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TROVAS CIGANAS

Conclusões anatômicas

Se de toda a criatura
Depois da morte se abrisse
O peito, talvez o mundo
Com pasmo, um aborto visse!

Talvez coração em muitas
No lugar não deparasse
E noutras – nesse processo
Dois corações encontrasse

E assim seria este mundo
Levado à convicção
De que existem sobre a terra
Viventes sem coração

E destarte ficariam
Os motivos bem provados
Porque há pobres felizes
E felizes desgraçados!


A minha flor

Eu possuía, zelava
Alma, vida, amor votava
A uma mimosa flor!
E nela contente eu via
A minha luz, o meu guia
A imagem do meu amor!

Era a flor do meu desvelo
A sua vida era um elo
Que a minha vida prendia!
Era o meu guia fiel
Como o anjo Rafael
Foi de Tobias o guia!

Era a flor do meu agrado
O ídolo por mim amado
Era a minha divindade!
Dela, por ela, eu vivia
Na sua vida existia
A minha felicidade!

Quão ditoso era o viver
De glórias, e de prazer
Q’eu junto passava!
Como era prazenteira
A esperança fagueira
Que eu por ela alimentava!

Mas… da desgraça o poder
Corrompeu o meu prazer
A minha felicidade!
Como do sol a beleza
Que se esconde na escureza
Da nuvem da tempestade!

Ao golpe seguro e forte
Da impiedosa morte
Vi morrer a minha flor!
Vi-a sem vida mirrada
Ao pó do túmulo rojada
Para jamais ter vigor!

E para logo minha alma
Perdeu a esperança, a calma
As glórias, os seus encantos!
Hoje triste, aquebrantada
Dos prazeres desprezada
É forte de amargos prantos!

Eis-me só, sem companhia
Sem flor, sem farol, sem guia
Sem bonança, sem ventura
O mar da vida sulcando
Sem acerto, tateando
Nas trevas da desventura!


* * *

Qual foi o pintor divino
Qual foi a mão de invejar
Que tanto soube em minha’alma
O teu retrato gravar?


No meio das pedras finas
Fui escolher uma pedra
Esta por falsa quebrou-se
Tudo que é falso não medra


Os dias que passo triste
Sem ver a minha querida
Não devem levar-se conta
Dos dias de minha vida


Nada que vive resiste
Do tempo à cruel voragem
Só impera sobre o tempo
No meu peito a tua imagem


De meu peito fiz um cofre
Para guardar minhas dores
Porém tu com teus carinhos
Encheste o cofre de flores


Honra, brio e sentimento
É vício, não é virtude
Uma vez que ao infeliz
Aflige, tortura, ilude!


O amor é um jardim
Semeado de carinhos
Que assim como dá flores
Também oferece espinhos


Há uma coisa no mundo
Que admira a natureza:
É haver quem tenha honra
Em estado de pobreza


O desejo em peito triste
É flor do sertão nascido
Que vinga, floresce e morre
Sem se tornar conhecido


Já te dei meu coração
A transbordar de ternura
Em paga de tal presente
Vem fazer minha ventura


(MORAES FILHO, Melo. Os ciganos no Brasil)

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