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Catulo da Paixão Cearense

Encontrando-me com um sertanejo
Perto de um pé de maracujá
Eu lhe perguntei:
Diga-me caro sertanejo
Porque razão nasce roxa
A flor do maracujá?

Ah, pois então eu lhi conto
A estória que ouvi contá
A razão pro que nasci roxa
A frô do maracujá.

Maracujá já foi branco
Eu posso inté lhe ajurá
Mais branco qui caridadi
Mais brando do que o luá

Quando a frô brotava nele
Lá pros cunfim do sertão
Maracujá parecia
Um ninho de argodão.

Mais um dia, há muito tempo
Num meis que inté num mi alembro
Si foi maio, si foi junho
Si foi janero ou dezembro

Nosso sinhô Jesus Cristo
Foi condenado a morrê
Numa cruis crucificado
Longe daqui como o quê

Pregaro cristo a martelo
E ao vê tamanha crueza
A natureza inteirinha
Pois-se a chorá di tristeza

Chorava us campu
As foia, as ribera
Sabiá tamém chorava
Nos gaio a laranjera

E havia junto da cruis
Um pé de maracujá
Carregadinho de frô
Aos pé de nosso sinhô.

I o sangue de Jesus Cristo
Sangui pisado de dô
Nus pé du maracujá
Tingia todas as frô

Eis aqui seu moço
A estória que eu vi contá
A razão proque nasce roxa
A frô do maracujá.

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Bate, bate o ferreiro

Antonio Lima, antigo ferreiro de Botucatu,
cantava assim as sua lides:

Bate, Bate o ferreiro
Noite e dia sem parar,
Bate, bate o dia inteiro
Até nas noite de luar.

Triste é meu destino
Trabalhar e só trabalhar
Sem o descanso necessário
Para o sustento ganhar.

A adoração dos vivos

Era em fins de 1913, e a Câmara discutia o projeto de Martim Francisco, mandando repatriar os restos do imperador Pedro II, depositados em São Vicente de Fora, em Portugal. Orava Pedro Moacir, e a sua oração era um apelo veemente ao governo, no sentido de ser restituído ao Brasil o corpo do seu antigo monarca. O país precisava prosternar-se diante daqueles despojos, em que havia morado a alma de um dos seus maiores cidadãos.

E é quando Irineu Machado aparteia, interrompendo o patético do momento:

- O tempo é pouco para adorar os vivos!

(Anais da Câmara dos Deputados, 19/12/1913)

Sábios da Grécia e do Brasil

Conversava-se certa vez, no Paço, sobre a facilidade com que toda a gente, no tempo, discutia os negócios públicos, opinando sobre cousas que não entendia, quando o marquês de Maricá teve esta frase:

- A Grécia tinha sete sábios; mas no Brasil, só sete é que não o são!


(AZEVEDO, Moreira de. Mosaico brasileiro)

Senador não é criado

O imperador Pedro II nutria uma aversão indissimulável à bajulação. Por isso mesmo, os homens que menos influência exerciam sobre o seu ânimo eram os de sua intimidade, principalmente os que ocupavam cargos de etiqueta na Casa Imperial.

Um destes, seu camarista, subserviente pelo cargo e pela índole, desejava entrar para a política, e apareceu como candidato de um dos partidos a uma cadeira no Senado. Votado em primeiro lugar, foi preterido pelo monarca. Três vezes veio, ainda, na lista tríplice, e três vezes foi esquecido. Conhecendo-lhe a doblez como palaciano, o imperador sabia que esta se não coadunava com a independência e a altivez indispensáveis a um senador daqueles tempos.

Ressentido, o camarista indagou de sua majestade a razão de tantas preterições.

– Não tenho queixas contra o senhor, - declarou o soberano

E deixando patente o motivo:

- É que são tão importantes os serviços que me presta como ‘servidor de minha casa’, que não quero privar-me deles!

(MATOSO, Ernesto. Cousas do meu tempo)


(In CAMPOS, Humbero. O Brasil anedótico)

A natureza tem sanções felizes
Rodeia o mal de penas pouco leves
Assim, tu tens de ouvir tudo o que dizes
E tens de ler também tudo o que escreves


(Lúcio de Mendonça)

A língua humana
(Fagundes Varela)

Qual a mais forte das armas
A mais firme, a mais certeira?
A lança, a espada, a clavina
Ou a funda aventureira?
A pistola? O bacamarte?
A espingarda ou a flecha?
O canhão, que em praça forte
Faz em dez minutos brecha?
– Qual a mais firme das armas?
O terçado, a fisga, o chuço
O dardo, a maça, o virote?
A faca, o florete, o laço
O punhal ou o chifarote?
A mais tremenda das armas
Pior do que a durindana
Atendei, meus bons amigos
Se apelida – a língua humana

DESCOBRINDO O MUNDO

Uóxinton era o nome dele. Magrinho, fraquinho, cheio de anemia e chistose. Como qualquer brasileiro pobre. E no coração, para completar, Chagas. E mais: o rapaz também era banguela. Sem os dois dentes incisivos superiores. Os outros quase todos podres. Um brasileiro legítimo. Foi por isso, por causa da banguelice, que Uóxinton, com esse nome que tinha que dobrar a língua para pronunciar, ganhou o apelido de Mil e Um.

Aí Uóxinton resolve sair lá de Tabuí. Caçar rumo. Trouxinha nas costas. Cidade grande. Rio de Janeiro. Andando rua a fora. Observando aqueles baitas prédios, a lonjura das ruas, o tantão de carros... e o povão? Povão muito demais, de tudo quanto é jeito. Povo. Só povo. Gente não. Gente só na sua Tabuí. E o moço fica encantado com o marzão... "ôta marzão bonito, sô!..." Quando descobre a praia então... "tem base não, sô! Ô trem bão!" Embasbacado ficou olhando aquela mulherada só com uns paninhos bem apertadinhos mal tapando as coisas. Solução foi se sentar no passeio. Não dava ficar andando todo ouriçado, com a mão no bolso, para evitar que aparecesse sua protuberanciazinha. Vontade de arredar as tirinhas pra ver as coisas daquelas donas. Sentir, com todo o respeito, se eram como as da Bastiana, a mulher de todos os homens pobres lá de Tabuí. A mais barateira da Rua do Comércio. As coisas da Bastiana eram as únicas que ele tinha visto. Só que no escuro. Visto com as mãos. Acostumado a só sentir a Bastiana pelada, toda quadradona, com aquele cheiro de lambari passado, aquilo ali era muita perdiz pra sua capanga. Olha pra uma, olha pra outra... olha tanto que fica até meio vesgo.

Numa certa hora, depois de muita boca seca, Uóxinton sente fome. Sai ali pela praia de Copacabana procurando uma pensãozinha para matar quem o estava matando. Foi nessa hora que caiu nas garras de um malandro da cidade, todo espertalhão, que resolve aproveitar da ingenuidade do típico herói brasileiro.

- Vamos almoçar ali no restaurante comigo, meu amigo? Comida da boa! Vamos?

- Posso não, moço! A gaita tá curta!

- Não se preocupe. Deixa comigo que isso eu resolvo! Afinal de contas, eu é quem estou convidando!

- Mas, moço!...

- Não tem nada de mas! Vamos comer do bom e do melhor! Hoje é meu aniversário e quero comemorar na companhia de gente simpática como o senhor! Venha!

Uóxinton, de tanta fome, com o estômago batendo palminhas nas costas, resolve não insistir na negativa. Vai que o homem se arrepende do convite... pressentindo um almoço de graça acompanha, como um cordeirinho, o bondoso aparecido. E começa a pensar que os homens daquela terra até que eram um povinho bom demais. Primeiramente que deixavam suas mulheres quase peladas para quem quisesse ver. E segundamente, até comida estavam oferecendo pra ele. E, de graça, como todo bom mineiro, ele não enjeitava nada. Aí até injeção na testa, pensava ele com o único botão da camisa. Entram os dois no restaurante. Só chiqueza e muita boniteza. Mas Uóxinton não teve tempo de ficar observando detalhes. Sua preocupação eram os vários pratos bem sortidos à sua frente. Comeram de fato, do bom e do melhor, até se empanturrarem. Mineirinho tava até sem assunto. Enquanto o da cidade tomava o seu uísque e umas cervejas, nosso herói lambiscava uns tragos duma pinguinha chamada Providência que tinha trazido na sua trouxa lá da terrinha.

Aí o da cidade decide que chegou a hora do golpe. Assim que Uóxinton dá aquela bambeza e o olho começa a não querer parar aberto, o carioca, cheio de sotaque carioca, ataca com cara de inocente:

- Olha, meu amigo de Minas, antes da sobremesa, vou ali fora chamar um outro amigo. Ele vai gostar muito de conhecer meu mais novo amigo. Espera um pouquinho, tá?

- Sim sinhô! Tá bão!... Fico aqui na espera!

Depois de muito tempo, como o companheiro não voltasse e o gerente fora cobrar a conta, Uóxinton se explicou de tudo quanto é maneira, mas não adiantou. Seu desprevenimento não fora entendido. Dinheirinho que tinha era a conta da passagem para voltar para Minas. Bem dobrado dentro dum bolsinho secreto do lado de dentro do calçãozinho de pano de saco. E sem aquele dinheirinho, a garantia da volta pra terrinha, ele não ficava. Só morto. Mineirinho tava até suando frio. Coração acelerado. Sangue nenhum na face. Não só pela anemia como também pelo aperto que tava passando.

- Ou o senhor paga ou daqui não sai. E tem mais, se achar ruim chamo a polícia!...

Uóxinton até arrepiou quando ouviu falar em polícia. Desde lá de Tabuí que cortava léguas para não passar perto de um soldado. Tinha birra dos amarelinhos. Certo dia andaram dando umas cacetetadas nele e no Boanerge por causa dum cachaço que os dois castraram sem ordem do dono. Fazer tira-gosto dos ovos do bicho.

Vendo-se num mato sem cachorro, Uóxinton resolveu apelar. Demonstrando grande indignação com aquele que o meteu naquela encrenca, prometeu fazê-lo retornar ao restaurante por meio de umas mandingas que conhecia. Pede ao gerente uma agulha e um novelo de linha, daquelas bem compridas. Prontamente atendido.

Assim meio cerimonioso, com a trouxinha amarrada na cintura, mineirinho dirige-se à saída do restaurante. Espeta a agulha na porta, amarra a linha no buraco da agulha e vai desenrolando o novelo e se afastando pouco a pouco, com ar de concentração e mistério. Rezando umas orações muito estranhas. Ora alto, ora baixo, em língua mineira que o pessoal não entendia direito. Quando já estava numa boa distância do gerente, que vigiava tudo nos mínimos detalhes, Uóxinton sai numa carreira desenfreada. Nunca um anêmico, cheio de chistose e Chagas correu tanto na vida. Fedeu no mundo e nunca mais foi visto por aqueles bandas.

(Eurico de Andrade é autor do livro Nós Sofre Mais Goza - Causos de Minas, e colabora com a Jangada Brasil)

• Adoro as rosas, mas prefiro as trepadeiras
• Antigamente eu dava um boi por uma briga, hoje brigo por um bife
• O sol nasceu para todos… a sombra só para alguns!
• Ontem eu sonhava com o futuro. Hoje eu nem consigo pegar no sono!
• Mulher de casa é igual a galinha de granja: gorda e sem gosto
• Mulher e laranja em qualquer canto se arranja
• Embora não mate a fome… o beijo aumenta o apetite!
• Antes a tristeza da derrota do que a vergonha de não ter tentado
• Em rio que tem piranha, macaco bebe água de canudinho
• Fruta de pobre é cana

• Em tempo de guerra, mentira é como terra.
• Poupa vintém e um dia serás alguém.
• Eixo apertado faz o carro cantar.
• Não há domingo sem missa.
• Nem segunda sem preguiça.
• Onde vai o rei, está a corte.
• Com um chope dança, com seis descansa.
• A sopa ensopa mas não derrete.
• Quem quebra galho é macaco pesado.
• Onde vai a corda vai a caçamba.

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