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EMÍLIO DE MENEZES E O BONDE

Certa vez, ia Emílio de Menezes em um bonde, quando se sentaram no banco imediato, em frente, duas senhoras de grandes banhas, que dificilmente puderam entrar no veículo.

Com o peso das duas matronas o banco, que era frágil, range, estala, geme, estranhando a carga.

O poeta, que observava o caso, leva a mão à boca no seu gesto característico e põe-se a rir em silêncio no seu riso sacudindo e interior.

E como o companheiro o olhasse , explicou:

- Sim senhor! É a primeira vez que eu vejo um banco quebrar por excesso de fundos!...

ANÚNCIOS EM BONDES

O BONDE CAMARÃO
Anúncio no Estado de São Paulo, 22/05/1927

Os camarões e o guaraná espumante.
Quem quiser ir à avenida
Das linhas a preferida
Daqueles que os corações
Trazem cheios de saudade
Tem que ir , contra a vontade
Num daqueles camarões!
A gurizada mais gosta
Dos outros, porque de costa
Para a gente que maldiz
Vai com a pequena à avenida
Gozar um pouco da vida
Que corre amena e feliz
Eu por mim franco,
Viajo num qualquer banco
Seja de costas ou não
Seja de lado ou de frente,
O principal é somente
Que eu pague meu duzentão...
E tenha junto u’a mulata
Da cor dos tabletes Lacta
Me adoçando o coração
Com guaraná espumante!
O mais... que importa o restante?
Toca o bonde... camarão!

BONDE DE LAITE

Democrático bonde! Eis o veículo
Que o carioca serve e mal o trata!
Nele, ou viaja qual sardinha em lata,
Ou como equilibrista assaz ridículo!
Nesse rodante o gingador cubículo
Põe-se lhe à prova a índole pacata:
Pisam-lhes os pés, arrancam-lhe a gravata
E em meio aos apertões fica um montículo!
O bonde, às vezes, sai dos trilhos fora
E ao projetar-se em cheio na calçada,
Quando lhe está na frente desarvora!
Mas, há pior: ao sol, à chuvarada,
Esperá-lo de pé, mais de uma hora,
No poste da tortura... o da parada.

(RANGEL, Otávio. Reportagens cariocas)

MÚSICAS SOBRE BONDE

O bonde, principalmente no Rio de janeiro, era o grande amigo dos foliões no Carnaval. (Dizem até que o carnaval de rua no Rio acabou, quando acabaram os bondes). Assim, houve muitas músicas principalmente de Carnaval, em que o tema era o bonde. Entre algumas delas a mais conhecida e que até hoje se ouve em bailes carnavalescos era Seu condutor gravada em 1935 por Alvarenga e Ranchinho:

"Seu condutor, dim, dim.
Seu condutor, dim, dim.
Para o bonde p’ra descer o meu amor.
E o bonde da Lapa
É cem réis de chapa
E o bonde Uruguai
Duzentos que vai
E o bonde Tijuca
Me deixa em sinuca
E o praça Tiradentes
Não serve p’ra gente."

Em 1937 apareceu esta, de autoria de J. Cascata e Leonel Azevedo, gravada por Odete Amaral:

"Não pago o bonde, iaiá
Não pago o bonde, ioiô
Não pago o bonde que eu conheço o condutor.
Quando estou na brincadeira
Não pago o bonde nem que seja por favor.
Não pago o bonde
Porque não posso pagar
O meu é muito pouco
E não chega p’ra gastar
Moro na rua das casas
Daquele lado de lá
Tem uma porta e uma janela
Mande a Light me cobrar...

Depois apareceu em 1940 O bonde de São Januário, de Ataulfo Alves e Wilson Batista, gravada por Ciro Monteiro, enaltecendo o trabalho:

"Quem trabalha é que tem razão
eu digo e não tenho medo de errar
o bonde São Januário leva mais um operário
sou eu que vou trabalhar.
Antigamente eu não tinha juízo
Mas resolvi garantir meu futuro
Sou feliz vivo muito bem
A boemia não dá camisa a ninguém."

Em várias épocas tivemos muitas músicas tendo por tema o bonde, e que se perderam no tempo. Quando houver uma antologia da música popular brasileira vamos saber quantas existiram.

Interior do bonde especial de Dom Pedro II

O ÚLTIMO BONDE

(Composição de pequenos alunos das 1ªs séries do Colégio Estadual Padre Manuel de Paiva. Professora Ilka Brunildo Laurito, Campo Belo,  São Paulo)

"Dia vinte e sete de março de mil novecentos e sessenta e oito.

Foi-se o último bonde, neste dia fomos todos envoltos na maior tristeza, pois o último bonde partia: partia com um adeus triste, apertando o nosso coração e fazendo muita gente chorar.

As paradas principais ficaram lotadas de pessoas para ver o último bonde que iria passar a uns momentos.

Eu gostava do bonde, principalmente do seu chacoalho do seu apito e também de olhar para a janela e ver todos correndo como se estivessem em alta velocidade.

Eu achava muito divertido andar de um lado para o outro no seu interior.

Mas hoje, infelizmente, o bonde foi-se e fiquei muito triste, pois ele guardava para mim muitas recordações agradáveis .

Depois que o bonde passou, que festa acabou e que todos foram embora eu chorei, ó chorei sim!

Porque eu me recordei que quando pequena eu ficava na janela do quarto da mamãe só para ver o bonde passar seu apito era divertido o qual eu imitava, seu barulho mais ainda.

Mas hoje o bonde foi-se embora, deixando tristeza no coração de todos.

Eu nunca esquecerei o bonde, principalmente o seu último adeus.

Adeus bonde! Adeus...!


GUIA DO PASSAGEIRO DE BONDE
(Janeiro de 1938)

O bonde nada tem de bond...oso. é pesado, intransigente, tem um caráter tão firme que não recua sem muito refletir nem pedir licenças aos colegas que vêm correndo na cauda. É claro que com um bicho desse tamanho (tamanho de um bonde) é preciso que quem o toma se porte com a necessária precaução se quiser voltar para casa com os ossos no lugar em que a natureza os colocou, de acordo com os tratados de anatomia.

Mas, toca o bonde... isto é, vamos ao nosso guia:

- O transeunte tem pressa – se tem pressa, terá pressa também de morrer. Se não quiser esperar que o bonde chegue ao poste de parada e fique imóvel, é o passageiro que ficará imóvel embaixo dele. O fato de agarrar-se ao balaústre quando nunca se aprendeu ginástica ou não se possui uma elegante cauda pênsil orgulho dos macacos, implica a idéia de se agarrar ao braço da Morte. O arranco é dos mais sensacionais e vale a pena assistir o desfraldar de um corpo humano como bandeira agarrada ao pau sacudida pelo vento, descrever linda parábola de geometria no espaço da volta completa e estabelecer–se no asfalto de preferência com a cabeça de onde logo, pela brecha inevitável, vão se escapando como os pombos do soneto as idéias de misturar com a tal massa cinzenta (se a tiver). Quando isso não acontece, reboque transforma-se em rabecão. A família irá procurá-lo no necrotério. Se o bonde já partiu do poste, o acidente não varia, pois são as costelas que serão escolhidas. Se o passageiro for mulher haverá mais costelas para quebrar.

- Saltar do bonde em movimento – coordenar os próprios movimentos com os do bonde é uma ciência tão complicada que o próprio Einstein deixou de estudar, com receios das conseqüências nas experiências. A força da inércia costuma divertir-se à custa da humanidade. O passageiro quer chegar antes do bonde não se conforma com poucos segundos de espera voaria por cima do motorneiro. Agacha-se afoitamente ao balaústre esquece certo reumatismo, não tem tempo de resolver certos cálculos de probabilidade não olha se o lugar onde vai por os pés é asfalto, paralelepípedo, uma poça d’água ou casca de banana. E salta. Em vez do pé chegou primeiro o nariz esborrachou-se como mamão maduro e se não levantar logo a carcaça do lugar logo vem um auto para realizar a autópsia. Não se esqueça nunca, num caso desses, de fazer testamento para que os herdeiros possam abençoar sua providencial imprevidência.

- Tomar bonde pelo lado da entrelinha – esta é uma surpresa que o passageiro costuma fazer ao bonde o qual retribui com outra, muito mais agradável embora só se preocupe com a direita. À esquerda há uma barra, mas o passageiro não admite ser barrado, arma ou pulo... errado para a longarina que está suspensa falseia o pé e ao mesmo tempo bate com a caixa do juízo na barra, que não é a do Rio, mais um diacho de travessão duro como cama de pobre. Resultado: o pé tonteou, a cabeça levou uma luxação no tornozelo e em torno o zelo dos que assistiram ao delicioso trombalhão não o livra de entregar os cacos à Assistência para que o solde deixando-o pronto para outra. Pode-se dar também, o caso de um estatelamento no trilho, no justo momento em que um bonde bagageiro avance em sentido inverso e emende e complete o desastre com uma decapitação magistral ou amputações dignas do mais afamado cirurgião.

- Atravessar a linha – há gente neste mundo esquisito que não se satisfaz com a calçada quer palmilhar os trilhos, arremedando o burro entre os varais ou acompanhando a predileção que tem os chaufeurs pra meter as rodas do carro sobre os trilhos. Sente o gostinho de atravessá-los com a pachorra de um paquiderme em plena jungle sem cuidar da esquerda, da direita, das piscadelas do sinaleiro e dos carros que se cruzam. Os pés estão nos trilhos, mas o pensamento vagueia entre as nuvens da cordilheira dos Andes. Ficou surdo, cego e mudo, ouvira com agrado o tímpano duma porta de cinema e não a do motorneiro.

Fica tão desprendido que o bonde, passando ainda mais o desprende uma perna pra cá, outra pra lá, a cabeça foi com a roda e no chão talvez ficasse intacto um ovo, destinado a outro gênero de fritada.

Num caso como esse a Assistência não tem interesse em intervir.

Pede-se logo o rabecão põe-se tudo num saco e manda-se para o Caju. Pêsames à família enlutada. Missa de sétimo dia etc.

- Os pingentes – é a consequência de falta de lotação efetiva. Dividimos esse lote de passageiros em duas classes a saber:

1- Pingente proposital – há lugar, mas ele prefere ser o parente... colateral da pequena que está na ponta do banco.

2- Pingente especial – é um caso clínico. Ele sofre de certa moléstia que o impede de sentar-se, moléstia essa que chamaremos de assentopatia, em lugar de outro nome impróprio. Este caso de pingente é também pungente.

Para estes dois casos o perigo é o mesmo. Está o pingente de pé pode cair sentado no asfalto, ou em última análise de pernas para o ar, se não fizer caso do clássico grito do motorneiro: "olha à direita".

Algum veículo arranca-o da contemplação dá-lhe o tranco algum poste fora alinhamento o reduz em postas difíceis de se alinhar.

Esbarros, trancos, solavancos, trombalhões, costelas quebradas são casos de somenos importâncias, voam embrulhos chapéus, guarda-chuvas, pastas, relógios, chaves com ou sem molhos, carteiras com ou sem elas. O reboque encarrega-se de apanhar somente o freguês e com pingente o espetáculo torna-se compungente.

- A traseira – é o sistema especial dos garotos tomarem a traseira dos bondes.

O castigo da traseira devia ser aplicado pelos pais com um tamanco bem resistente.

Em casos especiais é a própria traseira do bonde que se encarrega de dar com a dita do garoto no duro asfalto ou num monte de pedras. Os garotos preferem emendas nas calças, mas não se emendam. O carro que vier reduzi-los a uma indigesta fritada.

Como você vê, temos que recorrer a uma escandalosa comparação de Deus com o perigo. Está em toda a parte. Enquanto a Light não inventar bondes e ônibus de fumaça, temos que andar com muitas precauções se não quisermos tomar certos bondes especialmente recomendados para os imprudentes o do Caju e o outro de São João Batista.

Para evitar o atropelo precisa ter outro "pelo", muito "pelo" mesmo não ser surdo, nem cego, ainda menos tonto, distraído, apaixonado, apressado e saber dar à própria vida preço maior que o da passagem do bonde que se tomar.

Ou a Light me agradece estes conselhos gratuítos à sua freguesia ou então farei o voto de andar sempre a pé... pelos telhados.

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