceses normalmente vinham até ali todo ano, eu devia estar satisfeito.
COMO ELES COMERAM O
OUTRO DOS CRISTÃOS ASSADOS, JERÔNIMO
(capítulo 48)
Quando Paranaguá tinha à mão tudo o que era
necessário, mandou preparar a beberagem para o banquete em que a carne de Jerônimo
deveria servir de alimento. Durante a festa, trouxeram os dois irmãos até o local onde
eu estava, e também Antônio, o prisioneiro do filho de meu senhor. Desse modo, nós
quatro, os cristãos, ficamos reunidos. Fomos obrigados a beber junto com eles. Contudo,
dissemos antes a nossa oração a Deus, para que Ele fosse misericordioso com a alma de
Jerônimo, como também com as nossas quando chegasse a hora. Os selvagens tagarelavam
conosco e estavam contentes, mas nós nos sentíamos muito infelizes. Na manhã seguinte,
bem cedo, eles cozinharam a carne de novo e a comeram. Em pouco tempo tinham consumido
tudo. Ainda no mesmo dia, levaram-me para ser dado de presente. Quando me despedi dos dois
irmãos, pediram que rezasse a Deus por eles, então lhes expliquei aonde deviam ir, na
serra, caso conseguissem fugir. Lá os selvagens teriam mais dificuldades em seguir sua
pista, como aconselhei, pois eu conhecia bstante bem a serra. Foi isso o que acabaram
fazendo, já que conseguiram se libertar e fugir. Se foram capturados novamente, eu não
sei.
(STADEN, Hans. A verdadeira história dos
selvagens
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