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UMA AVENTURA DE PEDRO MALASARTES
(Tadeu de Serpa Martins)

Era um turco muito rico
Tinha fazendas de gado
Traficante em seus negócios
Como nunca tinha achado
Quem se metia com ele
Sempre saía logrado

Morava em sua fazenda
Se orgulhava da riqueza
Era um sujeito orgulhoso
Só pensava na grandeza
Nunca ligou imprtância
Às misérias da pobreza

Em outro lugar distante
Morava um velho ancião
Tinha dois filhos rapazes
Que era Pedro e João
Era pobre de dinheiro
Mas tinha bom coração

Um dia João saiu
À procura de serviço
E foi na casa do turco
Que era um precipício
O turco quando viu ele
Parece que fez feitiço

João lhe pediu dormida
Depois em conversação
Perguntou se ali não tinha
Alguma colocação?
O turco disse: Você
Veio em boa ocasião

Eu tenho muito serviço
Porém sou muito exigente
Quem quer trabalhar aqui
Não se queixa de doente
Por mais que seja a doença
O freguês faz que não sente

João disse – eu gosto muito
De quem me diz a verdade
Pois eu indo trabalhar
Me arrependo mais tarde
Me queixo de está sofrendo
Por minha livre vontade

Disse o turco – meu amigo
Se não aguentar o tombo
Se arrependendo eu lhe tiro
O couro todo do lombo
Você voltará daqui
Todo cheio de calombo

O turco tinha um costume
Que todo seu empregado
Se não fizesse o serviço
Por ele determinado
Voltava da casa dele
Pra toda vida aleijado

João assinou o contrato
Conforme o turco queria
E ainda lhe garantiu
Que nunca se arrependeria
O turco disse sorrindo:
- Você só trabalha um dia

O turco no outro dia
Mandou João trabalhar
E disse: esta cachorra
Vai contigo te ensinar
Você só vem pro almoço
A hora que ela voltar

João lhe disse: sim, senhor
Está tudo combinado
Se a cachorrinha morrer
Eu fico lá no roçado
O turco disse à mulher:
Este sujeito é danado

João saiu para o roçado
Junto com a cachorrinha
Saiu pensando na vida
Sem saber que hora vinha
E dizendo – este negócio
Foi uma desgraça minha

A cachorrinha chegando
No roçado foi deitar-se
Era meio-dia em ponto
João largou e foi sentar-se
Pois só voltava pra casa
Quando a cachorra voltasse

Deu quatro horas da tarde
E a cachorrinha deitada
João danado de fome
Já não valia mais nada
Disse ele: esta cachorra
É muito bem ensinada

Às oito horas da noite
Foi que a cachorra voltou
– João saiu atrás dela
E quando em casa chegou
O turco disse sorrindo:
És muito trabalhador

Então João respondeu:
Eu gosto de trabalhar
Mas esta sua cachorra
Só falta mesmo é falar
O turco disse: ela faz
Tudo quanto eu mandar

No outro dia saiu
Novamente pro roçado
E a cachorra também
Como no dia passado
Ela praticou o mesmo
Que já tinha praticado

Neste dia João chegou
Com a enxada no ombro
E foi dizendo ao turco:
Tire-me o couro do lombo
Antes que eu morra de fome
Pois da desgraça não zombo

O turco disse: eu sabia
Que tu não aguentava
E o couro do teu lombo
Com minha faca eu tirava
Porque aquele contrato
Só você mesmo aceitava

Tirou a tira de couro
Do espinhaço de João
Este voltando pra casa
Contou tudo ao seu irmão
Ele disse: aquele turco
Me paga esta judiação

E arrumou a bagagem
Se despediu do irmão
E disse ao pai: se eu morrer
Reze na minha intenção
Só quero que não me falte
A sua santa benção

Pedro foi até a casa
Que o irmão tinha ensinado
Chegou lá pediu dormida
Porque estava enfadado
Em conversa o turco disse:
Preciso de um empregado

Pedro disse – estou aqui
À procura de serviço
E não encaro trabalho
Nem tão pouco precipício…
O turco disse: comigo
A coisa não é só isso

O turco disse – pois bem
Faço um contrato consigo
De nós quem se arrepender
Fica sujeito ao castigo
Pedro disse: sendo eu
Faça o que quiser comigo

Aí o turco o chamou
Lhe dizendo – veja lá
Aquelas tiras de couro
Que estão naquele lugar
Sou eu que tiro do lombo
De quem não quer trabalhar

Pedro disse – eu lhe garanto
Que o senhor fica contente
Pois eu tenho trabalhado
Com toda raça de gente
E com quinze dias de febre
Não digo que sou doente

Então respondeu o turco
Amanhã vás trabalhar
E aquela cachorrinha
Vai pra roça te ensinar
Você só vem pro almoço
A hora que ela voltar

Quando foi no outro dia
Pedro foi para o roçado
A cachorra foi com ele
Como estava combinado
Ele dizia consigo:
O turco está enganado

Chegando ele ao roçado
Começou a trabalhar
A cachorrinha deitou-se
E ele pôs-se a pensar
Depois disse – às onze horas
Eu preciso ir almoçar

Quando foi às onze horas
Ele pegou a enxada
Descarregou na cachorra
Uma tão grande pancada
Que ela saiu pra casa
Numa carreira danada

Quando Pedro foi chegando
O turco lhe perguntou:
Tu deste nesta cachorra
Que ela tão cedo voltou?
Disse Pedro – não fiz nada
Foi a fome que obrigou

A mulher do turco disse:
- Dispense este rapaz
O que fizeste com os outros
Com este você não faz
Este moço tem astúcias
Para vencer Satanás

O turco disse: ele perde
Pois um contrato que faço
Não tem homem que aguente
Nem sendo feito de aço…
A velha disse – ele tira
Couro do teu espinhaço

Ainda disse – amanhã
Tu vais ver como te enganas
Porque eu vou mandar ele
Roçar o mato das canas
Só deixar ficar em pé
As touceiras de bananas

Pedro disse – eu faço tudo
Quanto meu patrão quizé
Amanhã lá no roçado
Não fica uma cana em pé
No outro dia saiu
Nem esperou o café

Chegando lá no roçado
Fez tudo quanto dissera
Deixou o roçado limpo
Como se fora tapera
O turco ficou danado
Que parecia uma fera

O turco disse – amanhã
Tens um serviço melhor
Eu quero um carro de lenha
Que não se encontre um nó
Pedro disse – eu trago é dez
Se não for preciso um só

No outro dia saiu
E ganhou as capoeiras
Cortou o carro bem cheio
De rolos de bananeiras
O turco disse: você
Só vive de brincadeiras

Pedro disse: neste mundo
Nada me merece dó
O que fizeste com vinte
Agora pagas a um só
Eis o pau que neste mundo
Nasceu e cresceu sem nó

Aí o turco lhe disse:
Eu ando um pouco doente
E vou passar alguns meses
Desta fazenda ausente
Quando voltar quero os bichos
Tudo sorrindo contente

Disse Pedro isto é o menos
Muito mais tenho passado
Quando eu souber que ele vem
Eu mando juntar o gado
Quando ele chegar encontra
Tudo de beiço cortado

Já faziam cinco meses
Que o turco tinha saído
Um dia ele escreveu
Perguntando o ocorrido
E como estava seu gado
Se estava muito lutrido?

Pedro recebeu a carta
E leu com toda atenção
O turco mandou dizer
Que voltava no verão
E Pedro fosse esperá-lo
Na porta da estação

Quando foi no outro dia
Pedro lhe escreveu dizendo
O seu gaado está tão gordo
Que de gordo está morrendo
Ainda não está sorrindo
Porém está aprendendo

O turco ao ler a carta
Que Pedro tinha mandado
Disse consigo: é capaz
Dele matar o meu gado
Se assim for eu chego lá
E dou parte ao delegado

Um dia ele escreveu
Dizendo que vinha embora
Pedro mandou juntar o gado
E disse: chegou a hora
De pôr meu plano em ação
E vou cuidar sem demora

Mandou chamar dois vaqueiros
E disse: juntem esse gado
Eu quero estes animais
Tudo de beiços cortado
Pra quando o dono chegar
Ficar bastante espantado

E quando o turco chegou
Que foi olhar no curral
Os bichos tudo sorrindo
Com alegria geral
Disse: agora desta vez
Meu espinhaço está mal

E disse: você seu Pedro
Deu-me um grande prejuízo
O serviço que fizeste
É de quem não tem juízo
Pedro disse: não senhor
Só fiz o que foi preciso

Aí o turco lhe disse
Dou-te cem contos em ouro
Pra você não tirar
De meu espinhaço o couro
Pedro disse: eu não dispenso
Nem que me dê um tesouro

O turco disse – pois bem
Como me aleijaste o gado
Também não faço questão
De me deixar aleijado
Tira o couro do meu lombo
E fica como empregado

Pedro lhe disse – não fico
Porque tu me faaz traição
Tu já tiraste o couro
Do lombo do meu irmão
Eu vim somente vingar
Esta tua judiação

Tirou o couro do turco
E saiu no outro dia
Quando chegou em casa
O pai chorou de alegria
Pedro disse: eis o couro
Que prometi que trazia


(CASCUDO, Luís da Câmara. Vaqueiros e cantadores)

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