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Ir para a página principal Banhos de cheiro, de mato, de ervas

"Mais ignorante é quem ri do que quem usa…" A tradição popular brasileira incorporou essa crença juntando tudo o que os colonizadores e escravos trouxeram com os costumes da terra e sua vegetação. E elabrorou as mais diversas fórmulas para os banhos de descarga, em cuidadosas adaptações, para atender cada situação ou objetivo.

Mais comuns no norte e nordeste do Brasil, os banhos de cheiro inicialmente estavam associados às sortes de São João, no mês de junho, mas, dada a sua extensa lista de possibilidades de cura e descarrego e às promessas que podiam atender, tornaram-se uma espécie de terapêutica generalizada contra má sorte, infelicidade no amor e nos negócios, mau-olhado e quebranto, que pode socorrer a todos que nela acreditam.

No sertão, os banhos de cheiro começavam a ser preparados no dia anterior, com a mistura e a "esfregação" dos vegetais, sempre manualmente; em alguns casos, o cozimento do buquê já pronto devia ser feito ao sol ou mesmo no fogão. Pronto o cozido, obtinha-se um caldo grosso e esverdeado que era coado num recipiente novinho, virgem, como se diz, e colocado ao ar livre, para ficar exposto ao sereno a noite inteira.

Bem cedo no dia seguinte, antes de o sol nascer, a pessoa devia esfregar todo o corpo com o caldo, demoradamente e sempre meditando sobre seu problema ou seus objetivos. Em seguida, tomava um banho com água, se possível fria. Sabonete ou toalha eram proibidos, pois qualquer elemento podia cortar as "forças" conjuradas. O banhista devia esperar até que se secasse naturalmente. Nesse momento, para não se resfriar, fazia fricções enérgicas com álcool ou água-de-colônia, aquecendo-se e apressando a evaporação.

Uma tradição que se mantém

Algumas mudanças se incorporaram a essa tradição, conforme os banhos foram se tornando conhecidos em todo o território nacional. Hoje, pode-se tomar o banho normal, com água pura mas sem sabonete, antes ou depois do banho de descarga; se necessário ou desejado, é feita a fricção com óleo ou loção de banho. Os dias apropriados ainda são os ímpares (terças, quintas e sábados), que devem ser repetidos por cinco, sete ou nove vezes, conforme a necessidade do banhista ou a gravidade da situação que motiva o banho.

Cada pessoa deve preparar o seu próprio banho ou adquiri-lo, pois o comércio já oferece composições prontas; de qualquer forma, é o interessado quem deve obter o material. Enquanto prepara seu banho, a pessoa deve mentalizar energias positivas, objetivos que quer ou precisa alcançar ou a liberação das energias negativas que o estão atormentando.

Terminada a preparação, é comum tomar o banho normal, de chuveiro, usando, quando muito, um sabonete neutro. Em seguida, é só continuar calmamente o ritual e tomar o banho de descarga, que deve excluir a cabeça, ou seja, atingir o corpo do pescoço para baixo. Muitos preferem banhar-se novamente com água limpa, sem sabão, ou apenas fazem a fricção com o produto cosmético de sua preferência. O importante é não permitir que nada quebre a concentração positiva.

Banhos consagrados

Existem duas formas mais conhecidas de banhos de descarga: a primeira utiliza um cozido de ervas escolhidas, do qual obtém-se um líquido concentrado. O segundo método é a defumação, na qual queimam-se as ervas preparadas de modo que a fumaça envolva o corpo da pessoa; neste caso, as partes da planta usadas devem ser previamente secas, em geral, ao sol.

Algumas ervas são mais utilizadas, por serem mais apreciadas, mais comuns no mercado ou terem sua eficiência consagrada:

Para banhos líquidos:

alecrim-de-horta (folhas)
alfavaca (folhas)
alho (toda a planta)
cedro-rosa (folhas)
cipó-caboclo (folhas)
comigo-ninguém-pode (folhas)
espada-de-são-jorge (folhas)
gervão (folhas)
guiné (toda a planta)
hortelã-pimenta (folhas)
lágrimas-de-nossa-senhora (toda a planta)
limoeiro (folhas)
sucupira (sementes)
verbena (folhas)
violeta (pétalas)

Para defumação (todas as ervas devem ser previamente secas):

babosa (folhas)
benjoim (folhas)
cafeeiro (folhas)
cana-de-açúcar (bagaço)
guiné-pipi (folhas)
incenso (folhas)
mirra (folhas)

(BONTEMPO, Márcio. Medicina natural)
 

Ilustração de Marcos Jardim

A tradição dos banhos mágicos consagrou algumas fórmulas preparadas com ervas típicas de regiões sertanejas, que atendem a alguns problemas ou aspirações muito comuns a todos que se socorrem dos banhos de descarga. Muitas dessas composições se encontram à venda em casas especializadas já prontas para o uso. Selecionamos algumas delas:

Banho para ser feliz (I)

3 folhas de laço-do-amor
3 folhas de chega-te-a-mim
3 galhos de chama

Prepara-se o cozido como foi explicado e, na hora de tomar o banho, acrescenta-se:

3 dedos de cachaça
3 dedos de água-de-colônia
3 dedos de lavanda

Banho para uso diário

1 maço de patchuli
1 maço de priprioca
1 cipó-caatinga
Alecrim
9 pingos de cachaça

Banho para limpar o corpo de má influência

9 pedaços de palha benta
1 pedaço de palha de alho
1 pedaço de louro-rosa
3 galhos de arruda
3 folhas de louro
3 folhas de jucá
3 galhos de trevo-torcidinho

Deve-se tomar primeiro um banho normal. Antes do banho de descarrego, acrescenta-se ao cozido:

3 dedos de cachaça

Banho para ser feliz (2)

Carrapatinho de laranjeira
Pega-rapaz
Água de quina
Água-de-colônia
Água-de-lavanda
Loção Dança Pajé
1 colher de café
1 colher de açúcar
Cachaça

Este banho não deve ser fervido. Esfrega-se uma vasilha nova com as ervas e depois misturam-se os outros ingredientes nela.

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