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"Veja, ilustre passageiro
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem ao seu lado.
E no entanto, acredite.
Quase morreu de bronquite
Salvou-o o Rum Creosotado.

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E já se faz tempo de falarmos nos bondes. Estes, embora ainda de tração animal, mas sobre trilhos de ferro, renovaram completamente os transportes. Para explorá-los, instalou-se aqui, em 1868, uma companhia americana, a Botanical Garden Rail Road, e os seus primeiros carros correram entre a rua Gonçalves Dias, canto de Ouvidor, e o largo do Machado. Pouco depois, essa linha chegava ao Jardim Botânico e um ramal era tirado para Laranjeiras. Não tardou que outros americanos estendessem linhas para São Cristóvão, Rio Comprido, Andaraí e saco do Alferes, todas com ponto central no largo de São Francisco, e, em 1873, por iniciativa do barão de Drummond, novos trâmueis aproximavam a praça da Constituição da antiga fazenda do Macaco, em Vila Isabel.

Desse novo tipo de condução, nunca mais se desligou o nome de bond, depois e até hoje aportuguesado para bonde. É que coincidindo com o aparecimento de tais veículos, não só fora lançada, na praça, com grande celeuma pela imprensa, uma emissão governamental de apólices ou títulos negociáveis, a que na Inglaterra chamam bonds, como também, e ao mesmo tempo, para a facilidade de trocos, a Companhia adotara bilhetes de passagem. O povo aproximou logo esses dois fatos e a palavra bond, cada vez com maior amplitude de significação, passou a designar esses mesmos passes, a Companhia e os veículos. E esse nome prevaleceu sobre outros com que também apelidaram os novos carros: vaca de leite em alusão às campainhas que tilintavam no pescoço de seus burros, e jabuti devido à forma dos seus primitivos tejadilhos abaulados.

Os trâmueis deram novo alento à prosperidade dos bairros, cada vez mais procurados para as boas residências particulares. Agora, graças às conduções mais rápidas e freqüentes, os ingleses não se limitavam a invejar os franceses. Podiam também morar na Tijuca. Havia mesmo um bonde expresso, tão freqüentado por eles, que passou a ser conhecido por bonde dos ingleses. Saía do largo de São Francisco às 4:30 da tarde e ia até o Portão Vermelho, no Andaraí. Desse ponto, quem quisesse chegar ao Alto da Boa Vista ou ao Hotel White, este na descida para as Furnas, à direita, passava para diligências, ou tomava o seu carro ou o seu cavalo. E, assim, já às 6:30 podia estar em casa, para jantar com o ar puro da floresta. Não levou tempo, porém, que os bondes fossem mais acima, subindo um pouco da serra. À certa altura, desatrelavam-se os animais e uma pequena locomotiva a vapor puxava o próprio carro.

Santa Teresa, igualmente, beneficiou-se muito dos novos meios de transporte, que lhe granjearam um grande número de moradores estrangeiros. Teve primeiro o seu elevador, ligando a rua Riachuelo ao morro de Paula Matos e, depois, o Plano Inclinado, que partia ainda da rua Riachuelo, junto à ladeira do Castro. No alto do morro, em comunicação com o funicular, havia linhas de carris que chegavam ao Curvelo e ao França.

Escusado
é dizer que os trâmueis mataram completamente os ônibus, gôndolas e diligências e não foi sem razão que os interessados nessas empresas receberam a pedra os primeiros bondes que circularam na cidade. Até os carros de aluguel, caleças e cupês, entraram em crise e apenas a gente rica manteve as suas carruagens de luxo.

E para provar quanto todos esses meios de transporte se mostravam lerdos em comparação aos trâmueis, mesmo puxados a burro, mas com a vantagem de deslizarem sobre trilhos, basta dizer que, no começo, provocaram muitos atropelamentos e acidentes, como mais tarde aconteceria com os bondes elétricos e depois com os automóveis. Tanto assim que a Câmara Municipal se viu obrigada a baixar instruções sobre a velocidade daqueles veículos, tendo-se proibido "dar aos carros maior velocidade do que a de meio trote dos animais nas ruas do centro".

Os bondes, além de todas as suas vantagens, permitiram a certos cariocas desocupados um passatempo deleitoso. Postarem-se na rua Gonçalves Dias e, depois, no largo da Carioca, para verem um palmo de perna quando as mulheres tomavam um bonde. É que numa época em que as modas ainda eram severas e os vestidos, compridos e afogados, subiam até o pescoço e desciam até o chão, com mangas ajustadas aos punhos, o sex-apeal, à falta de melhor ponto onde se localizar – hoje coisa que lhe é tão fácil nas praias de banho – girava todo em torno do pé. Prova-o A pata da gazela, de José de Alencar, que o tem por leitmotiv, e em cujas páginas o autor põe na boca do seu protagonista a seguinte invocação: "Senhor! por que em vez de homem não me fizeste estribo de carro? Teria a felicidade de ser pisado por aquele pezinho." Também, a cada passo, nos folhetins de França Júnior, surge um "pé arrebatador".

Escusado: inútil, desnecessário
Tejadilho: teto de veículos

O primeiro bonde circula na cidade.
Rio de Janeiro, 1868, 9 de outubro

A 9 de outubro de 1868 - foi numa sexta-feira esse grande dia da cidade – correu às 10 horas da manhã o primeiro bonde de burro: da rua dos Latoeiros (a Gonçalves Dias de hoje) para o largo do Machado. Dom Pedro II e a Imperatriz viajaram no primeiro carro, puxado com os demais, por uma parelha. Lotação: 30 passageiros. Em 1890 havia 90 carros em circulação e 1.300 burros estavam a serviço da população. Três anos era a média de vida de um burro.

Circula na América do Sul
o primeiro bonde elétrico

Rio de Janeiro, 1892, 8 de outubro

A Companhia Jardim Botânico importou dos Estados Unidos o material necessário, e "a 8 de outubro de 1892, informa C. J. Dunlop, à 1 hora da tarde, teve lugar a inauguração da tração elétrica na sinuosa linha do Flamengo. Assistiram ao ato o vice-presidente da República em exercício da Presidência, marechal Floriano Peixoto, seu Estado-Maior, o ministro da Marinha, almirante Custódio José de Melo, deputados, os intendentes minicipais Silveira Lobo, Abdon Milanez, Siqueira de Menezes e França Leite, representantes de diversas classes sociais e da imprensa, os diretores da Companhia, barão Ribeiro de Almeida, comendador Malvino Reis e barão de Santa Leocádia e o gerente dr. Coelho Cintra. Os três carros elétricos, únicos que os recursos concedidos permitiram adquirir, partiram, pouco depois das 13 horas, da curva do antigo Teatro Lírico [no largo da Carioca], subiram a rampa da rua Senador Dantas, com as lotações excedidas e, sem dificuldade, deslizaram suavemente e sob os aplausos do povo, pela rua do Passeio, cais da Lapa, Russell e Flamengo e, doze minutos depois, entravam nas oficinas da Companhia na rua Dois de Dezembro" (In Apontamentos para a história dos bondes no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Gráfica Laemmert, 1953, p. 193). "A corrente elétrica nenhum perigo oferece aos srs. passageiros", era o aviso afixado nos espaldares dos assentos dos bondes porque, informa Dunlop, havia gente que tinha medo de viajar no bonde elétrico. (op. cit, p. 194)

(CRULS, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro)

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"Esse nervoso irritante
Que não o larga um instante
Bem pode ser de sua vista
Por que a um oculista não corre,
Da casa A Especialista?"

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DICIONÁRIO DO BONDE

Bonde–Agulha – Carris de ferro móveis para facilitar nas vias férreas, a passagem de uma para a outra via.

Alavanca – peça que nos bondes elétricos corre sob fios ou cabos condutores da energia pra transmiti-la ao motor do veículo.

Bandeira – sinaleiro de encruzilhada de bonde.

Bigu – (Nd) – viagem clandestina em bonde.

Agulheiro – empregado que faz o serviço das agulhas.

Balastro – areia, saibro ou cascalho que se lança nas vias.

Caradura – nome dado aos bondes mistos e ao banco que, nos bondes de passageiros fica de frente para os demais.

Morcegar – (Nd) subir ou descer de um bonde em movimento.

Morcego – garoto que anda no bondes seguro aos balaústres ou portinholas sem pagar passagem.

Pongar – (Nd) subir para o bonde sem que este pare.

Tranvia – trâmuei, adaptado do inglês Tramway.

Trâmuei – trilho chato para bondes. O próprio bonde.

Maxambomba – (Ba) carruagem de estrada de ferro com mais de um pavimento.

(MAZURKEEWICZ, Anselmo. Dicionário de termos próprios e relativos)

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