Certa vez, ia Emílio de Menezes em um bonde, quando se sentaram no banco imediato, em frente, duas senhoras de grandes banhas, que dificilmente puderam entrar no veículo. Com o peso das duas matronas o banco, que era frágil, range, estala, geme, estranhando a carga. O poeta, que observava o caso, leva a mão à boca no seu gesto característico e põe-se a rir em silêncio no seu riso sacudindo e interior. E como o companheiro o olhasse , explicou: - Sim senhor! É a primeira vez que eu vejo um banco quebrar por excesso de fundos!... ANÚNCIOS EM BONDESO BONDE CAMARÃO Os camarões e o guaraná espumante.
Democrático bonde! Eis o veículo (RANGEL, Otávio. Reportagens cariocas)
O bonde, principalmente no Rio de janeiro, era o grande amigo dos foliões no Carnaval. (Dizem até que o carnaval de rua no Rio acabou, quando acabaram os bondes). Assim, houve muitas músicas principalmente de Carnaval, em que o tema era o bonde. Entre algumas delas a mais conhecida e que até hoje se ouve em bailes carnavalescos era Seu condutor gravada em 1935 por Alvarenga e Ranchinho: "Seu condutor, dim, dim. Em 1937 apareceu esta, de autoria de J. Cascata e Leonel Azevedo, gravada por Odete Amaral: "Não pago o bonde, iaiá Depois apareceu em 1940 O bonde de São Januário, de Ataulfo Alves e Wilson Batista, gravada por Ciro Monteiro, enaltecendo o trabalho: "Quem trabalha é que tem razão Em várias épocas tivemos muitas músicas tendo por tema o bonde, e que se perderam no tempo. Quando houver uma antologia da música popular brasileira vamos saber quantas existiram.
(Composição de pequenos alunos das 1ªs séries do Colégio Estadual Padre Manuel de Paiva. Professora Ilka Brunildo Laurito, Campo Belo, São Paulo) "Dia vinte e sete de março de mil novecentos e sessenta e oito. Foi-se o último bonde, neste dia fomos todos envoltos na maior tristeza, pois o último bonde partia: partia com um adeus triste, apertando o nosso coração e fazendo muita gente chorar. As paradas principais ficaram lotadas de pessoas para ver o último bonde que iria passar a uns momentos. Eu gostava do bonde, principalmente do seu chacoalho do seu apito e também de olhar para a janela e ver todos correndo como se estivessem em alta velocidade. Eu achava muito divertido andar de um lado para o outro no seu interior. Mas hoje, infelizmente, o bonde foi-se e fiquei muito triste, pois ele guardava para mim muitas recordações agradáveis . Depois que o bonde passou, que festa acabou e que todos foram embora eu chorei, ó chorei sim! Porque eu me recordei que quando pequena eu ficava na janela do quarto da mamãe só para ver o bonde passar seu apito era divertido o qual eu imitava, seu barulho mais ainda. Mas hoje o bonde foi-se embora, deixando tristeza no coração de todos. Eu nunca esquecerei o bonde, principalmente o seu último adeus. Adeus bonde! Adeus...! |
O bonde nada tem de bond...oso. é pesado, intransigente, tem um caráter tão firme que não recua sem muito refletir nem pedir licenças aos colegas que vêm correndo na cauda. É claro que com um bicho desse tamanho (tamanho de um bonde) é preciso que quem o toma se porte com a necessária precaução se quiser voltar para casa com os ossos no lugar em que a natureza os colocou, de acordo com os tratados de anatomia. Mas, toca o bonde... isto é, vamos ao nosso guia: 1º - O transeunte tem pressa se tem pressa, terá pressa também de morrer. Se não quiser esperar que o bonde chegue ao poste de parada e fique imóvel, é o passageiro que ficará imóvel embaixo dele. O fato de agarrar-se ao balaústre quando nunca se aprendeu ginástica ou não se possui uma elegante cauda pênsil orgulho dos macacos, implica a idéia de se agarrar ao braço da Morte. O arranco é dos mais sensacionais e vale a pena assistir o desfraldar de um corpo humano como bandeira agarrada ao pau sacudida pelo vento, descrever linda parábola de geometria no espaço da volta completa e estabelecerse no asfalto de preferência com a cabeça de onde logo, pela brecha inevitável, vão se escapando como os pombos do soneto as idéias de misturar com a tal massa cinzenta (se a tiver). Quando isso não acontece, reboque transforma-se em rabecão. A família irá procurá-lo no necrotério. Se o bonde já partiu do poste, o acidente não varia, pois são as costelas que serão escolhidas. Se o passageiro for mulher haverá mais costelas para quebrar.
2º - Saltar do bonde em movimento coordenar os próprios movimentos com os do bonde é uma ciência tão complicada que o próprio Einstein deixou de estudar, com receios das conseqüências nas experiências. A força da inércia costuma divertir-se à custa da humanidade. O passageiro quer chegar antes do bonde não se conforma com poucos segundos de espera voaria por cima do motorneiro. Agacha-se afoitamente ao balaústre esquece certo reumatismo, não tem tempo de resolver certos cálculos de probabilidade não olha se o lugar onde vai por os pés é asfalto, paralelepípedo, uma poça dágua ou casca de banana. E salta. Em vez do pé chegou primeiro o nariz esborrachou-se como mamão maduro e se não levantar logo a carcaça do lugar logo vem um auto para realizar a autópsia. Não se esqueça nunca, num caso desses, de fazer testamento para que os herdeiros possam abençoar sua providencial imprevidência.
3º - Tomar bonde pelo lado da entrelinha esta é uma surpresa que o passageiro costuma fazer ao bonde o qual retribui com outra, muito mais agradável embora só se preocupe com a direita. À esquerda há uma barra, mas o passageiro não admite ser barrado, arma ou pulo... errado para a longarina que está suspensa falseia o pé e ao mesmo tempo bate com a caixa do juízo na barra, que não é a do Rio, mais um diacho de travessão duro como cama de pobre. Resultado: o pé tonteou, a cabeça levou uma luxação no tornozelo e em torno o zelo dos que assistiram ao delicioso trombalhão não o livra de entregar os cacos à Assistência para que o solde deixando-o pronto para outra. Pode-se dar também, o caso de um estatelamento no trilho, no justo momento em que um bonde bagageiro avance em sentido inverso e emende e complete o desastre com uma decapitação magistral ou amputações dignas do mais afamado cirurgião. 4º - Atravessar a linha há gente neste mundo esquisito que não se satisfaz com a calçada quer palmilhar os trilhos, arremedando o burro entre os varais ou acompanhando a predileção que tem os chaufeurs pra meter as rodas do carro sobre os trilhos. Sente o gostinho de atravessá-los com a pachorra de um paquiderme em plena jungle sem cuidar da esquerda, da direita, das piscadelas do sinaleiro e dos carros que se cruzam. Os pés estão nos trilhos, mas o pensamento vagueia entre as nuvens da cordilheira dos Andes. Ficou surdo, cego e mudo, ouvira com agrado o tímpano duma porta de cinema e não a do motorneiro. Fica tão desprendido que o bonde, passando ainda mais o desprende uma perna pra cá, outra pra lá, a cabeça foi com a roda e no chão talvez ficasse intacto um ovo, destinado a outro gênero de fritada. Num caso como esse a Assistência não tem interesse em intervir. Pede-se logo o rabecão põe-se tudo num saco e manda-se para o Caju. Pêsames à família enlutada. Missa de sétimo dia etc.
5º - Os pingentes é a consequência de falta de lotação efetiva. Dividimos esse lote de passageiros em duas classes a saber: 1- Pingente proposital há lugar, mas ele prefere ser o parente... colateral da pequena que está na ponta do banco. 2- Pingente especial é um caso clínico. Ele sofre de certa moléstia que o impede de sentar-se, moléstia essa que chamaremos de assentopatia, em lugar de outro nome impróprio. Este caso de pingente é também pungente. Para estes dois casos o perigo é o mesmo. Está o pingente de pé pode cair sentado no asfalto, ou em última análise de pernas para o ar, se não fizer caso do clássico grito do motorneiro: "olha à direita". Algum veículo arranca-o da contemplação dá-lhe o tranco algum poste fora alinhamento o reduz em postas difíceis de se alinhar. Esbarros, trancos, solavancos, trombalhões, costelas quebradas são casos de somenos importâncias, voam embrulhos chapéus, guarda-chuvas, pastas, relógios, chaves com ou sem molhos, carteiras com ou sem elas. O reboque encarrega-se de apanhar somente o freguês e com pingente o espetáculo torna-se compungente.
6º - A traseira é o sistema especial dos garotos tomarem a traseira dos bondes. O castigo da traseira devia ser aplicado pelos pais com um tamanco bem resistente. Em casos especiais é a própria traseira do bonde que se encarrega de dar com a dita do garoto no duro asfalto ou num monte de pedras. Os garotos preferem emendas nas calças, mas não se emendam. O carro que vier reduzi-los a uma indigesta fritada. Como você vê, temos que recorrer a uma escandalosa comparação de Deus com o perigo. Está em toda a parte. Enquanto a Light não inventar bondes e ônibus de fumaça, temos que andar com muitas precauções se não quisermos tomar certos bondes especialmente recomendados para os imprudentes o do Caju e o outro de São João Batista. Para evitar o atropelo precisa ter outro "pelo", muito "pelo" mesmo não ser surdo, nem cego, ainda menos tonto, distraído, apaixonado, apressado e saber dar à própria vida preço maior que o da passagem do bonde que se tomar. Ou a Light me agradece estes conselhos gratuítos à sua freguesia ou então farei o voto de andar sempre a pé... pelos telhados. |
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